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Yanto Laitano

Yanto Laitano: “muitos processos artísticos são inconscientes, e não são menos reais por isso”

O mundo tem sido um lugar confuso ao longo da última década, mas Porto Alegre, em especial, tem vivido esses últimos tempos de maneira muito intensa. De 2010 para cá, a cidade brigou várias vezes com a própria história (para o bem e para o mal), tentou romper com a sua tradição boêmiaimpulsionou movimentos conservadores que a turma mais antiga nunca imaginaria que passariam pela cidade e também inspirou movimentos contestatórios que se espalharam pelo Brasil e depois ganharam projeção mundialYanto Laitano, que não é porto-alegrense, mas adotou a cidade como casa, esteve em todos esses episódios ao menos como expectador, absorvendo os acontecimentos e transformando boa parte deles em música. Curiosamente, Yantux, disco lançado recentemente por ele, é o seu primeiro álbum solo desde (justamente) 2010. Logo, o trabalho é o primeiro longo relato do artista sobre o furacão que passou pela capital mais ao sul do Brasil neste período tão turbulento e repleto de significados.

Yanto Laitano

Yanto Laitano: o disco novo, Yantux, tem episódios que se passam em uma cidade turbulenta que está longe de ser fictícia.

O longo hiato que se vê ao olhar para a discografia de Yanto (são sete anos entre o seu primeiro disco e o álbum recém-lançado) tem uma boa explicação: desde que Horizontes e Precipícios (2010) veio ao mundo, Yanto começou a lecionar e envolveu-se com projetos musicais dos mais variados tipos, indo da produção de música erudita às trilhas para cinema, passando pela música experimental e caindo de cabeça em uma profunda imersão em sonoridades indígenas. Em paralelo a isso, lentamente, o disco novo foi sendo gerado, acumulando canções ao longo dos anos até que se tornasse um disco conceitual que narra a jornada de um personagem poético perdido entre o caos da cidade grande e os dilemas das relações humanas em geral. É a história de um personagem montado, diz ele, mas não poderia soar mais autobiográfico nas entrelinhas.

O disco novo, o trajeto percorrido por Yanto nos últimos sete anos e o cenário urbano descrito indiretamente nas canções foi o tema de um papo que eu tive com ele na semana passada. Também compareceram temáticas como a “nova indústria fonográfica” e a nova configuração do fazer artístico dentro do caos causado por tantas forças diferentes ao longo deste início de milênio. Caos, este, que muitas vezes cansa os ombros, mas que precisa urgentemente ser tratado como realidade factual para que seja enfrentado, contornado e renda bons frutos.

NEW YEAH: tu tem trabalhos bem conhecidos com música experimental, música erudita, teatro e cinema, além de já ter gravado discos de música popular. O Yantux (2017) é um disco pop, mas tem muita coisa dentro dele, inclusive música experimental (nas vinhetas e nos efeitos ao longo de quase todas as faixas), teatro (na construção dramática do personagem principal) e cinema (sobretudo na narrativa linear que percorre as faixas de um disco enquadrado como conceitual). Sinto que pela primeira vez tu produziu uma obra que sintetiza quase todas as tuas áreas de interesse. Tu pensou mesmo em fazer essa síntese enquanto produzia?

A análise está certíssima. O Yantux tem todos esses elementos que você citou. Eu sempre produzi em estilos diferentes e em muitas áreas artísticas diferentes. Carrego comigo todas essas experiências, então às vezes é inevitável misturar estilos em um determinado trabalho. Esse disco, no entanto, marca a primeira vez em que fui fundo nessa mistura. Algumas coisas foram feitas de maneira consciente, e outras nem tanto. Digamos que as peças surgiram de maneira não-consciente e foram sendo encaixadas de maneira consciente, como numa espécie de quebra-cabeça. Dá pra dizer que eu fui tomando consciência ao longo do processo. Estendendo um pouco a reflexão, eu não gosto muito de rótulos ou enquadramentos. Essas divisões tendem a ser simplistas, criar fronteiras e classificações limitadoras. Apesar disso, usar um rótulo pode ser uma boa maneira de passar uma informação importante de maneira direta. O rótulo de “disco conceitual”, na cultura pop, por exemplo, identifica trabalhos que contam uma história, que possuem uma narrativa que se desenvolve com personagens, por isso estou classificando o Yantux desta maneira.

