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Xanaxou, 2016

Xanaxou: o sagrado, o profano e os desafios de ser mulher

O encontro aconteceu a partir de uma residência chamada Xanadona, organizada em uma galeria de arte no centro do Rio de Janeiro. A proposta da residência era executar atividades experimentais que tratassem da mulher e de seu lugar social, mas a atmosfera de representatividade feminina acabou impulsionando a reunião de diversas artistas que logo depois formaram uma banda. Quase dois meses depois, já são 12 mulheres unidas pela sororidade e pelos seus impulsos criativos no grupo que ganhou o nome de Xanaxou.


O grupo é bem recente, fez apenas três apresentações, mas Ana Cláudia Lomelino, Bel Baroni, Camila Costa, Clara Cosentino, Giulia Drummond Battesini, Ju Storino, Laura Lavieri, Mari Romano, Paola Alfamor, Poliana Pieratti, Larissa Conforto e Rafaela Prestes já enchem o palco e os olhos de quem assiste, misturando feminismo, teatro, poesia e misticismo.

Fomos acompanhar uma das apresentações da Xanaxou e aproveitamos para trocar uma ideia com as meninas.

NEW YEAH: como surgiu este projeto e como ele foi tomando esta proporção? São 12 integrantes no total… 

BEL BARONI – Eu e a Ana (Lomelino) temos uma amiga em comum, a Anitta. Foi ela que lançou esse desafio de angariarmos meninas para tocar. Como o meio musical é muito dominado por homens, a gente teve que fazer bastante esforço para achar mulheres instrumentistas. A Ana fez um post no Facebook muito legal do tipo “Mulheres instrumentistas, cadê vocês?” A maior galera foi respondendo, por inbox, vários nomes. Achamos foda! Elas existem, mas não sabemos ou conhecemos porque não circulam. Fiz um outro post perguntando sobre compositoras mulheres. Um monte de gente respondeu; 200 comentários com compositoras maravilhosas, de pessoas que eu nunca tinha ouvido falar na minha vida. Fizemos essas duas pesquisas e eu liguei pra Clara (Cosentino) e falei “Chama a Poli (Pieratti)! Vamos fazer!”. Mas não pensávamos inicialmente em formar uma banda. A gente foi fazendo essas escolhas, realizando encontros e rolou organicamente.

Xanaxou, 2016
Espetáculo da Xanaxou no Espaço Sérgio Porto.

POLIANA PIERATTI – Aí tem essas relações dos gêneros musicais. Veio uma galera do rock-psicodélico-experimental, uma galera do jongo, do canto arcaico, a galera da MPB contemporânea, do forró, do maracatu… pensei em como é que a gente ia unir essas tramas todas. Mas foi muito natural. De repente a gente tava dando uma volta ao mundo.

BEL BARONI – Daí a gente começou a pensar no repertório. Surgiu um rock meio experimental/improvisado na primeira apresentação que a gente fez. Depois dos nossos debates, começamos a perceber sobre o que a gente queria falar, e fomos incluindo várias questões. Fomos mapeando as músicas assim. A gente tá falando da santa, a gente tá falando da puta, a gente tá falando do sagrado e do profano, do parto e do aborto. De ser mulher, afinal.

MARI ROMANO – O nosso primeiro show foi um ensaio aberto, basicamente com versões. Mas, de tanto a gente conversar, e olha que a gente conversa pra caramba, surgiram uns papos que por si sós já eram poesia. Aí a gente foi lá e colocou no papel.

“A principal característica do feminino é a força do vínculo. Não é a força da gestação ou de parir, é a de manter uma vida por nove meses dentro do próprio corpo; é a força de manter amamentando aquela vida”.

POLIANA PIERATTI – Uma vez eu fui a um encontro sagrado feminino na lua cheia, na primavera etc., e cada mulher lá tinha que falar a característica que ela achava ser a principal do “feminino”. E em algum momento a gente falou que era a força do vínculo, a força da relação. Não é a força da gestação ou de parir, é a de manter uma vida por nove meses dentro do próprio corpo; é a força de manter amamentando aquela vida. De repente a gente agrega tudo, vira 12 do nada. É uma banda muito grande e a gente não se desgruda. A música tem muito disso. Eu acho que música se chama “música” e termina com “a” porque ela é extremamente feminina. Tá na hora da gente pegar ela pelo chifre e dizer “peraí, eu preciso montar nela também”!

