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Sétima edição do festival El Mapa homenageia o centenário da artista chilena Violeta Parra

2017 é o centenário de Violeta Parra. Mãe do folk latino-americano, poeta, antropóloga-sem-diploma, compositora, cantora, artista plástica e mais importante folclorista do Chile, nascida em 4 de outubro de 1917. O Festival El Mapa de Todos, que anualmente conecta o sul do Brasil à latinidade continental, em 2017 homenageia uma das artistas que ajudou a esculpir a cultura latina e fez da resistência o seu segundo nome.

Violeta Parra

Violeta Parra nasceu na província de Ñuble, na comuna de San Carlos, no Chile. Filha de campesinos pobres, cresceu com oito irmãos em uma realidade dolorosa, em meio ao desemprego e à miséria características de sua região naquele início de século. Seu pai, antes de ser professor primário e de música, trabalhava como inspetor de estradas e vigilante de presídio. Sua mãe, dona de casa e costureira, tocava violão e cantava acompanhada pelo marido, que tocava violino, harpa e piano. Juntos, eles se apresentavam nos bares e restaurantes da comuna.

El Mapa de Todos 2017

Os shows do Festival El Mapa de Todos ocorrem em Porto Alegre de 02 a 04 de Maio. Os ingressos limitados estão disponíveis online nos links abaixo:
Dia 02/05: Francisco, El Hombre & Yangos
Dia 03/05: Daniel Drexler & Carmen Correa
Dia 04/05: Boogarins & Romperayo & Zudizilla

Aos seis anos de idade, Violeta Parra começou os seus estudos na Escuela Normal de Santiago. Na mesma época, começou a estudar violão e a cantar junto de seus irmãos Hilda, Eduardo e Roberto. O ambiente escolar foi muito difícil para Parra, marcado por discriminações, não só por sua pobreza, mas também pelas marcas deixadas pela varíola que ela sofreu quando tinha apenas três anos de idade. Em algumas ocasiões, ela chegou a definir-se como “a mulher mais feia do planeta, que espantava aos que por acaso aproximavam-se dela”, como mostram algumas estrofes de seus escritos autobiográficos publicados anos mais tarde.

Depois de muitas dificuldades financeiras, e vivendo de favores em casa de parentes, formou-se professora. Porém, não se encontrou registro de que tenha exercido a profissão no ambiente escolar/acadêmico. Nesta época, compôs aproximadamente 130 canções e poemas originais e compilou, organizou e difundiu cerca de três mil temas.

Em 1938, Violeta casou-se com Luis Cereceda, maquinista ferroviário e militante do Partido Comunista Chileno. Com ele, teve dois filhos: Isabel e Ángel. Nessa época, ela tinha uma rotina de mãe e esposa dedicada. Encontrava refúgio nas madrugadas, enquanto escrevia suas poesias. O casamento durou apenas dez anos: quando Violeta Parra começou a se envolver mais com a música, se apresentando em bailes e eventos, o marido passou a pressioná-la para que ela se dedicasse apenas a ser uma dona de casa. Em 1948, a separação foi inevitável.

Em uma entrevista, quando questionada sobre a separação, Violeta respondeu: “estoy separada de él. No apreciaba mi trabajo y no hacía nada cuando estaba con él. Quería una mujer que le limpiara y le cocinara” (PARRA, Isabel, 1985, p. 34). Violeta casou-se ainda mais duas vezes. Ambos casamentos foram sempre meros detalhes na biografia de uma mulher que cultivou a autonomia acima de todas as coisas.

“Toda mi vida fui muy sola, por eso me he metido en tanto camino. Muchas espinas. Muy oscuro. Muy seco todo y muy salado”. Violeta Parra

Em 1949, ela começou a pôr em prática os seus projetos para resgatar a tradição do povo campesino chileno. Também em 1949, começou a cantar com sua irmã Hilda, gravando inclusive discos pela RCA Victor. Em 1952, era diretora, vendedora de ingressos e roteirista da companhia de circo popular Estampas de América. Percorreu inúmeras províncias do país que nunca haviam tido acesso a esse tipo de material cultural. Nessas viagens, Violeta unia a arte do canto e da dança com o trabalho voluntário de pesquisa e compilação do folclore. Seu interesse pelo folclore era motivado pelo contato direto com o povo campesino e com a sua riqueza cultural.

Conforme Violeta Parra ia colecionando e pesquisando a música folclórica do Chile nos seus mais variados ritmos e gêneros, percebia que a cultura tradicional estava desaparecendo por força de um processo de modernização. Observava também que o que se tocava no rádio era muito diferente das origens chilenas. Isso tudo a motivava a divulgar e transmitir os seus valores ainda mais.

