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Foto de um SMD: o formato foi a aposta da indústria brasileira durante algumas semanas.

Semi Metalic Disc: o formato que se tornou obsoleto algumas semanas depois de ser anunciado como novidade

O ano era 2007. A indústria do disco no Brasil já duelava com a internet e apanhava feio diante da preferência do consumidor. Os usuários com acesso à informação migravam da compra física para serviços digitais como o YouTube e naturalizavam o download de mp3 em repositórios como o Megaupload e o Rapidshare. Já os usuários mais humildes davam as mãos de forma definitiva à pirataria das bancas por conta de seu preço mais competitivo. Acuada, a indústria caçava projetos que a colocassem de volta no jogo, e foi quando Ralf (da dupla Chrystian e Ralf) trouxe a público o formado SMD (Semi Metalic Disc), que era produzido nas mesmas fábricas do CD comum, mas que possuía um processo diferente de metalização que barateava significativamente o seu preço final.

Foto de um SMD: o formato que metalizava apenas o centro da bolacha foi a aposta da indústria brasileira durante algumas semanas.

Foto de um SMD: o formato que metalizava apenas o centro da bolacha foi a aposta da indústria brasileira durante algumas semanas.

O coração da proposta salvadora era o modelo de metalização: enquanto o CD comum era metalizado em toda a sua superfície, do centro à extremidade do disco, o Semi Metalic Disc era metalizado somente na região onde as faixas estavam registradas. Dessa forma, se economizava na metalização das bordas, se diminuía a capacidade de registro do material (os 80 minutos do CD comum viravam aproximadamente 64 minutos no SMD) e o resultado era um produto final que conservava a qualidade do registro por um preço bem menor. O mais legal da proposta era que o novo formato rodava bem nos mesmos aparelhos de som que rodavam o CD tradicional. Completavam a ideia um novo modelo de encarte, que substituía o plástico corriqueiro por um envelope de papel (mais barato e ecologicamente correto), e o preço fixado: todo disco SMD, independente do artista que o prensasse, saía da fábrica custando necessariamente R$5,00.

A patente do novo produto, registrada por Ralf, foi vendida ainda em 2007 à brasileira Microservice, gigante nacional na produção de mídia física, e a empresa sentou sobre o projeto durante anos. Realizou diversos testes sobre o formato, mas nunca investiu nele o tempo e a dedicação necessárias para que tudo deslanchasse de vez. Ali por 2010 e 2011, quando a indústria do disco finalmente chegou à UTI, aparentemente viu-se a necessidade de colocar o Semi Metalic Disc na rua com alguma urgência. Aparentemente se investiu em mídia: quase todas as matérias falando sobre o disco semi-metalizado são dessa época, inclusive o vídeo desenvolvido pelo Olhar Digital. Com quatro anos de atraso, o “portal de tendências digitais” anunciava o tal advento do disco que devolveria a competitividade dos originais na luta contra a pirataria.

SMD: vídeo

Clique para assistir: apesar da abordagem estranha, é um registro interessante para entender como a mídia tratava o SMD à época.

Na matéria, falava-se na possibilidade de prensar um disco de maneira 80% mais barata para o artista, o que abria a possibilidade para uma venda cerca de 30% mais barata junto ao consumidor final sem que o artista fosse prejudicado em seu lucro e sem que qualquer imposto fosse ignorado neste processo todo.

A maior desvantagem, diziam alguns artistas, era o formato do encarte de papelão que acompanhava a ideia, que reduzia bastante a capacidade de desenvolvimento de uma boa arte gráfica, pois oferecia uma superfície de impressão ainda menor do aquela que havia no encarte do CD comum. Pensando nisso, a equipe envolvida com o novo formato havia bolado a possibilidade de inserir no disco uma “revista eletrônica” que poderia ser lida caso a bolacha fosse inserida em um computador com leitor de CD.

Mas nem a atenção nacional dada sobre o formato, nem os méritos do projeto de Ralf, nem as inovações propostas pela Microservice fizeram o formato emplacar. Talvez receosa sobre a recepção do novo modelo e pisando em ovos diante de um mercado com lucros já bem enxutos, a empresa nunca investiu em peso naquela empreitada. Com uma distribuição deficiente, o formato nunca chegou aos consumidores diante dos quais ele seria mais efetivo: o consumidor de renda mais baixa, que continuava adepto da pirataria e àquela altura já se alfabetizava para aderir ao consumo digital também.

Em paralelo a isso, a indústria fonográfica do mundo inteiro passou a enxergar nas investidas da Apple sobre a música digital e no crescimento do Spotify (criado em 2008, mas só em 2010/2011 incluído no star system depois de receber destaque do Fórum Econômico Mundial e de firmar parcerias fundamentais com os maiores produtores e veículos do planeta) alternativas para salvar os seus lucros de maneira digital sem que o processo das fábricas precisasse passar por uma adequação forçada.

Interface do Spotify em 2011, quando o serviço passou a ser notado globalmente: com a ascenção do streaming, o SMD virou algo vintage horas depois de ser noticiado como novidade.

Interface do Spotify em 2011, quando o serviço passou a ser notado globalmente: com a ascenção do streaming, o SMD virou algo vintage dias depois de ser noticiado como novidade.

O formato alardeado em 2011 ainda naquele ano entraria em processo de ostracismo por conta de toda a conjuntura que o envolveu. Pesou nessa dinâmica, lógico, uma questão geopolítica: se Ralf fosse um estudante de Harvard e a Microservice fosse uma empresa plantada no coração econômico do Vale do Silício, o destino do formato – com mais investimentos e mais influência sobre a indústria – certamente seria diferente; mas é difícil imaginar que um formato surgido nos confins da América do Sul tivesse força para impulsionar uma mudança em escala global quando nem o próprio Spotify conseguiu ser relevante globalmente com os pés fisicamente cravados na sua Suécia natal.

O desenrolar da história todos conhecem. A venda de discos físicos passou a despencar ainda mais de 2011 em diante e a entrada da indústria tradicional dentro da música digital acabou garantindo a sobrevivência de alguns players, entre mortos e feridos (R.I.P. EMI). Em 2015, as vendas digitais superariam as vendas físicas pela primeira vez anunciando um caminho sem volta. Desde então, entender como o streaming – aparentemente o formato hegemônico na música atual – pode ser rentável para marcas e artistas tem sido a maior preocupação do setor, com os simpáticos discos semi-metalizados excluídos da discussão até segunda ordem.

Conversando com alguns entusiastas do Semi Metalic Disc (e eles ainda existem, embora se escondam muito bem), recebi a informação de que novidades sobre o formato poderiam ser coletadas em um portal mantido pela própria Microservice (que se manterá detentora da patente de produção até 2027). Esse portal onde eu poderia coletar informações sobre o formato era o Portal SMD. Entrei no endereço que me indicaram e vi a tela da imagem abaixo. Nunca um site traduziu tão bem a história de um formato que tinha tudo para ser, mas não foi.

Portal SMD acessado em 17 de junho de 2017.

Portal SMD acessado em 17 de junho de 2017.

Para quem sem interessou pelo assunto, há alguns textos curiosos publicados na época do pseudo-boom do formato, como o texto na página 30 da Revista Interferência de fevereiro de 2010 e a própria matéria do Olhar Digital, que deixa bem clara a empolgação que havia naquele período em torno da proposta da semi-metalização.