NEW YEAH: assim como em todos os outros meios, por integrarem uma banda só de mulheres, vocês devem ter enfrentado alguns percalços. Não?

BEL BARONI – Quem tem banda aqui sabe como é. A mulher geralmente é vocalista, percussionista ou produtora.

MARI ROMANO – Hoje mesmo um cara apareceu no camarim e perguntou: “Uma banda só de mulheres? Todas cantam? É um grupo vocal?” Tá fora do imaginário mesmo.

CLARA COSENTINO – Como em qualquer meio, existe uma opressão bizarra só pelo fato de sermos mulheres. Isso fica mais evidente na música, que é um tipo de arte muito conjunta.

RAFAELA PRESTES – Eu passo por isso diariamente. Os técnicos recebem e vão falar com qualquer pessoa da banda. Eu tenho que me apresentar “Oi? Tudo bem? Eu sou a técnica.” E ainda assim eles continuam falando e perguntando as coisas pra algum cara, sabe? Ignoram a minha presença.

LARISSA CONFORTO – O que eu mais sofro na música é isso. Eu chego pra passar o som e inverto a bateria. Eles querem que eu não inverta. Qualquer coisa que eu peça eles vão perguntar pros meninos se é isso mesmo. Eles vão perguntar pro guitarrista e pro baixista se eu quero ouvir a minha própria voz no meu próprio retorno. Outro dia fui tocar numa gig, lá tinha uma bateria e ninguém sabia montar ela. Perguntei se podia montar. Fui lá e montei. Ninguém sabia afinar. Perguntei se podia afinar, e afinei. Montei pra destro, já que o primeiro baterista era destro. Quando eu fui inverter: “Ah, mas tem que inverter mesmo?” É um saco a masculinização da música! É um saco a masculinização do baterista. Por que eu tenho que ser homem pra ter a força de tocar uma bateria? Vocês já tentaram opinar numa mixagem? Você fala que talvez fique melhor mais grave. O técnico olha pros caras e pergunta a opinião deles. Fiz faculdade de Produção Fonográfica e eu era a única mulher numa sala de 50 alunos. O terceiro período eu fiz com uma menina que não aguentou e foi embora também.

MARI ROMANO – É a pirâmide do patriarcado: crianças, mulheres e homens. Quando alguém faz essas coisas, eu fico pensando que isso tudo é fruto de uma ferida muito antiga e de um sistema muito cruel.

RAFAELA PRESTES – Se eu fosse levar realmente pro lado pessoal, eu não trabalharia. O meu trabalho depende muito de estar OK com a equipe local. E isso inclui ouvir coisas do tipo “Você sabe mesmo mexer na mesa?” e responder sorrindo “Eu tô aqui pra isso”.

MARI ROMANO – Isso torna a nossa banda mais importante ainda, porque as meninas vão ver a gente tocando e vão montar a banda delas também. Sempre digo: “Nunca seja groupie. Monte sua própria banda”.

POLIANA PIERATTI – A gente tem que abstrair comentários machistas o tempo inteiro. Quando machuca, dói e a gente reclama, aí a gente é histérica. Às vezes eu me pergunto qual a parte difícil de entender. Respeito é uma coisa muito simples, né?!

BEL BARONI – Sempre quando a gente se encontra pra conversar, estamos entrando nessas questões. Acho que é impossível separar o nosso fazer do nosso refletir. Não é uma coisa qualquer uma banda de mulheres fazendo música e fazendo essas propostas. É uma coisa que envolve muito ato político, muita reflexão sobre como a mulher é encarada na sociedade. Nunca é simplesmente chegar e ensaiar. Sempre é um universo muito complexo, extenso e turbulento.

NEW YEAH: e como expor tudo isso no palco? 

