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Rodrigo, Carlos, Samuel e Leandro, não necessariamente nesta ordem: talento acima da tecnologia e musicalidade acima da virtuose.

Rodrigo Nassif Quarteto: “Rupestre do Futuro” e a musicalidade acima do virtuosismo

Fazer música instrumental com o violão é se dispor a falar uma língua complexa. No riscado acústico, o violinista precisa ter um domínio primoroso do seu instrumento para conseguir falar através dele com fluência. O violão é puro, sóbrio e cerebral. É inviável preenchê-lo com milhares de pedais de efeitos. Com um violão no colo, o músico possui apenas duas ferramentas possíveis: os seus próprios dedos e o corpanzil do instrumento. E, num mundo onde é possível soar exatamente igual a qualquer outro músico com apenas um pedal debaixo do pé, trabalhos orgânicos como Rupestre do Futuro, segundo disco do Rodrigo Nassif Quarteto (lançado no dia 24 de agosto), precisam ser ouvidos com atenção.

Rodrigo Nassif Quarteto

Rodrigo, Carlos, Samuel e Leandro, não necessariamente nesta ordem: talento acima da tecnologia e musicalidade acima do virtuosismo.

O instrumental presente nas 12 faixas que compõem o disco é de grande diversidade estética. Em um rápido papo comigo, Rodrigo Nassif explicou que o processo de criação em equipe leva os créditos pela diversidade ouvida no registro. Mas também é notável que, mesmo incorporando elementos de cozinhas diversas (como o folk, o rock e até mesmo o tango), o disco possui uma identidade muito bem estabelecida, mostrando que o feeling do quarteto é maduro e rico na mesma proporção de sua técnica. Detalhe: tudo perfilado com a sensibilidade que os grandes músicos precisam ter para não soarem como meros exibicionistas. Se foi complicado conciliar tudo isso? Bom, deixemos que o próprio Rodrigo explique com suas palavras.

NEW YEAH: como foi o processo criativo do Rupestre do Futuro?

NASSIF: basicamente, uma longa série de ensaios, onde testávamos os arranjos trocando sugestões e ideias constantemente. Trabalhando em quarteto, os arranjos ganham muito peso e swing, isso permite muito mais liberdade nos arranjos, o que torna a paleta de cores e timbres incrivelmente mais rica, tanto que há espaço para guitarras com microfonias cantantes, harmônicas, pianos… tudo assenta melhor com o quarteto. Nossa troca de ideias foi mais no sentido de aproveitar da melhor maneira tudo isso, traduzindo tantos recursos em uma atmosfera de frescor para os ouvintes.

NEW YEAH: trabalhando em grupo, creio que também se multiplique a quantidade de referências. Foi complicado unir todas essas faces em um som jazzístico?

NASSIF: costumamos dizer que tocamos ao modo dos jazzistas, com espaços para improvisos em todas partes do arranjo. Essa é a única linguagem possível para o Rodrigo Nassif Quarteto, porque é onde encontramos liberdade para tocar de acordo com a atmosfera do dia. Também é necessário não se ater ao rótulo que pode significar “o jazz”. O Leandro, nosso baterista curte muito rock clássico, e também coisas de rap, que nós quatro gostamos, como The Roots, além do  jazz contemporâneo de caras como o Kamasi Washington etc. O Samuel, nosso baixista adora Toots and the Maytals, Kendrick Lamar e jazz clássico. O Carlos, nosso violonista, curte muito som contemporâneo: Metá Metá, Elza Soares e Francisco el Hombre. Já eu, dependendo do dia, ouço tudo isso e mais alguma coisa. Há dias também em que não ouço nada de música, só fico em silêncio, curtindo os sons supostamente não musicais. Com certeza, tudo influencia no resultado final. Mas aí quanto mais liberdade para incorporar coisas diferentes, mais presente o espirito lúdico da criação em grupo. Esse espírito é importantíssimo para que os arranjos encontrem o melhor caminho, mesclem as influências e aconteçam naturalmente, sem engessamento.

NEW YEAH: os seus trabalhos já entraram na lista de mais vendidos da Apple Store e de outros serviços semelhantes. Como você vê a relação entre a nova maneira de consumo ditada pelo streaming versus as possibilidades mercadológicas da indústria neste novo cenário?

NASSIF: o que me deixa saudosista em relação à era do CD é que realmente conseguimos vender um número expressivo de discos, mas a divulgação da música naquela época obedecia a patamares bem regionalizados. O que me deixa feliz na era do streaming é que basta querer ouvir, em qualquer lugar, qualquer pessoa. O que me deixa chateado é que os serviços ainda pagam muito mal em relação ao quanto lucram com a nossa propriedade intelectual.

NEW YEAH: e como você enxerga as possibilidades e oportunidades das bandas instrumentais no Brasil hoje em dia? Essas plataformas ajudaram em algo?

NASSIF: existe um mercado enorme para qualquer tipo de música no Brasil, isso não há como negar. Sou muito otimista em relação a este tema, pois já não precisamos pensar em atingir unicamente um nicho tradicional de público. Com a internet, é só dar um clique e tu podes ouvir tudo que esteja à disposição online. Isso faz o seu nome circular mais entre diferentes nichos e geografias. Nos nossos shows, por exemplo, temos tido um público interessante e muito heterogêneo, principalmente nos shows em SP.

NEW YEAH: Por fim, se você pudesse definir o Rupestre do Futuro em uma frase, qual seria?

NASSIF: focaria em algo que estruturou a criação do disco: se tens uma emoção, expresse-a, não importa qual seja.