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Max Richter, Sleep

“Sleep”: álbum de oito horas segue conceitos de neurologia e foi composto para acompanhar o sono perfeito

São 10:26. Há 19 minutos, comecei a ouvir o álbum Sleep, de Max Richter composto em parceria com o neurologista David Eagleman para acompanhar as oito horas de um sono perfeito. São oito horas de música instrumental flutuante entre produção erudita contemporânea e ambient music, tudo supostamente pensado para embalar o sono e os ciclos do subconsciente notívago.

Não é meu primeiro contato com o disco. Ouvi algumas vezes a versão resumida do álbum, From Sleep, que tem apenas uma hora de duração. Tentei ouvir a obra completa outras vezes, mas dormi em todas. Todas. Esta é a primeira vez que ouço a obra completa, indo do raiar do dia até o início da noite. A experiência, mal sabia eu, seria minimamente traumática.

O primeiro reflexo, talvez desperto pelas experiências anteriores, é bocejar repetidamente. A essa altura o cérebro entende a melodia “Dream 1 (Before The Wind Blows It All Away)”, primeira faixa do álbum de Max Richter, como uma deixa para mergulhar no sono profundo, dadas as tentativas anteriores de audição. Passada essa parte do disco, o que resta é uma meditação subliminar constante, efeito da estrutura hipnótica das composições, claramente inspiradas pelos inventos de Bryan Eno, cuja clássica parceria com Harold Budd, Ambient 2: The Plateaux of Mirror é escolha frequente em minhas noites insones.

As primeiras horas do álbum de Max Richter são intensas. Um fluxo ininterrupto de melodias lindíssimas, mas muitas vezes angustiantes. Sleep, ao contrário do que se possa pensar, não é um indutor de sonhos leves estruturado em acordes maiores, e foge dos vícios da new age, com passeios frequentes pelas sombras da consciência e da inconsciência ao alternar momentos de foco e tranquilidade com trechos vigorosos e densos, como em “Return 2 (Song)” (a 1:21:42), peça de quase meia hora que por si só dificilmente induziria alguém a dormir. Dentro do processo, no entanto, faixas como essa correspondem aos padrões mais agitados e ativos do sono; ilustram as idas e vindas da mente incauta.

Chupa Manha Zine n. 3Este texto foi escrito por Guilherme Guedes e publicado originalmente na edição #2 do Chupa Manha Zine. A edição #3 do zine foi disponibilizada na última segunda-feira e pode ser adquirida clicando aqui.

Ignorada a pretensão do álbum, Sleep é musicalmente primoroso, e dá gosto ouvi-lo a qualquer hora do dia, com qualquer intenção. Mas, adianto, é um exercício complicado. O disco de Max Richter relaxa insistentemente, e precisei de algumas xícaras de café para me manter desperto mesmo ao exercer funções simples como responder e-mails, cozinhar (“pesquei” descascando uma abóbora!) ou cumprir ações simples de trabalho. E precisou ser assim, dada a impossibilidade de dedicar um dia útil exclusivamente ao transe provocado pelo álbum.

A languidez de “Moth-Like Stars” (a 2:16:39) e a forte “Non-Eternal” (a 5:09:59), em um intervalo de mais de três horas, chegam a ser desesperadoras, e precisei dar uma volta na rua para recobrar o foco.

Passava das 18:00 quando “Dream 0 (Till Break Of Day)” (a 7:50:33) acabou, e o silêncio causou estranheza. Deu até uma onda, para falar a verdade. Depois de tanto tempo ouvindo música, mesmo que suave, meu cérebro estava esgotado, e insistia em reproduzir o tema de “Dream” que não parava nem por baixo do single de Justin Bieber que o anúncio do YouTube insistia em reproduzir. Até tentei o disco Individual Thought Patterns, do Death, para quebrar a pasmaceira instalada, mas eu não conseguia ouvir mais nada naquele momento.

Desisti e fui tirar um cochilo.