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Sobre o punk e o hardcore: entre a rebeldia e a cooptação

A ascensão do movimento punk do final dos anos 70 teve como mote musical o retorno do rock aos seus verdadeiros donos: a garotada que flertava com a delinquência, os locais apertados e a desglamourização. Nesta época, a parte mais letrada da música era dominada pelo torpor sonolento do progressivo, enquanto a música popular se rendia ao encanto purpurinado da disco music. O punk então ofereceu guitarra, baixo, bateria e três acordes em resposta.

Capa do EP Out of Vogue: o trabalho de 1978 é considerado por muitos a pedra fundamental do hardcore.

Capa do EP Out of Vogue: o trabalho de 1978 é considerado por muitos a pedra fundamental do hardcore.

Como todo movimento cultural jovem de impacto, o punk logo foi absorvido pelo sistema: alfinetes de fralda, jeans rasgados e outros acessórios daquele primeiro momento do movimento viraram itens de moda. A domesticação do punk acabou por transformá-lo rapidamente em uma piada inofensiva contada e ouvida por jovens desmiolados. No início dos anos 80, o movimento já parecia coisa do passado.

À sombra do sistema, muitos daqueles adolescentes que se envolveram com o punk não desistiram da ideia de ter a sua própria música longe do controle das gravadoras e do establishment. Nas garagens, um novo monstro começou a ser alimentado: na parte musical, os três acordes do punk, a guitarra distorcida e uma maior velocidade da bateria; no campo ideológico, a anarquia infantil do espírito de 1977 revestiu-se de seriedade, abraçando causas com mais embasamento e até com mais raiva. Pronto! O hardcore dava seus primeiros passos.

O marco inicial do movimento, muitos dizem, é o EP Out of Vogue, dos californianos do Middle Class.

Curiosamente, como acontecera com a explosão do punk, o hardcore também dava os seus primeiros passos do outro lado do Atlântico: na Inglaterra, o Discharge soltava seus primeiros petardos sonoros.

O som absurdamente barulhento do hardcore, unido às letras de protesto, sepultou qualquer chance de sucesso comercial e, consequentemente, de cooptação naquele primeiro momento, dando ao gênero um anticorpo que o punk não tinha. Assim sendo, no começo dos anos 80 os jovens tinham mais uma vez o controle da sua própria música e este controle já era autônomo em relação ao punk, que se tornaria peça de museu em pouquíssimo tempo.

No Brasil, São Paulo foi onde o hardcore encontrou terreno mais fértil para crescer. Bandas como Cólera, Olho Seco e Ratos de Porão apareciam na linha de frente, coletando influências externas e emitindo isso em território nacional. As letras de protesto faziam todo sentido no Brasil daqueles dias, já que havia muito do que reclamar e o fim agonizante da ditadura militar permitia maiores liberdades de expressão. As canções criticavam o patriotismo e o militarismo, a polícia e até mesmo o então poderoso Fundo Monetário Internacional, “dono” da impagável dívida externa brasileira.

Por sinal, os Ratos foram a primeira banda a lançar um álbum de harcore na América Latina: o clássico Crucificados pelo Sistema (1983). Além da já citada “FMI”, o disco não economizava na aspereza em músicas como “Agressão/Repressão” e “Asas da Vingança”. Outra curiosidade é que o disco marcou a estreia de João (ainda não tão) Gordo nos vocais.

Ideologicamente, o hardcore resgatou uma variante anarquista de corte nilista dos primeiros dias do punk e a transformou em conscientização política. Bakunin e Malatesta, entre outros pioneiros anarquistas, tinham suas ideias debatidas por jovens de 14 e 15 anos em rodas onde o hardcore também era ouvido. Outras causas, como o direitos das mulheres, a oposição ao capitalismo, o desarmamento, a liberdade individual e a proteção aos animais (muito antes desses assuntos virarem tendência) também eram abraçadas pelo hardcore. Enfim, qualquer minoria oprimida ou boa causa encontrava abrigo. Shows beneficentes em prol dessas lutas eram comuns. A oposição à mais-valia vinha até estampada nos álbuns, sempre produzidos e distribuídos pelas gravadoras do pessoal: os avisos de “pague não mais que R$ XX por esse disco” vinham impressos nas capas.

