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Uma cena no meio do Planalto Central

Sempre que desenrolo uma conversa sobre música com alguém que trabalha nesse meio, surge durante o papo a palavra “cena”. É uma expressão que, na minha timeline (cheia de donos de selos e artistas independentes), aparece mais do que aqueles links costumeiros com vazamentos de lineups falsos. O pessoal que pesquisa costuma dizer que, na cultura, uma cena é uma união de artistas, produtores, consumidores e infraestrutura girando em torno de um mesmo objetivo comum em um determinado local durante o mesmo momento da história. O conceito é simples, e a construção é bem complicada, porque estruturar uma cena exige envolvimento de muita gente, tempo, dinheiro e uma pitada nada econômica de teimosia, porque as coisas demoram pra engrenar.

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Confraternização hardcore no Goiânia Noise Festival: entre a fundação da Monstro e a bela voadora do menino de camiseta branca, muita água passou por debaixo da ponte.

Leonardo Razuk, fundador do selo goiano Monstro Discos, sabe de tudo isso. Ao longo de duas décadas de trabalho, ele conseguiu passar por quase todas as situações possíveis enquanto tentava colocar Goiânia no mapa da música nacional. “Às vezes falta espaço, às vezes falta apoio e o público às vezes é desinteressado por coisas novas. Mas vamos resistindo”. Aos ingredientes que recém citamos, portanto, vamos adicionar a resistência.

A Monstro é um selo/produtora/gravadora que surgiu de um aglomerado de agitadores culturais que se reuniu nos anos 90 para botar de pé um dos festivais alternativos mais importantes da música brasileira, o Goiânia Noise Festival: um evento que ocorre há 22 anos e que em 2016 trouxe mais de 80 bandas para a região central do país. Olhando assim de fora você pode achar que isso tudo é muito louco. O Leonardo, olhando de dentro, também acha. E foi de loucura em loucura que ele e seus sócios adquiriram a bagagem necessária para pavimentar uma cena no meio do Planalto Central.

O Goiânia Noise Festival, em si, nasceu como um desafio: uma tentativa de promover um grande encontro da música independente em uma época em que pouco se falava sobre o tal indie nacional que hoje pipoca a todo instante nos sites de notícia. O desafio era ainda maior porque, na metade dos anos 90, a hegemonia do Eixo Rio-SP concentrava ainda mais os investimentos em cultura. As grandes marcas que poderiam ser as patrocinadoras do evento não viam potencial na região central do país. “Muita gente via a região como uma zona do sertanejo, então era complicado fazer as pessoas e os veículos entenderem a capacidade e o conceito do festival. Isso sem falar na logística, que até hoje é um problema: passagens de avião para cá são sempre mais caras e até inviabilizam a vinda de alguns artistas”. Vendo isso, percebe-se que estruturar a tal da cena pode ser algo muito complexo, ainda mais quando a construção depende do cara que vende o almoço para comprar a janta, ou, melhor dizendo, vende o show para pagar o CD.

Por falar em CD, foi justamente a dificuldade das bandas locais em fazer circular os seus discos que transformou a produtora em gravadora/selo em 1998, três anos depois do primeiro festival. Na época, os selos independentes começavam a se organizar pelo país para tentar driblar a dificuldade de viver às margens das grandes gravadoras. “A gente queria lançar discos de bandas daqui; bandas das quais gostávamos, mas que não tinham espaço nas gravadoras convencionais”, lembrou o Leonardo. A ideia era ser diferente em tudo o que fosse possível: na abordagem do público, na construção do catálogo e até nos formatos de distribuição. “O primeiro lançamento da Monstro foi um compacto 7 polegadas azul do Mechanics, banda do Márcio Jr., sócio-fundador do Noise e da Monstro. A ideia era mostrar que ninguém precisava seguir a cartilha da indústria fonográfica tradicional, que só falava do CD e estava matando todos os outros formatos”.

Sex, Rockets and Filth Songs, do Mechanics: pedra fundamental do selo que mudou para sempre a música goiana.

