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Lançamento e entrevista: “Sem Açúcar”, novo disco do Aminoácido

Parece estranho falar assim, mas o fácil acesso a referências vindas de todas as épocas trouxe alguns problemas para a arte contemporânea. Se por um lado as tecnologias do último século aumentaram a possibilidade de escavar atrás de materiais que ortodoxamente estariam inalcançáveis, por outro lado a onipresença de tantas e variadas referências fez com que muitos novos artistas derrapassem na hora de romper a barreira do mero revisionismo. O Aminoácido, grupo de Londrina (PR), sempre tomou para si a missão de não cair nessa armadilha. Foi assim no disco de estreia, Meticuloso (2017), que já reciclava e ressignificava um leque de boas influências. A receita se repete agora de maneira amplificada no segundo álbum, Sem Açúcar (2018), lançado hoje com exclusividade pelo New Yeah.

Em comparação com o primeiro disco, que foi praticamente todo instrumental, Sem Açúcar apresenta alguns temas cantados, e as palavras inclusas ajudam a marcar a evolução das composições. O que permanece é o fino tato e o arrojo técnico dos envolvidos. A adição da dupla de backing vocals formada por Clara Striquer e Mariana Leon enriquece o já bom trabalho de voz de Thiago Frazim e Cristiano Pereira. Com uma abordagem que pega a calmaria de Joe Pass, coloca o dedo dele na tomada, mistura com uns fios de bigode do Zappa e mergulha tudo no funk à King Crimson, a banda desafia o ouvido e tensiona as próprias fontes de onde bebe. O objetivo é sempre explorar para depois subverter, como contaram os próprios membros da banda no papo que tivemos.

NEW YEAH: quem escuta o novo trabalho percebe, digamos, um progresso no som da banda, sobretudo por conta da presença dos vocais. O que levou vocês a quererem trabalhar mais este fundamento?

THIAGO FRAZIM: nós sempre gostamos de muitos artistas que trabalham bem as melodias vocais, mas acho que isso só foi aparecer no nosso trabalho agora porque nesse segundo disco nós sentimos a necessidade de falar mais. Acabamos gostando bastante de como as coisas iam ficando dentro dessa nova proposta. As palavras sugerem um outro universo para o ouvinte, e o próprio processo de explorar a voz é muito divertido. Com certeza é uma experiência que vamos repetir mais vezes daqui pra frente.

Sem Açúcar, Aminoácido

Sem Açúcar, Aminoácido: a arte da capa é assinada por Rafael Panegalli.

NEW YEAH: aparentemente, há muito do Frank Zappa no som de vocês. Existe essa influência? Como ela ocorre?

THIAGO FRAZIM: existe. Nós tomamos o Zappa como principal referência por conta da forma como ele se apropriava do rock’n roll para subverter o gênero e transgredir estilos e normas. O Aminoácido, no seu cerne, é um grupo de rock, mas, assim como o Zappa, nós acreditamos nas rupturas. Gostamos de provocar o inesperado de forma musical por meio de recursos técnicos, como mudanças de métrica ou de andamento. Da mesma forma, gostamos de explorar diversos ambientes sonoros e apreciamos o resultado que isso traz.

 O Aminoácido, no seu cerne, é um grupo de rock, mas, assim como o Zappa, nós acreditamos nas rupturas.

NEW YEAH: você trata o Aminoácido como um grupo de rock, mas há muito de jazz na dinâmica de vocês também. Não?

THIAGO FRAZIM: sim, sobretudo porque somos uma banda cuja identidade está fortemente ligada às nossas sessões de improviso. Mas não pensamos muito nessa questão dos gêneros. Nós gostamos bastante de jazz, mas também ouvimos outras coisas, como funk, MPB, progressivo, música de concerto… então o que criamos acaba remetendo a essas referências. Acontece que muitas vezes esses estilos se misturam ao longo do nosso processo criativo, dando origem a sons que não podemos mais chamar de jazz, nem de funk, nem de progressivo. O que acabamos produzindo não se encaixa muito bem em qualquer uma dessas categorias, embora seja uma síntese de todas elas.

NEW YEAH: fica difícil não perguntar agora como é o processo criativo da banda. Aliás, algo mudou em relação ao processo que guiou o primeiro trabalho?

DOUGLAS LABIGALINI: o nosso processo criativo se dá totalmente a partir de jams e de alguns riffs anteriormente já compostos por alguém. O mais bacana do Aminoácido é o fato de que cada um expressa o que quiser nas canções. Os ensaios são produtivos e é muito difícil não fazermos uma música a cada ensaio, ou pelo menos começarmos uma música pra terminar depois, porque sempre há uma brincadeira aqui ou ali com os instrumentos. O nosso som realmente se transformou, mas felizmente o processo criativo ainda é o mesmo do primeiro disco.

NEW YEAH: muito obrigado pela atenção, meus caros. Pra fechar, vocês tocam na próxima edição do Psicodália. O que estão esperando do festival e como estão os preparativos? Vai ter cópia física do Sem Açúcar por lá?

DOUGLAS LABIGALINI: com uma oportunidade dessa, estamos com aquele frio na barriga. Queremos mostrar o que somos para quem nunca nos viu, e esperamos que seja como todos dizem que o Psicodália é, magnífico. Os preparativos contam com muitos ensaios, surpresas e discussões a respeito de como introduzir um pouco de nós em cada pessoa que vai estar assistindo não só o Psicodália mas todos os shows que faremos agora em 2018. Em relação às cópias físicas do Sem Açúcar, tudo indica que levaremos algumas, sim! As pessoas podem esperar um Sem Açúcar Psicodália Exclusive Edition (Parental Advisory).

Sem Açúcar (Aminoácido)
Lançamento Fevereiro/2018
Selo Tapete Voador Records
Ficha técnica Thiago Frazim (guitarra/voz), Douglas Labigalini (bateria), Lugue Henriques (baixo), Cristiano Pereira (guitarra/voz), João Bolognini (percussão), Clara Striquer e Mariana Leon (backing vocals). Gravado nos estúdios Tapete Voador.