Ao contrário do punk, o hardcore demorou alguns anos pra ser devidamente deglutido pela indústria cultural. Até 1983, o novo movimento passou em branco pelos canais oficiais da mídia. A correspondência via correios, os LPs e os fanzines circulavam apenas entre os adeptos. A partir de 1983, algumas bandas de hardcore começam a aprimorar tecnicamente a sua sonoridade, chegando perto do som de certos grupos de metal mais pesado, e foi quando chamou-se a atenção das gravadoras. O metal e sua opereta bufa satã/inferno já não assustavam mais as mamães dos jovens “rebeldes”; era necessário trazer uma ameaça mais real. A aproximação sonora hardcore/metal era um grande prato para as corporações, que podiam trazer – mais uma vez – a rebeldia enlatada pra sala de estar.

Surgido em Los Angeles, em 1981, o grupo Suicidal Tendencies só começou a ser realmente ouvido por volta de 1983, quando lançou o seu álbum de estreia, uma azeitada mistura sonora de hardcore e metal com letras críticas e de rara inteligência. Com seu visual das ruas, envolvimento com gangues e apelo chicano, o Suicidal era o produto ideal para atender à demanda da indústria do disco por sangue novo. Em pouco tempo, a música “Institutionalized” teve seu clip (!) rodando (e bem) na MTV norte-americana.

A partir daí, foi aquele mesmo esquema já bem conhecido: gravadoras correndo atrás do próximo Suicidal, muitas bandas caindo no canto da sereia, muita gente reformulando música e aparecendo em castings de grandes gravadoras com seu som devidamente “metalizado”.

Para alguns estudiosos, 1986 marca o fim do hardcore: era difícil que um gênero de som tão limitado tecnicamente conseguisse evoluir, ou mesmo aceitar influências de outros estilos musicais; as brigas entre os jovens e as confusões nos shows tornavam escassos os locais para tocar; então muitos dos grupos que “evoluíram” técnica e financeiramente fizeram isso tomando outros caminhos.

O fim dessa era de ouro do hardcore foi apenas a semente de uma grande mudança no mainstream musical que estava por vir. O tão falado grunge, que virou o rock de cabeça pra baixo no começo dos anos 90, foi o amadurecimento musical daquela garotada antes envolvida na cena hardcore. Pearl Jam, Mudhoney, Nirvana e Soundgarden eram formadas por fãs de hardcore ou por ex-integrantes de bandas desse tipo, como Dave Grohl, que havia tocado no grupo Scream em Virginia antes de frequentar a cena de Seattle.

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Dave Grohl e os demais membros antissitema do Scream antes da explosão do grunge: anos depois, o baterista usaria uma camiseta da banda no clipe de “Smells Like Teen Spirit”.

No Brasil, esse legado veio a se manifestar alguns anos depois. Grupos como Nação Zumbi, Raimundos e, um pouco depois, Sheik Tosado e Zefirina Bomba juntaram hardcore com forró, baião e outros ritmos brasileiros numa mistura instigante. Nos anos 80, tal travessia de fronteiras musicais seria impossível. Naquela época, era cada macaco no seu galho e qualquer mistura do hardcore com outros ritmos era inviável e muito malvista pelos participantes da cena. Felizmente, até os estilos musicais amadurecem.

O tal fim do “melhor momento do hardcore” em 1986, apontado por pesquisadores, passou batido para muita gente envolvida no movimento à época. As bandas continuaram cada qual à sua forma e os garotos se envolviam com o herdeiro do pai adorado mesmo que ele fosse lançado pela Geffen Records. Na parte underground da mesma peça, muita gente manteve ao menos o purismo ideológico, dando continuidade a um movimento que continua até hoje, por mais paradoxal que seja algo tão niilista perdurar por tantos anos.

A popularização da internet em meados dos anos 90 também deu novo alento a todo movimento que quisesse se proliferar à margem da grande mídia. Se nos anos 80, quando as cartas e LPs podiam demorar meses para viajar de um país para outro, o intercâmbio mundial já era forte, imagine com a possibilidade de contato e troca de informações imediata proporcionada pela internet.

Curiosidade: em 2001, a fim de comemorar 20 anos de carreira, os Ratos de Porão regravaram o seu álbum de estreia com melhor qualidade e o lançaram com o nome Sistemados pelo Crucifa. Mais cedo ou mais tarde, as coisas são sempre “sistemadas” e precisamos lidar com isso.