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Soundligths: a 13 mil quilômetros de casa

Para alguns artistas, o isolamento pode funcionar como ingrediente chave na elevação da criatividade. Grandes nomes na música já experimentaram beber dessa fonte, desde Justin Vernon com seu projeto Bon Iver até o brasileiro Rodrigo Amarante na gravação do elogiado álbum Cavalo. O gaúcho Arthur Valandro viveu essa experiência meio que por acidente. Em um intercâmbio que não saiu como o esperado, ele foi parar em um pequeno vilarejo no Alaska, EUA. Após seis meses de isolamento em meio a temperaturas negativas e paisagens incríveis, trouxe em sua mala os dois singles de seu projeto solo Soundligths. Um deles é lançado hoje, com exclusividade pelo selo Lezma Records aqui no New Yeah.

O Soundligths é o projeto musical do Arthur, um estudante de Psicologia de Porto Alegre que, por conta de uma oportunidade de estudos, acabou sendo mandado para o interior do Alaska em um vilarejo com apenas 48 moradores. Um local totalmente inusitado e que veio como um presente para ele, já que, a partir dessa experiência, ele pôde iniciar as primeiras composições do seu EP. Para ele, tudo isso foi muito além de um intercâmbio: foi uma das experiências mais transformadoras que ele já teve.

“Fui parar lá aleatoriamente, colocado através de um programa de estudos do governo norte-americano. Mas tudo acabou sendo um acaso com gosto de destino. Antes da viagem eu já tinha grande apreço pela literatura que descrevia aquelas terras de lá e já era um sonho visitar aquela parte do mundo.”

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Capa do single, por mim, Afonso de Lima
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No gélido estado norte-americano, Arthur acabou encontrando na música uma forma de distração para os dias abaixo de zero. Para isso, comprou um kit de sobrevivência musical pela internet (que era a única forma de conexão que o local tinha com o restante do planeta). Sua guitarra, placa de áudio, microfone e sintetizador vieram de avião (também uma das únicas formas de transporte entre o vilarejo e a civilização). Recebido o material, Arthur começou as suas gravações caseiras.

O processo todo durou seis meses, através dos quais Arthur intercalou a produção de letras, arranjos e também textos em seu caderno de viagem, criando um processo de produção criativa impulsionado por todas as experiências e descobertas que tinha todos os dias em sua nova morada.

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Foto de Arthur no Alaska em 2012.
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No início de 2015, depois de voltar para o Brasil e retrabalhar alguns dos seus sons, ele decidiu fazer uma nova visita aos amigos que deixou nos Estados Unidos e voltou até a pequena comunidade na qual viveu durante o período de estudos. Na nova visita, decidiu passar alguns dias nas montanhas com seus amigos locais para ver pela segunda vez o fenômeno da aurora boreal. Após ver e ouvir a dança de luzes e sons no céu, ele decidiu que seu projeto musical se chamaria Soundligths, referenciando não apenas o momento, mas também sintetizando uma das cenas que mais marcaram a sua passagem pelo lugar.

Musicalmente, Arthur comenta que alguns artistas e bandas foram responsáveis por moldar o que seriam suas composições posteriormente. Em 2012, ao mesmo tempo em que ele estava vivendo umas das maiores viagens da sua vida, os australianos do Tame Impala estavam estourando nas paradas e listas de melhores do ano com o seu aclamado álbum Lonerism que, graças à conexão instável de internet do local, acabou chegando aos fones do Arthur, junto com o sugestivo The Year of Hibernation, do Youth Lagoon, além de mais alguns sons do The Antlers e do Sigur Rós. De volta ao Brasil, o conjunto de influências ganharia ainda Boogarins, Unknown Mortal Orchestra, Animal Collective e Panda Bear, sempre transitando entre o eletrônico, o ambiente e o psicodélico.

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Foto da aurora boreal, fenômeno que deu nome ao projeto.
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Diferente de seu primeiro single, “Escuramente”, “Dimensões” foi gravado em estúdio, na Casinha, em Porto alegre, com a ajuda de mais alguns amigos músicos, que fizeram com que a composição tomasse uma nova forma e conseguisse expressar de fato tudo o que Arthur sentiu quando a escreveu.

“’Dimensões’ também foi inicialmente gravada só por mim em casa, mas posteriormente mixada e parcialmente regravada (bateria, synths, reamp) na Casinha com a ajuda de um pessoal. André Garbini na bateria, Juliano Lacerda ajudando nos synths junto com o Bernard Simon (synths, mix).”

Para o futuro, o projeto Soundligths ainda deve ganhar um EP com mais sons vindos direto do Alaska, além de apresentar influências ainda mais marcantes da mistura entre a guitarra e o eletrônico, criando atmosferas psicodélicas e viajantes em torno de vocais cheios de reverb.