NEW YEAH: como foi estruturado o teu álbum novo? “Neo Hippie” é uma canção tua que tem pelo menos sete anos e que já aparecia nos shows de divulgação do teu primeiro disco, lá por 2010. Como tu foi agregando esse material até que ele formasse o disco conceitual que tu acabou lançando?

Bom, “Neo Hippie” e “Imbecil” foram as primeiras faixas a chegar. As duas foram compostas logo após eu terminar o disco anterior. Não levei mais do que 15 minutos em cada uma. Fui pro piano e elas surgiram de primeira. Enquanto “Imbecil” é autobiográfica, “Neo Hippie” é sobre uma personagem. Com o tempo, fui pensando em como seria se houvesse uma relação entre as duas músicas. Essa foi a ideia inicial, que aos poucos foi sendo desenvolvida, conforme outras músicas, vinhetas e diálogos foram sendo criados. Alguns desses elementos que vieram a integrar o conjunto do disco tiveram uma concepção rápida, outros, como as faixas “Eu Vou” e “Disco Voador”, ficaram na gaveta por muitos anos, nascendo aos poucos. Conforme as músicas eram finalizadas, a história entre elas ia sendo desenvolvida. Quando todas as canções e vinhetas ficaram prontas, eu vi o que faltava pra completar a história e criei as conexões que entendi serem adequadas.

NEW YEAH: e, nesse encaixe final, algum material acabou ficando de fora por deixar de fazer sentido?

Sim. A balada “Vai Nascer o Sol” e um rock com pegada de música circense chamado “Não Vou Cortar Meu Cabelo”. As duas faixas faziam parte da história original, mas, quando todas as partes ficaram prontas e montadas, me pareceu que essas músicas criavam um desvio de roteiro. Então acabei decidindo por tirar as duas músicas do disco, apesar de já estarem prontas e de eu gostar bastante delas. Vamos ver… elas estão guardadas e podem ainda serem lançadas no futuro.

Yantux (180 Selo Fonográfico, 2017)

Yantux (180 Selo Fonográfico, 2017). A parte gráfica do trabalho é assinada por Leo Lage (arte) e Raul Krebs (fotografia).

NEW YEAH: esse álbum tem bem menos piano do que o anterior, Horizontes e Precipícios (2010), onde o instrumento aparecia como fio condutor. Essa mudança foi intencional ou aconteceu mais organicamente?

Foi intencional. Horizontes e Precipícios foi criado para ser um disco de rock focado no piano mesmo, com acompanhamento de bateria e de baixo. Ocasionalmente há naquele trabalho outros instrumentos, como clarinete, trompa e órgão, mas é o piano quem faz a maior parte das funções harmônicas, além de riffs e solos. Eu sempre curti esse formato de trio, que já foi usado por Arnaldo Baptista, Ben Folds, Charly Garcia e Beatles, e a intenção naquela oportunidade foi explorar isso. Depois de gravar e tocar bastante com um trio sem guitarra, resolvi mudar o esquema. A primeira definição do disco novo, antes mesmo do nome Yantux, era explorar bastante a guitarra e o violão. Então esses instrumentos fazem a maior parte dos solos e dos riffs desta vez, além de dividir a função de harmonia com o piano, que não sumiu, mas que já foi projetado desde o início para não ser o único protagonista.

NEW YEAH: aliás, como foi a tua trajetória nesse período entre-discos?

Lançamos o Horizontes e Precipícios no sul e em São Paulo entre 2010 e 2011. Em 2012, lançamos o clipe de “Eu Não Sou Daqui”, e seguimos tocando com a formação de trio. Depois, fiz alguns shows em Cuba, onde também captamos material para o clipe de “Libertad”, música que escrevi por lá mesmo e que foi lançada em 2015. Nesse mesmo ano, lancei o single “Ela Gosta de Garotas”. Essas produções já contaram com guitarras e violões do Beto Chedid. Nesse meio tempo, fechamos a formação de quarteto. Aliás, todos os músicos que tocam comigo também fazem parte da Orquestra de Brinquedos, que é um projeto que corre em paralelo com todos esses outros que comentamos antes. No meio de tudo isso, tive contato com integrantes de diferentes povos indígenas, com quem aprendi, gravei e toquei, inclusive na Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Natural). Foram experiências incríveis que resultaram em músicas incríveis, algo que pretendo retomar no futuro. Então, foram sete anos de muita produção.