Sex, Rockets and Filth Songs, do Mechanics: o compacto foi a pedra fundamental do selo que mudou para sempre a música goiana.

Depois do Mechanics, outras centenas de artistas ganharam o mundo através da Monstro e o holofote que o selo criou, com muita dificuldade, fomentou o enraizamento da música independente no estado. “Algumas coisas seguem como antes: a falta de espaços para tocar, o apoio sempre difícil de conseguir, mas hoje, graças a muito trabalho de muita gente, há uma riqueza musical ímpar por aqui, com grupos de vários estilos, linguagens e alguns até com projeção internacional”, comentou.

Desde o lançamento daquele vinil, a Monstro viu ruir o império das grandes gravadoras, viu a internet se viabilizar como veículo de massa e viu o disco, que era o centro da indústria da música, cair para um segundo plano. “Hoje em dia a venda de discos, vinis ou CDs, é baixa e cai cada vez mais, por isso temos investido mais em shows”, comentou o Leonardo, antes de filosofar um pouco: “aliás, é engraçada a relação dos jovens de hoje com a música.  O cara não ouve música num som bacana, não tem mais paixão pelo disco, pelo trabalho completo. Ele ouve no celular, via internet, que é mais barato do que comprar o físico na loja; aí o cara vai lá e compra um smartphone caro, fones caros, um notebook de última geração… mas não quer pagar nenhum centavo pela música que escuta nesses aparelhos”.

A solução para os selos? Unir-se com outros através da mesma internet que mudou os hábitos do consumidor. “Trocando informação com outros selos, a gente mantém parcerias, lança discos em conjunto, organiza uma distribuição mais completa”, comentou otimista. Esse contato, quando se estende a casas de shows de outras localidades, gera feitos que mantém a cena literalmente em movimento: “há dois anos, nós colocamos quatro bandas de Goiânia em um ônibus fretado e fizemos uma tour de 15 dias por 10 cidades brasileiras. Um projeto chamado Rock na Estrada”. Pedras que rolam nunca vão adquirir mofo. Esse é o segredo.

Quando ao retorno financeiro, não tem muita mágica. A ideia é se renovar constantemente. “O que temos feito é procurado nos renovar, inovar, criar eventos, conceitos, projetos novos, coisas que saiam do comum”. Eu peço exemplos e ele comenta sobre as coletâneas em vinil que estão a caminho e chega até a citar a ideia de um álbum de figurinhas contando a história das 20 primeiras edições do Goiânia Noise Festival, quase um livro com histórias colecionáveis.

Leonardo Razuk ao lados dos filhos André e Tomás: o esforço da geração anterior transformou Goiás em um estado bem mais musical para as gerações mais novas.

Leonardo Razuk ao lados dos filhos André e Tomás: o esforço da geração anterior transformou Goiás em um estado bem mais musical para as gerações mais novas.

Ao fim do nosso papo, comecei a ligar os pontos entre o conceito teórico de “cena” e as experiências de um dos principais representantes da música independente no país.

Às vezes, a tal da cena parece uma construção, daquelas que a gente constrói de tijolo em tijolo num desenho mágico. Em outras conversas, sinto que a cena está mais para uma planta daquelas que a gente coloca num canto do quintal e precisa regar todo dia para que ela continue com uma cara bacana. Quando a gente se descuida, a cena murcha. Quando a gente NÃO se descuida, a cena cresce e brota para dar origem a outras coisas. No Planalto Central, onde a geografia colocou orquídeas e uma espécie estranha de ipê, a Monstro colocou a música independente, que vem sendo regada desde então com criatividade e trabalho duro. “Avanços e retrocessos são normais de cada época”, concluiu Leonardo, “o negócio é encarar a música independente brasileira de forma profissional e trabalhar sério para que ela seja respeitada. Se a gente consegue fazer isso, sempre acha um público, porque sempre vai existir gente que respira música independente, honesta e fora dos padrões”.

Acompanhe o trabalho da Monstro.