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Vitor Brauer

Sem Sair na Rolling Stone 1.5: palcos mais iluminados do que mostram as fotografias

Uma boa parte da psicose social moderna vem da perseguição de um modelo de felicidade criado sabe-se lá por quem mas desejado por quase todo mundo. Não é aquela felicidade que deriva da autoestima. O objetivo é ser grande, imponente, estar no centro do holofote. Há que se construir patrimônio, atender a uma expectativa, vencer quem faz o mesmo que você, ser maior do que a concorrência e esconder as fraquezas o máximo possível. A “felicidade” que vem de cima é autoritária, e por isso há quem se rebele contra ela. O projeto Turnê Sem Sair na Rolling Stone, por exemplo, faz questão de nadar contra a corrente. Nele, Vitor Brauer, Jonathan Tadeu e Fernando Motta percorrem palcos pequenos do país, de onde possam encarar a plateia olhando nos olhos. Na estrutura, alguns instrumentos simples plugados em um palco quase sempre pequeno e sem pirotecnia. No conteúdo, canções sobre as pequenas vitórias diárias, sobre a insegurança de ser quem se é. Um experimento social intenso e contracultural que em 2017 deve chegar a 54 shows em 21 estados diferentes do Brasil.

Vitor Brauer

Vitor Brauer: um dos compositores e guitarrista da Lupe de Lupe volta como baterista na nova versão de um projeto sempre novo.

O projeto foi lançado em 2015, quando Vitor ainda era integrante da Lupe de Lupe. Nesta primeira edição, mais compacta e chamada de versão 1.0, a própria banda percorreu uma maratona 24 datas por diferentes regiões do Brasil. Como os relatos divulgados em vídeo e texto puderam mostrar, o primeiro experimento do projeto acabou sendo uma verdadeira aula de como organizar uma turnê, com lições práticas do que fazer e do que não fazer na estrada. Para quem lia, ouvia ou mesmo acompanhava as apresentações ao vivo em pequenos palcos que se tornavam grandes na presença dos músicos, o ousado projeto da Lupe de Lupe foi uma lição detalhada de como acreditar em si respeitando as suas próprias limitações.

Em 2017, o projeto segue se atualizando. Vitor Brauer segue na linha de frente e assume a bateria, agora acompanhado de Jonathan Tadeu (responsável pelo recém lançado álbum Filho do Meio) e de Fernando Motta (guitarrista e compositor da Geração Perdida de Minas Gerais e da banda Young Lights). No repertório da Turnê Sem Sair na Rolling Stone 1.5, mais de duas horas de músicas das carreiras solo de cada um dos integrantes, além de sons vindos da discografia da banda fundadora do projeto.

É uma mistura de muita coisa, que pode soar estranha para quem conhece as partes em separado, e ainda mais estranha para quem nunca teve acesso ao tipo de som por onde os três transitam. O elo conector está no texto, com palavras que se sobrepõem à estética e que vislumbram uma ideia de vitória que vai além daquela estampada no outdoor, defendida pelo comercial da televisão e construída post a post nas redes sociais que mentem a vida. Uma vitória cantada como algo diário menos glamouroso, mais trabalhoso, menos reluzente e mais concreto, coletado nas pequenas coisas: na sensação de se autoentender, na liberdade de dizer o que a alma pede que seja dito, no aplauso direcionado a um palco que espiritualmente é bem mais iluminado do que mostra a fotografia.

Eu já venci / E eu continuo vencendo vocês todo dia.

Quando Vitor canta por detrás da bateria, quando Jonathan e Fernando sustentam o ritmo com suas guitarras e vozes, manifesta-se uma espécie de terapia coletiva onde medos autobiográficos emitidos por caixas de som e plateia se encontram. Artista e público são ali um corpo só, consciente das limitações que possui. E há algo de simbólico no fato disso ocorrer em palcos pequenos, em locais de lotação limitada, em eventos que percorrem a periferia do grande circuito. Porque às vezes o grande circuito está preocupado em dar suporte àquela felicidade estranha que mais aprisiona do que liberta.

No dia 20 de maio, sábado, Porto Alegre recebe a tour para um show plugado com lotação limitada (apenas 50 lugares). Há mais informações nesse link. Certamente estaremos por lá.