NEW YEAH: imagino que a distância entre os lançamentos dos discos da tua carreira solo (2010 a 2017) tenha sido resultado do teu envolvimento com todas essas frentes.

Também. Eu levei sete anos para lançar o Yantux por dois motivos. Primeiro, porque eu não tinha algo como uma gravadora, produtora ou edital para determinar datas e fazer pressão para que estas datas fossem cumpridas. Assim, a criação do disco foi sendo desenvolvida ao seu tempo, até chegar em um ponto em que eu entendi que o trabalho estava pronto. Segundo, esse processo aconteceu ao longo de sete anos muito intensos, como já falamos. Comecei a dar aulas no curso de Produção Fonográfica da Unisinos e criei a Orquestra de Brinquedos, que rapidamente começou a fazer bastante sucesso com o público infantil e adulto, resultando em uma ótima agenda de shows. O processo de produção do Yantux precisou conviver com todas estas coisas, então correu em um ritmo diferente.

NEW YEAH: o teu primeiro disco foi parido em 2010, em um cenário bastante diferente do atual. Para citar um aspecto, a rádio que mais tocou o teu primeiro disco (Ipanema FM), já não existe mais, enquanto o Spotify, que é a principal plataforma para audição de música hoje, sequer existia no Brasil em 2010. Analisando as possibilidades tecnológicas, econômicas e culturais, como tu sente o cenário musical e as mudanças que ele sofreu na última década?

“Os artistas que surgiram após a mudança na indústria conseguem se sair melhor com o novo cenário. Já os artistas que tiveram o esquema antigo como referência precisam se reinventar, porque aquele mundo deixou de existir”.

Já por volta da entrada dos anos 2000, o esquema mudou bastante, né? As gerações que vieram antes disso, inclusive a minha, foram influenciadas e tinham como modelo um mundo que deixou de existir. Até então, o sonho de nove entre cada dez artistas era cair nas graças de uma gravadora. Existiam gravadoras e selos de diferentes tamanhos e perfis, que sempre estavam procurando novidades para investir. Algo parecido acontecia com as rádios. Existiam caminhos, e cada aspirante a músico já tinha lido, ouvido, falado e visto muito sobre isso. De repente, as coisas mudaram e todo mundo ficou meio perdido. Por um lado, ficou muito mais simples e barato lançar um disco, fazer um show ou divulgar um trabalho. Por outro lado, ficou muito mais difícil vender discos, pois todo mundo passou a compartilhar arquivos de música. Com a queda da venda de discos, as gravadoras e produtoras começaram a entrar no mercado de shows, e sobrou pouco espaço pra quem não tinha muito poder de fogo neste cenário. Com a facilidade da divulgação digital, surgiu uma enorme quantidade de música disponível. Essa overdose de informação, ao mesmo tempo em que oferece um cardápio quase infinito, faz com que muita coisa interessante passe desapercebida. Sem dúvida, quem mais ganhou com isso foi o público. Do lado de cá, me parece que os artistas que surgiram após essa mudança de esquema conseguem se sair melhor com ela, porque viveram isso desde sempre. Já os artistas que tiveram o esquema antigo como referência precisam se reinventar.

NEW YEAH: como comentamos anteriormente, tu tem entrada em meios onde os artistas populares geralmente não pisam, já tendo gravado álbuns experimentais e produzido discos de música erudita. Como essas outras áreas, fora da música popular, lidam com estes novos tempos?

A música erudita também enfrentou a sua crise, mas muito tempo antes da era digital, e sobreviveu basicamente graças à academia. Quando esta virada que comentamos antes aconteceu, a música erudita outra vez enfrentou dificuldade mas, me parece, com muito menos intensidade do que já havia enfrentado antes. Já a música experimental sempre assimilou e se abasteceu de mudanças, então é comum que ela não se assuste muito com as movimentações ao redor, o que não quer dizer que a reconfiguração do ecossistema não a afete. Sob o ponto de vista da venda de discos, por exemplo, a música experimental compartilha da mesma problemática da música pop.

