Faça o teste

Browse By

Thundercat

Thundercat: “há uma inquietação no ar, e ela é a maior característica da minha geração”

A cena de jazz contemporânea aglutina nomes que devem enlouquecer a vida de quem classifica as bandas por estilo no Spotify. Encabeçado por artistas tão profundos e multilaterais, o levante contempla gente que às vezes só têm em comum a liberdade criativa mesmo. O Thundercat, Stephen Bruner para quem quiser separar o homem do conceito criativo, personifica bem essa afirmação. Integrante orgânico e ativo da cena, ele mesmo trata de transformar a sua obra em uma coisa incatalogável. Trash, funk, rap, música eletrônica… tudo com frescor e vivacidade (talvez aí as características que sempre se mantêm) que transcendem a categorização pragmática.

Thundercat

Thundercat: “talvez as gerações futuras possam nos explicar melhor do que nós”. Foto por Emanuel Coutinho.

Em sua segunda passagem pelo Brasil, depois de assombrar o público na edição de 2017 do Jazz na Fábrica no SESC Pompéia, o baixista de Los Angeles jogou os seus improvisos agora sobre o palco do Cine Joia. O show aconteceu no meio da semana mesmo, numa quarta-feira. Ao lado dos grooves inventivos de Dennis Hamm (teclados/sintetizadores) e do swing técnico, porém bastante agressivo, de Justin Brown, Thundercat, de chinelo, tocou por quase duas horas. Até na indumentária ele foi livre. Desde os temas de seu terceiro e mais recente disco (Drunk, 2017) até sons do EP The Beyond / Where the Giants Roam (2015), passando por temas do Flying Lotus, lançados antes mesmo da carreira solo, o que se viu foi um músico completamente liberto e que “apenas” está obstinado pelo novo. O que o norte-americano busca é criar e continuar confundindo a cabeça de quem ainda acha que é necessário rotular o que ele faz.

Mais do que um posicionamento musical, Thundercat propõe em sua obra uma filosofia lírica desafiadora. Para falar sobre essa filosofia, sobre como ela chega no seu som e sobre como ela está sendo distribuída entre toda uma geração, nós conversamos com o músico pessoalmente. Nos encontramos com o Thundercat e ele interrompeu a visualização de um gameplay para nos explicar o fundo espiritual da música que sai do seu baixo semi-acústico.

NEW YEAH: desde a época do grupo Young Jazz Giants (2004), formado por você, seu irmão Ronald, Kamasi Washington e Cameron Graves, sua música sempre se caracterizou por absorver muitas influências. Você transitou bastante, tocou com o Suicidal Tendencies, iniciou a sua carreira solo e gravou outros discos muito interessantes ao lado do próprio Kamasi e do Kendrick Lamar. Você transita tanto porque seu som é diversificado, ou o seu som é diversificado porque você transita tanto?

“Ninguém obriga um artista a fazer a mesma coisa a vida inteira. Se você quer o novo, você pode fazer o novo”.

THUNDERCAT: bem, na maior parte do tempo, todos nós estamos coletando influências. Deixar que essa influência apareça livremente na música passa por entender a própria música como uma linguagem naturalmente em mutação. Na verdade, é isso que a música é, sabe? Uma linguagem, que se molda, e que não precisa seguir uma lógica rígida. Lógico que a ideia dos gêneros, das divisões, acaba tendo uma função prática para quem acompanha, mas isso não precisa ser um limitador para quem cria. Não há nada que obrigue um artista a fazer uma coisa a vida inteira. Se você quiser tentar seguir novos rumos criativos, você pode. Eu sempre pensei assim, então tanto a música quanto o trânsito eu acredito que venha desse pensamento.

NEW YEAH: parece que esse é o pensamento da nova cena de jazz ao redor do mundo, olhando de maneira bem geral. Existem grandes músicos como você, Yussef Dayes e Nubya Garcia. Há uma liberdade grande nas obras destes artistas contemporâneos, né? Como você avalia esse movimento olhando ele de dentro?

