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A banda em show recente de divulgação do EP:

Supervão e TMJNT: “não são os rótulos que unem as pessoas, mas a atitude em relação à música”

Seja nos bastidores de festas convencionais ou de celebrações clandestinas ao ar livre, seja em primeiro plano, ocupando palcos regionais ou Brasil afora, os gaúchos da Supervão se mostram há algum tempo como alguns dos rostos mais produtivos do atual contexto independente do Rio Grande do Sul. Em TMJNT, segundo EP do trio, é possível delinear alguns pontos e apontar conquistas musicais do grupo, mas, entendendo o contexto de onde a obra emerge, é possível também tratá-la como uma amostra; um recorte do que é a própria noite independente no estado, da qual a Supervão já se projeta como embaixadora.

A banda em show recente de divulgação do EP:

A Supervão em show recente de divulgação do EP TMJNT: “música fora dos rótulos, para que qualquer pessoa possa se identificar e chegar para curtir independente de sua identidade”. Foto por Fábio Alt / Alt Artes.

Falar de TMJNT é destrinchar um enorme ecossistema formado por coletivos, bandas, casas de show, produtores e pessoas que, de alguma forma, contribuem para a formação de uma cena no estado, sobretudo na região metropolitana de Porto Alegre. Essa cena, como já comentamos anteriormente, é uma junção de muita coisa, e encontra uma parcela interessante da sua origem nas ações do selo Lezma Records. O resultado material da cena é, sobretudo, a noite das cidades que fazem parte da geografia abordada. E, se o novo EP da Supervão não possui o cabresto de um gênero específico, é porque representa bem o que a sua cena emana, já que a noite gaúcha há muito tempo não se prende a categorias engessadas.

O EP traz o rock and roll das locações mais analógicas da capital, o eletrônico das festas onde os beats soam mais alto e a dinâmica da mistura proposta pelos DJs que se apresentam ainda hoje nos eventos que a Lezma Records organiza. Toda essa mesclagem resulta em algo que às vezes é até difícil de explicar apenas como som. Quem chega de fora, encarando o EP apenas como música (letra, ritmo, melodia etc.), se perde bonito.

Em entrevista recente ao New Yeah, a banda comentou que enxerga o seu som como algo que flerta com o “rock de guitarra”, mas que não necessariamente soa como as músicas que normalmente se encaixam neste rótulo. Aqui, a guitarra acaba se mesclando às batidas e à ambiência experimental. Complementada por samplers e loops digitais, a distorção é transformada/integrada em um potente som de pista. Em tempos de escalada dos fundamentalismos, mesmo dentro de espaços ditos alternativos, a mistura, para além de registrar musicalmente a multicomposta noite porto-alegrense, funciona também como atitude política de quem acha os rótulos um espaço pequeno demais para comportar as grandes ideias. Para a Supervão “não são os rótulos que unem as pessoas, mas a atitude em relação à música”, como comentaram na mesma entrevista. O rótulo, às vezes, é mesmo um artifício essencialmente desagregador.

O título, TMJNT (“tâmo junto”, se adicionarmos algumas vogais) resume bem a proposta de abertura a diferentes públicos e, ao mesmo tempo, de reunião da própria cena de produtores locais. Lançado na metade do ano, o trabalho já percorreu alguns palcos, com direito a aparições no centro do país, sem nunca abandonar a sua vocação regional. Esse espírito regionalizado, aberto para além da fronteira, mas consciente da importância de desenvolvimento da aldeia, impregna o som da banda de significados espaciais. Por isso, suas faixas estão sempre carregadas de significado até geopolítico; podem ser ouvidas como simples registros para embalar o corpo, mas precisam ser entendidas em contexto se quiserem ser dissecadas a fundo.

Com a pretensão de organizar agora o lançamento de um compilado dos seus dois EPs (este e o primeiro, Lua Degradê) em formato físico e também de povoar a sua agenda com shows locais e fora do RS, a Supervão segue contando um pouco da história da sua cena através da música: uma mistura de coletivos, artistas e pessoas que, juntas, constroem uma movimentação heterogênea – e está aí a sua maior qualidade, inclusive! – compreensível para qualquer pessoa de mente aberta, mas obviamente confusa para quem experimenta esperando degustar uma coisa ortodoxa.