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Um mapa musical para Manhattan

Nova York é a cidade mais populosa dos Estados Unidos e um importante ponto de efervescência cultural desde (pelo menos) os anos 60. Se a cidade, por sua importância e densidade, pode ser considerada o coração cultural dos Estados Unidos, o distrito de Manhattan pode, por sua vez, ser considerado o coração da cidade de Nova York, já que reune em seus quase 60 km² pontos como o Central Park, a Times Square, a 5th Avenue e outros picos que para boa parte do mundo são emblemas do american way of life. A condição de epicentro cultural fez com que Manhattan se tornasse ponto de peregrinação artística ao longo dos anos, acolhendo diversos nomes da música que se sentiram tocados pelo distrito e que retribuíram esse impacto em forma de canção. Um agrupamento desses tributos à icônica região pode dar origem a um mapa bastante curioso, revelando olhares e experiências possíveis para quem habita ou transita por algumas das ruas mais simbólicas da América do Norte.

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O mapa musical de Manhattan. O desenho é de James Donovan.

Partindo do norte do distrito, no oeste do bairro de Harlem, “Tom’s Diner” (Suzanne Vega, 1987) faz referência ao Tom’s Restaurant, ponto de encontro icônico localizado na esquina da Broadway com a 112th Street. A letra da canção, uma vinheta que abre o disco Solitude Standing, comenta o típico, movimentado e apressado início de dia na localidade, marcado pela troca de olhares entre estranhos ao som do badalar de sinos da Catedral São João, o Divino, localizada a poucas quadras dali.

Ainda em Harlem, mais ao leste do local onde Suzanne tomava o seu café, Bobby Womack em 1973 captou uma visão menos angelical das ruas por onde trabalhadores corriam para ganhar a vida, dando uma ideia dos grandes contrastes que podem ser encontrados na localidade andando apenas alguns minutos a pé. Na 110th Street, capital dos guetos conhecida por abrigar trabalhadores do chamado “baixo escalão” norte-americano, Bobby relata em primeira pessoa o desgaste físico e emocional de conviver com os percalços e com as figuras submundanas que surgem nas sombras típicas de uma grande cidade.

O sumbmundo habitado pela população menos abastada de Harlem ganha foco também no relato de Gil Scott-Heron em “Small Talk at 125th and Lenox” (1970) e no discurso do Velvet Underground em “I’m Waiting For The Man” (1967). Esta última, cantando a visão de uma prostituta de rua com base na 125th Street que estranha quando vê garotos brancos passarem por ela, explicitando o caráter étnico de quem geralmente transitava por ali.

Percorrendo o mapa mais para baixo, na região que separa a parte sul da parte norte no famoso distrito nova-iorquino, os relatos tendem a abordar a vida noturna, retratando a festiva noite local. Diante da grande oferta de atrações, as reações são diversas, indo dos versos melancólicos de Patti Smith que têm como plano de fundo o boêmio jazz club Birdland (1975), passando pelo fascínio dos Rolling Stones diante do cheiro de sexo exalado pela 7th Avenue (1978) e pela febre junkie do Television nas redondezas do teatro da Broadway; chegando ao gueto de prostituição cantado pelos Ramones na esquina da avenida 53rd com a 3rd (1976), com direito a uma parada contemplativa na Time Square, onde a confusão sentimental de Marianne Faithfull descansa os olhos sobre os tradicionais telões de led da famosa encruzilhada (1983). Uma região apaixonante com a qual é possível vibrar, chorar e se debater ao mesmo tempo.

O bairro histórico de Chelsea, habitualmente populado pela classe artística cool, ganhou um hino dramático nos versos de “To Turn You On” (Roxy Music, 1982), que observam a chuva cair sobre o concreto clássico que preenche a 5th Avenue. Uma obra de art rock vintage que até esteticamente conversa muito com o clima do local, que mantém conservadas algumas das primeiras edificações da cidade de Nova York, datadas do século XVIII.

No bairro de Greenwich Village, conjunto de quadras residenciais habitado pela população mais alternativa de Manhattan, a simbólica Great Jones Street ganha um relato lúdico/hippie na sonoridade folk do grupo Luna (1994). Chama a atenção aqui a visão despreocupada da letra: um relato de alguém que está para ver o nascer de um novo dia sem maiores preocupações com qualquer obrigação formal que este novo dia possa trazer. Na narrativa, um personagem bastante identificado com o espírito do bairro que foi o maior quartel general da desapegada geração beat.

Ao leste da paz e do amor do bairro mais hippie de Manhattan, há o bairro de East Village, que bebeu da influência alternativa de Greenwich Village, mas a digeriu por meio de uma contracultura mais ácida e “vibrante”. Nas letras que abordam o local, há, por exemplo, a festa de arromba narrada pelo King Missile em “Detachable Penis” (1994): nos versos, a surreal história de um homem que perdeu o seu pênis em meio à bebedeira de uma festa e, no outro dia, encontrou ele à venda em uma banca de rua (tradição da cultura alternativa local) na St. Mark’s Place.

No mesmo bairro, ainda há outros relatos sobre a população peculiar presente por ali em músicas como “Avenue B” (Gogol Bordello, 2005) e “Downloading Porn With Davo” (Moldy Peaches, 2001). Em “Halloween Parade”, de Lou Reed (1989), um mosaico de um típico passeio noturno, com travestis, mulheres maquiadas, garotos durões e rapazes pinguços comemorando o Halloween em perfeita harmonia.

Tanto em East Village como em Greenwich Village, os registros fonográficos apresentam fases históricas de bairros que hoje já não são mais tão fiéis a estas mesmas características do passado. Manhattan como um todo tem sido foco de uma especulação imobiliária bastante agressiva que tem elevado o custo de vida e automaticamente “expulsado” a população original de bairros mais populares como estes dois últimos citados, gentrificado localidades e alterado bruscamente as suas características mais tradicionais.

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O clássico pub CBGB em East Village nos anos 80 transformado recentemente em uma franquia da grife John Varvatos: o apelo comercial de Manhattan aos poucos expulsa do local as suas características culturais mais marcantes que cada vez mais estarão apenas nas músicas.

Os efeitos da mesma especulação imobiliária que arrebatou os dois bairros centrais de Manhattan é visto em Lower East Side, quase no extremo sul do mapa. Ao mesmo tempo em que frases de Santigold (abaixo, em releitura de Lilly Wood) e Sonic Youth (1988) alinham lamentos românticos que conversam com a realidade de um bairro historicamente habitado pela classes operária e imigrante, uma simples pesquisa no Google mostra que a realidade atual do bairro é recheada de lojas vendendo marcas caras ao longo da Clinton Street onde Leonard Cohen (1971) um dia cantou romanticamente a saudade de sua terra natal.

Manhattan, numa visão (e audição) geral, parece ser um distrito onde o ontem e o hoje se cruzam a todo instante em relações bastante variadas. Ás vezes, passado e presente não se reconhecem de tão diferentes que são; às vezes, andam de mãos dadas respeitando cada qual o legado do outro; em boa parte do tempo, duelam para ver quem sobreviverá.

Nos locais preservados apesar do tempo, as músicas que ali nasceram servem como guia turístico na busca por sensações típicas que ainda podem ser experimentadas e que só as ruas mais famosas do mundo podem oferecer. Nos lugares onde a globalização dá as cartas e padroniza as fachadas pouco a pouco, como faz em todas as cidades do mundo, as músicas que um dia cantaram a diversidade cultural das ruas já são obsoletas, mas servem como documento histórico para que lembremos do dia em que as cidades podiam crescer mantendo a sua singularidade de espírito.