GIULIA DRUMMOND BATTESINI – Acho que a nossa ideia é justamente poder evocar todos os arquétipos possíveis, tudo o que a gente puder trazer da mulher. No palco, no figurino, a gente aposta naquela mulher que a gente quer representar. Há várias mulheres representadas ali. Muitas mulheres que assistem se veem representadas nos arquétipos que nós mostramos.

RAFAELLA PRESTES – Fora as diferenças que existem entre nós. Cada uma veio de um lugar, com referências diferentes, ouve músicas diferentes e tem uma relação diferente com o fato de “ser mulher”. São essas diferenças que fazem a nossa unidade ser interessante musicalmente.

MARI ROMANO – Como todas fazemos coisas fora da Xanaxou, essas coisas acabam se refletindo na banda também. Todas trazemos para a banda os nossos próprios universos e eles formam uma deusa que está em todas nós.

POLIANA PIERATTI – E não tem a ver com um campo asséptico, luminoso e purificado. A gente entende esse paralelo espiritual dentro desse campo de energia mesmo. É muito mais terreno do que celestial.

NEW YEAH: por fim, como as últimas notícias envolvendo os desafios de ser mulher chegaram até vocês? Como exorcizar isso tudo numa apresentação?

BEL BARONI – A gente está sempre se culpando por existir, é impressionante. A menina fez uma postagem no Facebook agradecendo o apoio das pessoas, mas inicialmente achou que seria julgada mal. É a culpabilização da vítima. É o que a gente vive. A menina foi estuprada porque ela tava bêbada ou porque ela traiu o cara. Alguma coisa ela fez.

PAOLA ALFAMOR – Essa culpa da mulher vem desde o mito da Eva. Foi ela quem induziu Adão a comer a maçã e então eles foram expulsos do paraíso.

GIULIA DRUMMOND BATTESINI – A dominação do homem sobre a mulher se deu a partir desse entendimento de que a mulher é perigosa. Em vários lugares do mundo as mulheres têm que se cobrir inteiramente porque os homens são incapazes de se controlar diante do perigo e da tentação que é ter uma mulher na frente deles.

MARI ROMANO – Ninguém coloca a responsabilidade nos homens. Só apontam: “Engravidou? Puta! Abortou? Assassina!” Cadê os homens nessa história?

LARISSA CONFORTO – Encontraram o Facebook da mãe de um dos meninos envolvidos nesse caso do estupro e foram lá culpar ela pelo que o filho fez.

POLIANA PIERATTI – Quando soubemos da notícia, sentimos que a gente precisava falar daquilo. O show tem algumas cenas. Tem “O Parto e o Aborto” e “O Funeral do Patriarcado”. São os dois momentos-chave, dois rituais. A gente combinou de falar sobre o caso do estupro em “O Funeral do Patriarcado” porque, para a nossa própria sanidade, a gente precisava matar aquela questão ali, ainda que metaforicamente (Veja o vídeo acima).

Atualização: após a entrevista, pelo Facebook, Giulia Drummond Battesini ainda nos passou mais algumas informações legais: “acho importante dizer que a canção ‘Coração Aprisionado’ é da dupla de mulheres maravilhosas Luli e Lucina, que ‘Mulher Planeta’ é da Mari e da Poli, que a ‘Balada da Arrasada’ é da Angela Ro Ro e o xou de luzes do Marc Kraus. Ingredientes lindos no caldeirão”.

Xanaxou: Ana Cláudia Lomelino (vocalista da banda Tono) / Bel Baroni (musicista, escritora, produtora e integrante da banda Mohandas) / Camila Costa (cantora e compositora) / Clara Cosentino (filmmaker, guitarra e voz da Cosmos Amantes) / Giulia Drummond Battesini (cantora) / Ju Storino (percussionista) / Laura Lavieri (cantora e parceira musical de Marcelo Jeneci) / Mari Romano Paola Alfamor (artista visual e tatuadora transcendental) / Poliana Pieratti (artista visual, teclado, synths e voz da banda Cosmos Amantes) / Larissa Conforto (baterista da banda Ventre) / Rafaela Prestes (técnica de som)