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The Sorry Shop em Softspoken: o perfeccionismo turvo abraça seus ouvidos

Com três discos lançados entre 2011 e 2013 e um período de quatro anos de hiato após a boa sequência inicial, a banda gaúcha The Sorry Shop retorna em 2017 com o dream-pop/ruidoso/denso Softspoken. O disco divulgado no início de agosto foi jogado ao mundo em uma parceria do selo rio-grandino Lovely Noise Records com o alagoano Crooked Tree Records. Desde já, aparece como um dos trabalhos mais interessantes desta temporada de sons.

The Sorry Shop

The Sorry Shop versão 2017: mais um legítimo exemplar da era dos discos artesanais.

Há vários motivos pelos quais uma banda permanece em silêncio por algum tempo nos dias atuais. Primeiro, temos de lembrar que aquele clássico fluxo continuado que nos acostumamos a ver em épocas passadas, com um disco sendo lançado a cada dois anos, não responde necessariamente ao tempo criativo que uma banda necessita para cuspir 10, 11 ou 12 faixas ao público em um registro mais ou menos hermético. No passado musical gerido pelas grandes gravadoras, as bandas possuíam obrigações formais, com uma quantidade de discos a produzir definida em contrato e regulada por executivos tão sedentos quanto pouco criativos. Isso explica boa parte da regularidade vista nas bandas de épocas passadas.

Nos tempos pós-império, “impera” uma lógica diferente: se na lógica regida pelos contratos havia precisão matemática na chegada dos discos às prateleiras e se induzia a automatização quase industrial dos processos criativos, nos tempos pós-contratuais há espaço para o retiro. No novo modelo, há sorte para a mudança de rumo, para a reflexão e para obras que abrem mão da produção em série para serem verdadeiras peças artesanais com direito à escultura minuciosa e aos detalhes pintados à mão. É o caso de Softspoken, que sucede o já complexo Mnemonic Syncretism (2013).

Nome conhecido da movimentação independente no sul do país, a The Sorry Shop tem como característica marcante o cuidado com cada tijolo assentado em suas densas paredes de som. Foi assim que o grupo se construiu como talvez o principal nome do shoegaze ao sul do Rio Uruguai. Mas também é verdade que o grupo sempre teve uma preocupação intensa em não se tornar uma mera caricatura estética estacionada no início dos anos 90. Essa elã vital desacomodada aparece em Softspoken com especial brilho.

Permanecem o ambiente turvo, as camadas multi-preenchidas e as palavras em segundo plano, por questão de princípios. Aparecem, no horizonte, maiores flertes com o experimentalismo. Ruídos distribuídos  que ajudam a quebrar a inércia que poderia abater faixas com guitarras que às vezes tangem o pop e parecem tocar diversos refrãos seguidos.

É difícil imaginar tanto recurso permeando o produto de uma linha de produção. Mas, com tempo para pensar, a The Sorry Shop mergulha no dream, abraça o ruído, testa efeitos, dá as mãos ao power pop, enche trilhas e esvazia faixas, esclarece, confunde e aplica vozes como se fossem instrumentos de base. No fim, há um feixe de som homogêneo em primeira escuta, mas heterogeneamente composto quando ouvido com alguma atenção posterior, em faixas cujo processo de engenharia reversa revelaria incontáveis camadas de experimentação testadas em horas criativas muito provavelmente fora do horário comercial. E o artesanato tem mesmo disso de construir beleza ao longo da madrugada enquanto o resto do mundo descansa.

Ao longo das 11 faixas, a The Sorry Shop segura e solta recursos diversos, mantendo na base a aflição plácida que marca o shoegaze que lhe deu peso, com tensão nas dobras instrumentais e nas temáticas das letras que, sussurradas ao fundo, são outro detalhe em canções com várias coisas a se ouvir no mesmo segundo de player rodando.

Não é um disco para se fazer um uma sentada, embora a absorção da sua complexidade consiga ser instantânea pela qualidade geral do registro. É um paradoxo que só ouvindo para entender. O perfeccionismo na montagem de cada passagem sonora é marca de um processo de pouco mais de quatro anos que ou estão nas canções, ou estão na materialidade de quem as registra. Curiosamente, é essa precisão nos detalhes – que já havia dado as caras nos trabalhos anteriores – quem agora, elevada a cubo, permite nascer uma obra redonda, polida onde precisava ser e ainda assim orgulhosa das suas arestas. Essencialmente, shoegaze, mas com maior poder de comunicação inter-nichos, rompendo a barreira de audiófilos e saudosistas a que – infelizmente – muitas vezes se limitam as produções deste gênero.

Ouça o disco completo / Siga a banda no Facebook.