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Michael League e o Snarky Puppy.

Snarky Puppy: as definições de tom universal foram atualizadas

Não são poucos os que consideram a música um canal espiritual. Também pudera: as notas de fato conectam as coisas; são capazes de unir o músico ao instrumento, a banda à plateia, as pessoas ao espaço. A música tem essa capacidade de emparelhar corpos diferentes e mesclá-los como se fossem um só. Basta, para isso, que aquela “magia” aconteça. John Coltrane chamou essa magia de “amor supremo”, Carlos Santana apelidou de “tom universal” e Miles Davis, só para citar alguns, definiu essa potência como “bitches brew”. Todas essas alcunhas diferentes mostram que muitos gênios já se preocuparam de falar sobre a mágica do momento musical que atravessa os corpos de forma irreversível causando reações imprevisíveis. A música não passa por você como um áudio do WhatsApp: ela penetra, remói algumas coisas e, depois que silencia, apenas finge que foi embora.

Se existe uma banda na cena mundial que consegue despertar tal aura, essa banda é o Snarky Puppy, projeto do amalucado e criativo baixista, guitarrista, arranjador e lavador de louça (e o que mais você quiser) Michael League. Ele é o capitão de um grupo composto por mais de 40 músicos que se alternam frequentemente sem que a capacidade de entregar performances incandescentes, noite após noite, seja afetada. É assim desde a fundação do projeto, ocorrida no ano 2004.

Renovação é a chave que mantém o Snarky Puppy vivo. Com uma formação que jamais se deu ao luxo de ser fixa, a banda norte-americana se tornou uma das maiores referência quando o assunto é o jazz fusion, se posicionando na linha de frente quanto aos novos rumos que essa vertente jazzística está tomando. Renovação e nenhum medo de arriscar: como provou a experiência ao lado da Metropole Orkest, uma das mais tradicionais orquestras do mundo, sediada na Holanda.

Esse espírito auto-renovável está nos discos, nos vídeos que você pode catar no YouTube e até no fundo das entrevistas que o líder do grupo dá à imprensa. Mas, como estamos falando de uma banda de jazz, é claro que o lugar onde ela se apresenta melhor é no show ao vivo. É onde a fórmula “desformulada” do Snarky Puppy se conecta com a plateia para dar origem ao tal “tom universal” do qual Carlos Santana falava. Foi o que ocorreu durante a última apresentação do grupo em São Paulo, no Cine Jóia, ocorrida na última semana.

Tudo começou com a abertura da brasileiríssima PRD Mais, com sua mistura de percussão, música brasileira e jazz. A banda que está no cast do selo GroundUP, criado pelo próprio Michael League, fez um show quente com a participação de Carlos Malta, um dos mais célebres músicos brasileiros, comparsa de caras como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Marcus Miller e Pat Metheny.

Já o Snarky Puppy despertou no público a impressão de que até o setlist seria dispensável, tamanha a capacidade do grupo de improvisar e colocar o público em movimento como se ele fosse uma extensão da banda. A música começa e alguns segundos depois todos estão a mercê do jazz, dançando de olhos fechados, como eu já fazia há mais de um ano, quando eles passaram por aqui pela última vez.

No show principal, Michael League e Cia estavam tão certos de que a noite seria incrível antes mesmo dela começar que gravaram o som de toda a apresentação. Ao fim da noite, o chefe da boca anunciou que o set completo estava à disposição do público na banquinha de merch colocada ao lado do palco. A solidez da fórmula gera esses movimentos de autoconfiança.

Vídeo da banda ao final da apresentação no Teatro Colón, na continuidade da turnê latino-americana: a casa cheia demonstra qual era a expectativa do público. Os aplausos demonstram que a expectativa não foi frustrada.

Com temas do mais recente disco do conjunto, Culcha Vulcha (2016) e outras pirações de carnavais mais antigos, Mark Lettieri teve uma noite especial com sua guitarra, enquanto três tecladistas se afundaram em improvisos, acompanhados de metais e até de participações improvisadas da banda de abertura: houve espaço para uma jam conjunta dos dois grupos espremidos sobre o palco.

O público, suspenso pela mágica, nem notou que, somando a abertura ao show principal, havia se passado quase quatro horas de luz, energia e groove. Essa suspensão era o sinal de que alguma coisa além de simplesmente som havia habitado a atmosfera do lugar. Foi uma belíssima troca e uma oportunidade única de ver como a música está sempre em expansão no espaço, no tempo e nos corpos.

Um brinde ao tom universal, ou seja lá como o Snarky Puppy quiser chamar essa química tão particular.