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Thundercat no SESC durante o Jazz na Fábrica. Foto por Guilherme Espir

O magnestimo de Thundercat: uma noite intergaláctica no SESC Pompéia

Analisar uma discografia, colocando os álbuns metodicamente em ordem cronológica e percebendo neles as particularidades que guiaram o seu criador ao longo dos anos, pode ser uma forma interessante de notar o desenvolvimento de um artista. Esse exercício pode revelar pistas; pode mostrar, por meio de notas, ambiências e palavras, o quanto a música do dito cujo passou por transformações, assumiu novas identidades e foi se moldando até atingir aquilo que você pode entender como um “ápice”.

O ápice de um artista pode ser criativo (com o lançamento do seu álbum mais transgressor), comercial (com o lançamento do seu álbum mais rentável) ou subjetivo (VOCÊ, analista, definiu que o ÁLBUM X é o ápice do artista porque é o álbum que VOCÊ mais gostou e ponto final). Aparentemente, Stephen Bruner (Thundercat), alcançou o ápice em todos estes sentidos com o mesmo trabalho: o inovador e desafiador Drunk, lançado em fevereiro de 2017.

Thundercat no SESC durante o Jazz na Fábrica. Foto por Guilherme Espir

Thundercat no SESC durante o Jazz na Fábrica. Foto por Guilherme Espir.

Foi graças a Drunk que Thundercat começou a ter a devida atenção que o seu talento assombroso nos vocais e no baixo sempre mereceu. Foi também graças às suas gravações junto a nomes como Kamasi Washington, Kendrick Lamar e Erykah Badu (isso só para citar alguns dos artistas com quem ele colaborou de uns anos pra cá) que o músico ficou em evidência dentro de um cenário que hoje o enxerga como referência em termos de qualidade e, principalmente, de criatividade.

Para o público brasileiro, a oportunidade de entender o bem que caras desse nível fazem para a música aconteceu durante as duas noites em que Stephen foi um dos destaques da iniciativa jazzística do SESC, o Jazz na Fábrica. Acompanhado pelo baterista Justin Brown e pelas passagens climáticas de Dennis Hamm nos teclados, Thundercat e banda fizeram dois shows memoráveis, o primeiro deles na quinta-feira (17 de agosto) e o segundo na sexta-feira (vulgo dia 18).

Com um set list que intercalou músicas de seu mais recente registro, pinceladas dos dois primeiros álbuns (The Golden Age Of Apocalypse, de 2011, e Apocalypse, de 2013) e mais alguns rastros de seu EP The Beyond / Where The Giants Roam (2015), Thundercat deu uma aula de duas horas sobre dinâmica musical, daquelas que só um artista no auge consegue dar.

Foi um absurdo em termos técnicos. Um caldeirão de solos e um shot psicodélico de pura virtuose, magnetismo e novos horizontes musicais. Foi impressionante ver que, mesmo numa formação em trio, bastante compacta, os envolvidos conseguiram trazer a atmosfera de Drunk para o palco, algo notável, ainda mais dado o número de músicos presentes na gravação de estúdio e a quantidade de complexos detalhes que permeiam essa tão comentada obra.

Thundercat no SESC

Thundercat no SESC: apenas três músicos sobre o palco foram o suficiente para reproduzir a riqueza atmosférica registrada em multi-canais no último disco. Foto por Guilherme Espir.

Ao vivo, Thundercat atravessou tempos e virou as suas próprias composições do avesso, solando, subindo e descendo as escalas de seu baixo de seis cordas. Justin, o baterista, tinha tudo para ficar vendido na história, mas parecia sempre estar um passo à frente de Stephen, se incluindo nos improvisos e muitas vezes até parecendo prevê-los. Dennis Hamm, nas teclas, talvez o menos celebrado nome deste combo, seguia como a base de tudo ao fundo, sóbrio e até por isso fundamental ao servir de chão para o delírio dos colegas.

Ao vivo, Thundercat abertamente coloca em jogo uma expansão do jazz em termos de linguagem. No fundo, nem sei se o que ele toca acaba sendo jazz. É isso: não sei o estilo de música que o senhor Stephen Bruner toca. Talvez eu devesse ter conversado com ele a respeito. Mas, se existe algo que posso afirmar, é que Stephen faz MÚSICA no mais amplo sentido da palavra. Seja tocando “Them Changes”, “Lotus And The Jondy” ou “Trom Song”, hoje o baixo desse cidadão é um sopro de ar fresco que ecoa, sem rótulos ou mofos, direto dentro da mente de quem escuta.