Em 1953, gravou suas primeiras canções em um disco da EMI-Odeon. Duas das canções registradas naquele álbum eram baseadas em temas folclóricos: “Casamiento de Negros” e “Qué Pena Siente el Alma”. Esse disco deu à Violeta grande popularidade. Ao mesmo tempo, ela continuou os seus contatos com músicos campesinos, que lhe ensinaram a tocar diversos instrumentos típicos do folclore chileno, entre eles, o guitarrón, um instrumento de 25 cordas que nem antes, nem depois de Violeta foi utilizado por outro artista com alcance de massas.

Violeta Parra e o guitarrón

Violeta Parra e o guitarrón: o instrumento de 25 cordas exigia muita técnica para ser tocado e Violeta foi um dos raros ícones musicais na história a dominá-lo com destreza.

Em 1954, Violeta apresentou um programa na Radio Chilena. Nesse mesmo ano, ela iniciou um projeto de pesquisa folclórica que a fez percorrer todo o país entrevistando cantores populares, dançarinos, sábios e contadores de história. A tudo Violeta registrava por escrito e em gravações sonoras. Além de anotar canções, também ia classificando os costumes, as comidas, as bebidas, as roupas e os acessórios folclóricos. Pelo seu esforço, recebeu na primeira metade da década de 50 o Prêmio Caupolicán entregue aos maiores defensores do folclore andino. Na mesma época, participou de festivais culturais na Polônia, na Suíça, na Inglaterra e na União Soviética, chegando a morar por dois anos na França.

Em 1957, foi convidada pela Universidade de Concepción, no Sul do Chile, para continuar o seu trabalho de pesquisa, alojando-se na sede do Instituto de Arte. Criou, nesta mesma universidade, o icônico Museo Nacional del Arte Folklórico Chileno, inaugurado em janeiro de 1958.

No ano de 1959, Violeta afastou-se das atividades públicas por motivos de saúde. Neste período, aperfeiçoou suas técnicas de bordado, pintura e cerâmica. Sobre o bordado, chegou a declarar: “arpilleras são como canções que se pintam”. Entre 18 de abril e 11 de maio de 1964, foi realizada no Museu do Louvre uma exposição de suas pinturas, óleos, arpilleras e esculturas em arame, tendo sido ela a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual nesse espaço.

Niños en Festa, Violeta Parra

“Niños en Festa”, uma das peças visuais mais conhecidas de Violeta Parra, que especializou-se como artista gráfica em um período onde esteve afastada dos palcos por motivos de saúde.

Em 1965, Violeta Parra voltou ao Chile, onde fundou a “Peña de los Parra”, na comuna de La Reina: um terreno de estrutura simples, com uma lona de circo, onde seria o que Violeta chamava de “Universidade do Folclore”. A ideia era ensinar e transmitir ao máximo toda a cultura latinoamericana às novas gerações, projeto onde ela trabalharia durante diversos anos de sua vida.

Sempre motivando a reflexão sobre o que é ser chileno e latino-americano, Violeta levou o conhecimento ao seu sentido mais amplo. Para além dos espaços acadêmicos, ocupou circos, teatros, bares e programas de rádio e TV. Passou sua vida usando a arte como forma de salvar a sua origem. Mas isso não a salvou. No dia 5 de fevereiro de 1967, suicidou-se por sentir que estava sendo esquecida como a cultura da América Latina.

De sua vida, restou a obra que ajudou a estruturar uma parte valiosa da cultura latino-americana e compõe até hoje o núcleo do que se entende mundialmente como latinidade. Restaram as canções políticas, como “La Carta”, com o trecho “os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia”, e os clássicos “Gracias a la Vida” e “Volver a los 17” (ambas regravadas pela sua grande admiradora Mercedes Sosa). Em cada verso e centímetro, Violeta trouxe para as suas letras suas diferentes formas de vivência e resistência que refletiam a origem latina que ela tanto lutou para que se mantivesse viva.

“(…) Quando nasceste, foste batizada como Violeta Parra: o sacerdote levantou as uvas sobre tua vida e disse: ‘Parra és e em vinho triste te converterás’. Em vinho alegre, em peralta alegria, em barro popular, em cantochão. Santa Violeta, tu te converteste, em violão com lâminas que reluzem ao brilho da lua, em ameixa selvagem transformada, em povo verdadeiro, em pombo do campo (…)”. Pablo Neruda, em “Elegía para cantar”, de 1970.