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Tentativas de mapear a música

O espaço subterrâneo das grandes cidades sempre foi uma inspiração para a música moderna, e basta lembrar dos versos cantados por Bob Dylan em “Subterranean Homesick Blues” ou das inspirações que deram nome ao Velvet Underground para ter uma ideia desse namoro frequente entre o imaginário artístico e aquilo que está abaixo do solo urbano. Não é surpresa, então, que o mapa underground de Londres (aquele com as linhas de metrô, desenhado pelo engenheiro e desenhista Harry Beck em 1931) seja utilizado como modelo para definir relações entre bandas e movimentos artísticos. O trabalho abaixo, criado pelo designer italiano Alberto Antoniazzi,  se inspira no mapa do metrô de Londres para ilustrar ligações e rupturas ocorridas sobretudo no rock ao longo do último século. Clique no desenho para ampliar.

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O mapa é geograficamente despreocupado, focando apenas no surgimento, na evolução e na consequência dos gêneros. Através dele, é possível ver em que momento a raiz do punk se desprende do rock clássico, na “estação” The Who; como a “Linha Preta” do metal se mantém ativa ao longo do tempo oferecendo conexões com o punk, com o rock clássico e com o rock alternativo até desembocar na “Linha Laranja” do nu metal. Tudo exposto em linhas simples e espaçamentos padronizados para facilitar o entendimento, tal qual idealizou Beck quando criou o mapa do metrô londrino, esquecendo por um momento a geografia e a proporção das distâncias para focar apenas em uma abordagem que permitisse maior entendimento aos usuários do transporte coletivo.

Como o próprio autor do esquema musical afirmou em entrevista ao site de big data Musings on Map em 2013, “o mapa é apenas uma visão pessoal da história da música, não uma visualização real de tudo o que aconteceu”. Isso transparece em algumas decisões contestáveis, como o excesso de bandas inglesas, a negação de uma linha especial para o rrriot girl nos anos 90 (com conexões junto às linhas do punk e do rock alternativo), o estabelecimento dos Misfits como elo entre o punk e o metal (quando o Motörhead, por exemplo, cumpriria esse papel com maior eficácia) e uma distribuição das bandas de stoner rock entre as linhas do metal ou do rock alternativo (quando talvez o correto fosse uma linha a parte, algo que explicaria muito melhor o nascimento desse sub-gênero). Também incomoda um pouco a eclética linha verde que hora representa o rock clássico e em outros (mas raros) momentos, parece muito mais ligada aos sucessos do mainstream em geral.

Por outro lado, o mapa exibe determinados fenômenos de maneira bem interessante.  No trecho abaixo, o desenho flagra o momento em que a linha vermelha do punk rock começou a oferecer conexões com uma linha ainda desconhecida que depois derivaria para o hardcore (em rosa escuro) e seguiria mais um pouco para chegar na estação Lifetime, momento em que o hardcore se conecta com o emo (linha rosa clara). As duas novas linhas, então seguem seus caminhos próprios e voltam a se encontrar na estação Poison The Well.

O nascimento do hardcore e do emo.

Os confusos anos 90 (quando o intercâmbio entre gêneros se tornou mais frequente e dificilmente se encontrava uma banda que pertencesse a um único estilo) são representados por uma série de conexões também bastante confusas, com o Nirvana conectando-se simultaneamente ao rock clássico, ao alternativo e ao grunge.  Na continuidade da linha, uma série de bandas (Crandberries, Blur, Oasis e Verve) oferecem conexões constantes entre as linhas do rock clássico e do rock alternativo. Nomes mais ecléticos, como Marylin Manson, oferecem ainda conexões com a linha preta do metal, num emaranhado que define bem o que foi aquela década de misturança musical.

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Embora seja possível corrigir o mapa de Alberto Antoniazzi para aproximá-lo de uma “perfeição dos fatos”, a própria perfeição será sempre relativa e dependerá da opinião de quem analisa. É possível, por exemplo, organizar melhor as estações no mapa para buscar uma maior fidelidade com o que aponta a maioria das enciclopédias, mas a própria seleção das estações, ignorando propositalmente algumas bandas que não aparecem em qualquer linha, já é um discurso pessoal. Tenderemos a optar pelo uso de bandas que pertencem ao nosso universo de escuta. Buscaremos as nossas experiências próprias de audição. E não há nada menos imparcial do que a memória afetiva.

Como toda representação de uma suposta realidade, o mapa nunca será uma cópia totalmente fiel daquilo que aparentemente ilustra. E aí é fundamental entender que a própria tarefa de criar mapas é necessariamente subjetiva sempre.

Até quando estudamos a geografia escolar temos como costume utilizar um mapa baseado na projeção de Mercator, onde o Hemisfério Norte é gigantescamente maior do que o Hemisfério Sul, ignorando qualquer fidelidade à área oficial de cada país.

Qual o discurso que há por trás de um mapa que faz com que a área dinarmaquesa da Groelândia pareça ter quase a mesma área de todo o continente africano? Qual o discurso de um mapa que ilustra uma esfera solta no espaço, mas que centraliza a sua visão no continente europeu? Olhando assim, é possível dizer que o mapa-mundi é mais exato e menos parcial do que o mapa musical criado por Antoniazzi?

Quando criou o mapa do metro de Londres nos anos 30, Beck ignorou as críticas de que a colocação das linhas no desenho não correspondia ao posicionamento das linhas no mapa oficial da cidade. Linhas que geograficamente estavam a leste apareciam ao norte no desenho do engenheiro e isso, para muitos, poderia dificultar o entendimento inicial de como o metrô funcionava. Beck, no entanto, se manteve irredutível, acreditando que a maneira simplificada seria aos poucos entendida pela população por ser mais intuitiva do que uma representação que se preocupasse tanto com a geografia formal.

Mapa do Metrô de Londres nos anos 30.

O mapa do metrô de Londres nos anos 30.

E Beck estava correto. Com o tempo, a sua representação simétrica e graduada do subterrâneo londrino foi fixada na mente de quem utilizava o transporte público (e isso significa uma boa parte da população de Londres). O mais irônico é que, com o passar dos anos, a frequência com a qual a população utiliza o metrô diariamente fez com que esse mapa se fixasse com maior solidez no imaginário popular do que o mapa oficial da cidade que era tão defendido quando as linhas de metrô foram desenhadas pela primeira vez.

O sucesso do mapa de Beck e as boas resoluções do mapa musical de Antoniazzi não significam, ainda, que os mapas estejam formalmente “corretos”, mas evidenciam que seus respectivos desenhos estão “corretos para o seu devido fim”: nenhum mapa representa a realidade total das coisas; todo mapa tem uma finalidade específica de representar um recorte da realidade, representando fielmente apenas a vontade direta ou indireta do autor que lhe deu vida.