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Volume XI #2 com Caio Augusto Braga e Magoo Felix: uma improvável história da música brasileira

O mainstream brasileiro dos anos 90 foi marcado por bandas que passaram a revisitar sons regionais e misturá-los com estéticas globais na criação de novas saídas sonoras. Os Raimundos com seu punk/forró, a Nação Zumbi com seu maracatu eletrificado e o Planet Hemp com seu hip hop que flertava com o samba foram ícones de um período de redescobrimento musical do Brasil. À margem disso, solidificou-se no underground uma cena de grupos que esteticamente rompiam com a tradição musical brasileira, vestiam a carapuça do rock independente internacional e, o que era mais polêmico, cantavam em inglês. A trajetória e o legado de bandas como Pin Ups, Hateen, Far From Alaska, Garage Fuzz, Loomer, Wry e Twinpine(s) são o tema do documentário “Guitar Days”, que percorreu mais de 10.000 quilômetros atrás dos protagonistas desta história que raramente aparece nos almanaques da música nacional.

Escute o podcast que entrevista os diretores do documentário a partir de 18’40”.

O diretor Caio Augusto Braga e o produtor associado Magoo Felix conversaram com a equipe do New Yeah durante a gravação do podcast Volume XI, contaram como surgiu a ideia do filme e falaram sobre os próximos desafios da equipe produção, que busca através de uma campanha de crowfunding (catarse.me/guitardays) a verba que será usada para cobrir os custos e lançar o material em todo o país.

NEW YEAH: o documentário trata de um movimento de bandas que se ergue a partir dos anos 90. Como surgiu a ideia de logo agora juntar todas essas bandas em uma mesma narrativa e qual a importância de um filme que fale da postura desses grupos para o momento atual da cultura no Brasil?

CAIO: primeiramente, a intenção era fazer um curta metragem sobre a ocupação do espaço público pelos músicos independentes em São Paulo. Eu observava a dificuldade dos grupos para promoverem os seus shows e percebia que havia ali uma história para ser contada. Quando comecei a fazer a pesquisa para esse curta, acabei vendo que tinha uma outra história, muito mais abrangente, por trás dos depoimentos que eu coletava. No caso, a história de uma série de bandas surgidas nos anos 90 que teve grande importância na nossa música e que ainda não tinha o seu devido registro.

NEW YEAH: tu meio que descobriu que precisaria de um prólogo… precisaria contar uma outra história antes de contar aquela que era tua ideia original.

CAIO: Exatamente. Percebi que as bandas não começavam a contar a história a partir de um panorama atual e que tudo começava lá atrás. Percebi também que era extremamente necessário contar essa história, porque ela não era óbvia. Então eu convidei o Magoo pra me ajudar. E, de cara, já avisei que eu não poderia pagar pela ajuda.

MAGOO: aí eu respondi que adoraria contar a história, desde que ele não enfiasse a mão no meu bolso, porque eu também não tinha um real.

CAIO: e o Magoo ajudou muito com o conhecimento e com os contatos que ele tem. Ele colocou a agenda dele pra funcionar e foi fundamental na linha narrativa do filme.

NEW YEAH: de certa forma, esse envolvimento sem fins lucrativos é uma marca da música independente no Brasil. O Caio até comenta no vídeo promocional do crowfunding que aquelas bandas todas cantavam em inglês não só por motivos estéticos, mas também ideológicos. Elas expressavam no idioma inglês a sua despreocupação com o mercado e o seu amor pela arte propriamente dita. Aquelas bandas não se importavam em vender.

CAIO: sim. E conversando com os artistas isso fica muito claro. Isso e mais uma porção de histórias. É uma emoção grande conversar com artistas dessa grandeza e extrair deles, em primeira mão, depoimentos de coisas sobre as quais eles nunca haviam falado.

MAGOO: tinha caras ali também que não tocavam em certos assuntos havia mais de 20 anos. A gente também percebia a emoção dos caras quando nós falávamos que algum show deles, em determinada data, havia sido relevante para a vida de um monte de gente. Alguns não tinham consciência da própria importância e foi emocionante poder mostrar isso pra eles.

Caio Augusto Braga, Guitar Days

Nos bastidores de um filme fundamental para a história do rock no Brasil: Caio Augusto Braga é um dos entrevistados da segunda edição do podcast Volume XI.


NEW YEAH: ao longo do documentário, vocês entrevistam bandas antigas e bandas não tão antigas assim, e o nível de preconceito enfrentado por essas diferentes gerações que cantaram em inglês é diferente. No início dos anos 2000 uma série de bandas já fazia música dessa forma e um grupo grande de fãs acompanhava e reconhecia essa produção. Como vocês perceberam essa mudança escutando os depoimentos dos entrevistados?

CAIO: aconteceu uma apropriação do inglês no final dos anos 80, que pegou pra valer quando o Pin Ups lançou o Time Will Burn, seguido pelo crescimento de bandas como o Second Come e Killing Chainsaw. O pessoal começou a perceber que o inglês estava pegando e isso aconteceu em paralelo ao estouro do grunge nos Estados Unidos e o crescente apelo em cima da bandas como o Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains. O novo rock do Brasil passou a ser aquele cantado em inglês. Nesse mesmo período a MTV entrou no Brasil e abriu as portas para esse cenário. E era um cenário onde as bandas não queriam mais fazer parte de um underground nacional. Isso era muito segmentado. Elas queriam fazer parte de um underground mundial. Aí, na segunda metade dos anos 90, estourou Raimundos, Mundo Livre… que começaram a fazer o processo inverso. Começaram a olhar pra dentro do país. Passou a ser uma necessidade inserir elementos regionais na música se você quisesse ter espaço no mercado. Então o pessoal que cantava em inglês voltou para a garagem.

MAGOO: era como se o mercado dissesse ”ou você canta em inglês e coloca elementos do seu país ou você não vai ser aceito. Então as bandas que cantavam em inglês não se preocuparam em não serem aceitas. Se preocuparam em tocar o que elas gostavam…

CAIO: até porque não era um “ser aceito” pelo público, era um “ser aceito” pelo mercado. E essa galera não queria saber de ser aceita pelo mercado ou priorizar o sucesso comercial. Essa galera queria saber de tocar. Hoje logicamente o preconceito não existe da mesma forma. Você pode ir lá e tocar em inglês e ninguém vai olhar estranho, mas o idioma inglês não virou propriamente uma moda de novo, ele só deixou de ser um tabu. O documentário traça essa e outras linhas do tempo.

NEW YEAH: e, no final, cumpre a missão que vocês tinham no início?

Sim, porque o filme é uma série de registros com informações inéditas que, juntas, colocam na história da música brasileira essa peça estava faltando. Aquele movimento de bandas produziu um registro muito fiel daquele período da nossa cultura e precisava ser devidamente documentado. O documentário é, antes de tudo, um tributo a esse pessoal. E, é importante dizer, é um filme feito PELA galera da música PARA a galera da música, e por isso o apoio dos colaboradores agora é fundamental, porque essa cena sempre se manteve de forma colaborativa e o documentário sobre ela não poderia ser financiado de outra forma.

Para ajudar a financiar, conferir as recompensas e saber mais detalhes sobre a coisa toda, visite a página do “Guitar Days” no Catarse.