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Revolver, de Walter Franco: uma experiência rica de remixagem do pop com o erudito

Walter Franco não pertenceu à Bossa Nova, embora nunca tenha negado diretamente a herança do movimento. Também não pertenceu à vanguarda tropicalista, mas foi continuísta de alguns dos valores pregados pelo grupo de Caetano e Gil. Alguns críticos incluíram Walter no círculo vanguardista paulistano, ao lado de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, mas também em relação a estes artistas a obra de Walter possui algumas divergências. A verdade é que ele nunca foi um artista facilmente encaixável em ondas ou grupos, e o disco Revolver (1975) ajuda a explicar o porquê disso.

LP de Revolver, de Walter Franco

LP de Revolver, de Walter Franco: o músico contou com a produção de Pena Schmidt, além da participação de Emilio Carrera (conhecido por sua colaboração no primeiro álbum dos Secos e Molhados) e Rodolpho Grani Jr. (um dos principais arranjadores da época).

Revolver apresentava canções que tinham influência da música moderna e que também bebiam na música de vanguarda de John Cage, unindo duas correntes que não eram necessariamente próximas. A sua gravação primou por registrar sons claros aos ouvidos sem deixar de soar experimental com a inclusão de ruídos. Em si mesma, a obra já guardava essa quantidade de antíteses. Havia ainda ali, ainda, uma forte influência dos Beatles, onde Walter se alinhava a quase toda a sua geração. Apesar da ligação óbvia com o disco Revolver do grupo inglês (1966), o som presente no Revolver brasileiro estava mais próximo de Sgt. Peppers (1967) e principalmente do White Album (1968), que também se caracterizou por levar o grupo inglês um passo além na sua jornada experimental.

A influência beatle não estava presente apenas no som, mas se estendia à capa do registro. Há quem diga que a capa de Revolver mantém estreita relação com a capa de outro álbum do Fab Four: Abbey Road (1969). Em sua capa, Walter aparece com cabelos longos e vestido de branco, quase que copiando o look de John Lennon na famosa capa em que o quarteto atravessa a rua.

Walter e os Beatles

Walter e os Beatles: não havia citação oficial, mas a semelhança das capas era descarada demais para ser considerada coincidência.

O disco de Walter estava repleto de antropofagia, com o artista se aproveitando e remixando uma série de acontecimentos e obras do universo pop e do inacessível universo erudito. Isso cobria do formato das canções ao conteúdo delas, no flerte do artista com a poesia concreta. Ao procurar pela história pessoal de Walter, me deparei com a profunda relação entre o compositor e a palavra escrita: seu pai, Cid Franco, foi professor de Haroldo de Campos, um dos mais importantes poetas brasileiros, fundador do movimento de poesia concretista. Assim, dá para entender os usos e abusos de Walter Franco com a palavra em suas músicas desde cedo. Em Revolver, isso atingiu o seu auge. Era possível, inclusive, olhar o encarte de Revolver e apreciá-lo como uma obra gráfica, tamanha a era precisão com que Walter posicionava as palavras dentro das suas letras àquela altura.

Encarte de Revolver (1975)

Encarte de Revolver (1975): a visualidade das estrofes transformava as letras também em espetáculo visual.

Em Revolver, as experiências de vanguarda intensificadas em Ou Não (1973) ficaram ainda mais maduras. O resultado foi a produção de um disco que, apesar de toda a viagem, era mais acessível aos ouvintes. Ainda assim, Walter permanecia inclassificável, como de fato permaneceria sendo durante todo o decorrer da sua carreira. Para muitos críticos, um “artista maldito”, incapaz de se alinhar aos moldes que a própria crítica musical sempre utilizou para avaliar as criações artísticas. Enquanto sua obra corria, quase todas as definições que poderiam encaixotar a sua música foram aparecer no horizonte da crítica somente anos depois de Walter já ter passado por lá.

Se não foi classificado ou assimilado por conta da sua descompostura, em compensação essa falta de alinhamento junto a modas e moldes acabou produzindo sons pouquíssimo datados. Revolver, posso dizer sem culpa, continua soando impecável quase cinquenta anos depois de seu lançamento. Mais do que isso, parece ter encontrado no ambiente remixado do século XXI – onde tecnologias e artes se misturam numa verdadeira salada de frutas – o cenário perfeito para ser escutado e compreendido em sua totalidade pela primeira vez.