....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... .......................
Compre online

Browse By

thurston-moore

Thurston Moore: “o cassete tornou-se o nosso meio quando deixou de interessar ao mainstream”

A cassete sempre teve o mais quente e o mais animado som para os meus ouvidos.

Thurston Moore, do Sonic Youth, e seu amor pelos cassetes

Thurston Moore: conhecido como “o guitarrista do Sonic Youth” desde 1981.

De maneira geral, posso dizer que amo a fisicalidade da música: o amplificador vibrante, a  trituração de guitarra, a agulha percorrendo o vinil como se o acariciasse para depois amplificar o seu som em alto-falantes estáticos e estéticos. Mas o cassete ainda é a minha forma preferida da música, com suas engrenagens, com a fita de óxido ferroso cortada em tiras finas para carregar informações sônicas.

Quando o rap apareceu para o mundo, foi o cassete que levou a notícia do gueto ao playground.

Nos anos 70, havia aquele cartucho de 8 pistas. Grande, desajeitado e com zero respeito pelo artista: algumas músicas desapareciam antes mesmo de terem terminado. O cassete, inicialmente um primo pequeno para o 8-track, logo se tornou o meio mais sofisticado, respeitoso e aplicável. Em meados dos anos 80, em sua “época de ouro”, foi tão popular quanto o vinil. Quando o rap apareceu para o mundo, foi o cassete que levou a notícia do gueto ao playground.

É claro que CDs e mídias digitais vieram e reformataram o paradigma dos ouvintes. Ali pelo início dos anos 90, o cassete saiu de moda. Mas, para aqueles como eu, que queriam compartilhar idéias com algum senso de economia, o cassete continuou sendo uma mídia viável. Aliás, passou a ser a nossa mídia preferida, pois tornou-se mais NOSSA quando ficou longe dos interesses do mainstream.

Minha relação de amor com o cassete nunca dependeu da forma como o mercado apostava no formato, porque os maiores cassetes que eu tive não foram comprados em lojas de música ou lançados por grandes gravadoras. O meu amor pelos cassetes vem das mixtapes que eu gravava e recebia: aquelas cartas de amor que as pessoas davam umas às outras para se declarar ou para deixar clara a sua personalidade – ou pelo menos para deixar clara a personalidade que queríamos que os outros percebessem em nós. Isso tudo décadas antes das redes sociais. Esta prática realmente desapareceu com o CD, que nos seduziu a “queimar” canções – uma coisa encantadora de fazer por algum tempo, até que desapareceu também.

Coleção de cassetes do fundador do Sonic Youth.

Coleção de cassetes do fundador do Sonic Youth: as preferidas são desenhadas à mão e gravadas por curadores que nada têm de profissionais.

Fora de moda, mas carregado de afeto, o cassete seguiu o seu próprio caminho. Em algum momento nos anos 90, notei cada vez mais jovens artistas do chamado underground, distante da mídia e do star system, emitindo seus sons em cassetes gravados em casa e distribuindo isso com capas que pareciam cartões pessoais escritos à mão. A popularização dessa atividade, documentando o ruído, a improvisação livre de uma música “incategorizável” tornou-se uma cena em si. E essa cena não só sobreviveu às mídias digitais como se aproveitou delas para se fortalecer.

Do final dos anos 90 até o final dos anos 00, tivemos uma época dourada de música underground feita em um ambiente totalmente alternativo, longe dos padrões de produção de música comercial, da criação experimental à distribuição em formatos que o mainstream rejeitava. E o cassete era o núcleo disso tudo. Passei a maior parte desta época de ouro não apenas tocando, mas escutando e arquivando tudo o que eu conseguia arquivar. Hoje, o que tenho na minha coleção de cassetes é um pedaço, um flash, um retrato da dinâmica que é o verdadeiro alicerce da música contemporânea para mim.

O cassete talvez não volte à moda jamais. E tudo bem que seja assim. Mas, como “documento do subterrâneo”, ele ainda existe hoje e provavelmente continuará a existir sempre, inclusive sendo aproveitado por uma gama ainda maior de escolas criativas. Basta ser um gênero sub-secundário, como as mais marginalizadas vertentes do black metal, que a humilde e sagrada fita irá lá abraçar e acalentar com amor de mãe.

Traduzido e adaptado do inglês, de texto publicado no site do autor.