NEW YEAH: alguns momentos da tua obra trazem mensagens mais ou menos diretas que evidenciam o teu olhar sobre a cidade de Porto Alegre. No Yantux, a canção “Disco Voador” fala de uma saudade do campo e traz uma visão menos empolgada sobre a metrópole se compararmos ela ao discurso de “Porto Alegre Blues” (2010). Tu está mais pessimista sobre a cidade mesmo? 

Essas duas canções falam da cidade sob aspectos diferentes, realmente. “Porto Alegre Blues” foi escrita sob o ponto de vista de alguém que veio de uma cidade do interior e que estava deslumbrado com a cidade nova, com as suas descobertas e possibilidades. “Disco Voador” apresenta um ponto de vista de alguém que vive numa grande cidade e sente falta da pureza de uma cidade do interior, sofre com isso, mas tem esperança de uma mudança que traga a paz do interior para a metrópole. É possível fazer uma relação entre esse pessimismo apontado e a situação atual de Porto Alegre, do estado e do país, porque realmente estamos vendo a deterioração das nossas condições de vida. Mas admito que ainda não tinha relacionado conscientemente as duas faixas. Aliás, muitos processos artísticos são bastante inconscientes, apesar de não serem menos reais por isso.

NEW YEAH: e, falando especificamente de música, como você sente o atual estágio da cidade? Conhece/tem ouvido bandas novas?

Eu produzo mais do que pesquiso e crio muito mais do que consumo. Eu curto compor e tocar e, na maior parte das vezes, esse processo é algo solitário. Isso faz com que eu saia muito pouco e saiba muito pouco sobre novos sons e bandas. Não é por falta de interesse no externo, mas é que meus processos internos consomem o meu tempo e eu aceito isso. Acabo escutando as coisas que estão ao meu alcance, que vêm de amigos músicos, como o Gustavo Telles. Quanto às bandas novas, acabo tendo um contato especial com o pessoal que circula pela Unisinos, onde dou aula, como a banda Maleta Elétrica, que lançou um bom EP intrumental em 2017.

NEW YEAH: por fim, entre tantas atividades que tu mantém, como está pensando em organizar a divulgação do Yantux? Pensa em fazer uma tour ou algo do tipo?

Sim. A idéia é tocar para o maior número de pessoas. Temos apresentado o disco ao vivo na íntegra, com todas as canções, vinhetas, efeitos e conversas telefônicas feitas no palco. Tocam comigo o Beto Chedid (guitarras, violões e efeitos) e o Filipe Narcizo (baixo e bandolim), que também gravaram o disco, além do Fábio Ly Bockorny (bateria e efeitos). Nos shows do Yantux, todos fazem vocais e participam das conversas telefônicas. Também montei uma versão do show com uma formação de duo, apenas contando comigo e com o Beto. As duas versões do show contam com projeções em vídeo da Jana Castoldi, que adapta essas projeções conforme a arquitetura do lugar onde tocamos. Essa capacidade de adaptação do show faz com que seja possível apresentá-lo em todo tipo de lugar, inclusive nos menores, desde que esteja escuro o suficiente para as projeções serem vistas. Logo que começamos a apresentar o Yantux, tanto com banda quanto com duo, as pessoas vinham nos contar sobre como ficavam impressionadas, impactadas mesmo, com todo esse lance de música e imagem. Aliás, o espetáculo ao vivo completa o disco de maneira tão interessante que o próximo projeto deve ser um DVD do Yantux. Em resumo, é um show que deverá circular bastante, tanto pela facilidade de adaptação a diferentes espaços e custos, quanto pelo retorno muito positivo que temos recebido do público.

No próximo dia 09/03, o show Yantux passará pela casa colaborativa CUCO, em Canoas. Detalhes sobre o evento podem ser conferidos neste link. Já no dia 10/03, o show vai a São Francisco de Paula, na serra gaúcha. Os ingressos para as duas apresentações já estão à venda.