THUNDERCAT: eu acho que o momento é ótimo. Aliás, qualquer momento onde as pessoas estejam criando coisas novas para a música é sempre muito bom. Cada um faz as suas coisas pelos seus próprio motivos, mas eu consigo apreciar todos eles como uma grande enxurrada de novas ideias. Você percebe nesse pessoal novo, além da qualidade técnica, uma inquietação e uma excitação muito características do nosso tempo. O som que essa geração produz é incrível, mas esse sentimento em torno do som eu acho que é o grande fator fundamental para o “agora”. Um dos meus artistas favoritos de hoje em dia, e um dos meus maiores amigos nesse mundo também, é o Donald Glover, o Childish Gambino. Ele acabou de lançar aquele vídeo de “This Is America” e o conteúdo que há naquilo é uma verdadeira declaração. A capacidade com que “This Is America” circulou também é um sinal de que o jazz está conseguindo tocar no ouvido popular. É ótimo poder fazer parte disso, porque é um momento muito ímpar para se fazer música.

NEW YEAH: você nota algo interessante assim no Brasil também?

THUNDERCAT: Oh, claro que sim! A música brasileira de alguma forma sempre teve isso.

NEW YEAH: conheço um baixista chamado Michael Pipoquinha. Ele tocou com o Jacob Collier. Você o conhece? Acho que se dariam muito bem.

THUNDERCAT: ele tocou com o Jacob Collier? Eu não o conheço, hahaha. Conheço o Jacob, lógico, mas eu preciso ainda sacar melhor o seu som. Enfim, não conheço o Michael, mas conheço vários outros músicos brasileiros.

NEW YEAH: quais?

THUNDERCAT: vamos lá. Por onde eu começo? Milton Nascimento, é claro. Egberto Gismonti, Gal Costa, Marcos Valle, Arthur Verocai… por aí vai.

NEW YEAH: esses caras todos são parte de um legado da música brasileira. O que me leva a uma questão que pode ser interessante. Como você acredita que as gerações seguintes irão falar deste momento do jazz do qual você participa? Milton, Gal, Arthur e Egberto acabaram crescendo ao longo da história. O que acontecerá com vocês?

THUNDERCAT: essa questão é legal mesmo, mas eu tento não pensar tão lá na frente assim. Como comentei antes, eu acho o agora bastante interessante, então estou bem focado nele, em fazer música neste momento. Existe uma cena ótima, com muitas coisas surgindo, mas é difícil colocar isso em perspectiva histórica, porque você não sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, né? Eu só estou tocando. Gosto de pensar assim. Estou tocando e, claro, notando que há coisas diferentes no ar. Talvez as gerações futuras possam explicar exatamente do que se trata tudo isso.

Thundercat

Thundercat sobre o palco do Cine Joia: o show no último dia 09 de maio marcou a segunda passagem do artista pelo Brasil. Foto por Emanuel Coutinho.

NEW YEAH: eu sou um grande fã de Zappa e acompanho bastante o seu trabalho também. Inclusive, enxergo uma linha entre vocês dois que eu queria que você me dissesse se existe de fato. Ele chegou a impactar de alguma forma o seu som?

THUNDERCAT: acredito que sim. O Zappa criou muita coisa, né? A música dele transcendeu estilos numa época em que isso não era tão comum. Hoje, a gente, em parte, faz o que ele começou a fazer lá atrás. Não é porque você perguntou, mas eu sempre penso no que ele acharia da música atual. O que ele estaria fazendo hoje em dia, sabe? Quais técnicas estaria usando, quais projetos estaria realizando, com quais músicos estaria tocando… enfim, como ele faria música com todo esse contexto que temos. Eu acho que ele iria curtir o trabalho do Childish Gambino, do Kendrick Lamar e do Robert Glasper.

NEW YEAH: parece papo de fã, mas eu sempre acho que ele estava muito à frente do seu tempo.

THUNDERCAT: é meio clichê, mas não tem como não concordar. Ele estava à frente do seu tempo, sim. A maior prova é que há um frescor na música dele até hoje. Todos deveriam ouvi-lo, no mínimo, por respeito, porque ele significa muito para a música.