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Tim Bernardes: “o Terno bebe de muita fonte externa, mas a canção, interior, é o coração da coisa”

Rock de garagem, influências que flertam com a MPB, arranjos experimentais e apelo pop com um brilho criativo raríssimo. É assim, como numa equação, que o trio paulista O Terno, capitaneado por Tim Bernardes, esbanja musicalidade sobre os palcos do Brasil desde 2009. No último dia 07 de dezembro, no palco do Cine Joia, o engenhoso som da banda contou ainda com o auxílio de um trio de metais para repetir o concorrido show que a banda criou para explorar os benefícios dinâmicos dos instrumentos de sopro. Uma noite ao som do projeto “O Terno Com Metais” mostrou como o sinuoso som do trio é único.

O Terno com metais

O Terno com metais sobre o palco do Cine Joia na última apresentação do ano em 2017: formação dobrada e essência mantida.

O Terno é possivelmente a banda mais relevante do cenário independente brasuca em anos, tanto pela sua classe praticamente aristocrática quanto pela sua proposta visual muito particular; tanto pela maneira criativa como a banda reinventa o comportamento de um artista em um tempo que necessita mesmo de reinvenção, quanto pelo domínio que a banda tem sobre o seu som, a ponto de dobrar numericamente a formação da banda sobre o palco e ainda assim manter uma linha coerente na sua sonoridade, como foi nesta noite no Cine Joia.

Foi a última apresentação do grupo no ano. Tim Bernardes, o bass man Guilherme d’Almeida, as precisas baquetas de Gabriel Basile e o naipe de sopros ao fundo mandaram o último disco (Melhor do Que Parece, 2016) quase que em sua totalidade, enquanto os arranjos dos metais abrilhantaram ainda os temas do segundo lançamento (O Terno, 2014) e desenterraram outras passagens também relevantes lá do comecinho da história do grupo. Agora, se vamos ter que virar o ano sofrendo calados sem shows dos caras, pelo menos o New Yeah conseguiu trocar uma ideia com o vocalista Tim para entender um pouco mais como todo esse delírio poético-existencial funciona a serviço do groove.

“Muitas vezes usar o equipamento digital é a melhor saída para soar parecido com as nossas referências analógicas”.

NEW YEAH: os shows da série “O Terno com Metais” têm sido bastante disputados pelo público e bastante elogiados por quem consegue assistir. Em termos de estrutura musical, qual vocês acham que foi o elemento chave para que o som da banda casasse tão bem com esta proposta?

TIM BERNARDES: então, o Melhor Do Que Parece é um disco no qual a gente explorou muitas sonoridades pra além do trio. Há ali sopros, harpa, cordas etc. Imaginando como seria a turnê pós-gravação do disco, pensamos que montar esse show com uma formação expandida faria sentido. Era algo que a gente queria muito desde o lançamento do álbum, em 2016. Fomos planejando, organizando e conseguimos concretizar quando lançamos o vinil, em 2017.

NEW YEAH: em disco, é nítido como vocês são bastante exatos, quase minimalistas, mas ao vivo o som do grupo ganha mais vigor graças a alguns momentos de improvisação. Vocês pensam em levar esse quê de jam para o estúdio em um próximo trabalho?

TIM BERNARDES: o Terno tem muito um lance de contrastes, de misturar sonoridades contrastantes, alternar passagens porradas com passagens mais leves às vezes até dentro de uma mesma música, misturar temas mais mentais, temas emocionais, humor e tristeza. De certa forma, o que dá suporte para essa variedade de abordagens são as nossas composições, que são naturalmente variadas. Cada uma tem o seu jeito e sugere um caminho de arranjo, oferecendo também possibilidades novas para a gente. Esse lance específico de jam é algo que a gente gosta de ter como uma atração do “ao vivo” mesmo. Ou pelo menos é como pensamos agora. Se uma composição nova pedir essa onda em uma gravação futura, não hesitaremos em improvisar no estúdio também.

Tim Bernardes, O Terno

Tim Bernardes: “a ideia nunca é imitar, e sim explorar caminhos abertos por outros artistas que possam nos ajudar a chegar em algo que represente a gente”.

NEW YEAH: um detalhe bastante elogiado no trabalho d’O Terno é a questão dos timbres, dos arranjos e das harmonias. Quais são as referências de vocês neste aspecto?

TIM BERNARDES: a gente curte muito juntar as referências que vamos acumulando como ouvinte para criar algo autoral e com uma marca própria da banda. Acho que O Terno veio de uma formação musical muito relacionada ao tropicalismo, Mutantes e a música pop dos anos 60 no mundo. Depois disso, fomos cada vez mais foi expandindo o leque para artistas novos que tantas bandas que a gente ouve hoje exploram, como Mac DeMarco, Fleet Foxes, Grizzly Bear, Dirty Projectors, Tame Impala… são muitos artistas! Mas a ideia nunca é imitar, e sim explorar caminhos abertos por outros artistas que possam nos ajudar a chegar em algo que represente a gente.

NEW YEAH: nesta questão das referências há um outro contraste, né? O antigo e o novo; os 60’s e 70’s tocados com frescor moderno. Como é casar essas duas coisas na gravação de um disco? Como vocês trabalham essa questão do som digital versus som analógico, por exemplo, na hora de gravar?

TIM BERNARDES: acho que muitas das nossas referências de sonoridade vêm de sons analógicos. O curioso é que nem sempre um equipamento analógico é a melhor forma de alcançar uma sonoridade analógica, por mais estranho que isso possa lhe parecer. Muitas vezes o jeito que conseguimos para atingir esses timbres não é ortodoxo, e não fazemos questão que seja. Se no digital a gente tiver mais controle para chegar exatamente no timbre que imaginamos, vamos de digital. Se notarmos que é no analógico que vamos chegar mais perto do que imaginamos, vamos no analógico. Não tem muita matemática. Normalmente é uma mistura bem louca.

O Terno com Metais no Cine Joia

O Terno com Metais no Cine Joia: o trio ao fundo reforça a mensagem do trio à frente.

NEW YEAH: no meio dessa “loucura”, como você acha que a banda consegue sustentar uma linha tão clara de expressão, que se mantém firme mesmo com o chegar e o partir de referências?

TIM BERNARDES: a minha visão é que, ainda que a gente tenha inúmeras referências na hora de pensar a roupagem, a estética e o timbre, o nosso processo criativo ainda gira em torno da canção, que não é feita de maneira referencial, nem tentando emular um estilo pré-existente. Quando uma canção nossa nasce, é sempre tentando expressar uma ideia e um sentimento muito pessoal, sabe? Há muita coisa externa sendo reunida e canalizada nos discos e nos shows d’O Terno, mas a canção, com essa dose de interioridade, ainda é o coração da coisa. O som, as performances e tudo mais é criado depois, para expressar sinceramente e autenticamente uma ideia que é nossa.

Fotos: Emanuel Coutinho.