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Anthony Meier

Radio Moscow: “com a manutenção da formação, nossa evolução fica mais visível a cada disco”

É difícil apontar quando o termo “hard rock” surgiu no vocabulário da crítica especializada. O que se sabe é que ele está lá desde, pelo menos, os anos 60, apontando movimentos que cobrem desde os experimentos de Jefferson Airplane às margens do São Francisco até manifestações mais contundentes do nível do Cream, do outro lado do oceano, na Inglaterra. O triste fato para o gênero foi o que aconteceu depois dessa época de ouro. Desembocando mais à frente no rock progressivo e engolido pela cultura pop mais rasa dos anos 80, o estilo perdeu solidez e começou a ser visto com desconfiança. Faz um tempo que o papel das novas gerações do gênero tem sido desfazer o preconceito sobre o mesmo e fazer com que o público olhe de novo para o hard rock como um gênero que pode propor caminhos criativos. O trabalho é lento, mas, a julgar pela passagem do Radio Moscow por São Paulo na última semana, algo está dando certo. O futuro está aí, disposto a ser muito mais do que laquê ou mero flashback.

Anthony Meier

Anthony Meier, baixista do Radio Moscow: “temos improvisado mais sobre o palco porque nos entendemos melhor e sentimos mais segurança para isso”. Foto por Fernando Yokota.

Não se alimenta um gênero apenas com medalhões. Isso é regra fundamental. A base precisa ser forte, e isso passa pela existência de grupos locais que sejam informados o suficiente para entenderem o legado dos antepassados e criativos o suficiente para não se prenderem a este legado como se o utilizassem como tabela periódica. Os cariocas do Auramental, que abriram a noite no Vic Club com um approach de veia psicodélica, mas com elementos progressivos, foi também um bom sinal ao hard rock. O Quarto Ácido, trio gaúcho que veio logo depois com uma proposta bastante ancorada em uma dinâmica que privilegiava baixo e bateria, serviu para mostrar que o gênero, além de estar vivo, pode também ser diverso. Quando o Radio Moscow subiu ao palco, a noite já estava ganha. Os californianos trouxeram as faixas do quinto disco de estúdio (New Beginnings, lançado em 2017) ainda quentes, favorecidas por uma química notável entre os membros do trio.

Anthony Meier, baixista do Radio Moscow que conversou conosco, contou que a passagem pela América do Sul era um momento muito aguardado pela banda desde o início da turnê mundial. “A nossa quarta passagem”, fez questão de pontuar ele. Após uma longa turnê em 2015, que deu origem a um disco ao vivo (Live In California, 2016), o grupo retornou ao Brasil outra vez em 2018, agora com canções inéditas, fazendo um show memorável que, segundo o músico, está incluso em um giro maior que pretende ser bastante completo ao redor do mundo.

NEW YEAH: como foi voltar ao estúdio e gravar o New Beginnings depois da longa turnê que ficou registrada no disco ao vivo?

ANTHONY MEIER: foi natural, eu acho. Nós não encaramos o disco ao vivo como um marco ou algo que afetou demais a gente. Ele foi algo natural, que aconteceu no fluxo da nossa trajetória, então seguir a partir dele também foi algo muito natural, entende? O disco ao vivo foi só algo que precisava acontecer porque a banda estava em turnê tocando o material dos quatro discos anteriores. Gravar esse ao vivo era arrematar com força esse ciclo. Corremos a cena com o repertório de quatro gravações, gravamos um disco duplo ao vivo e depois começamos a ensaiar novas músicas para gravar novamente.

NEW YEAH: New Beginnings é o terceiro disco da Radio Moscow com a mesma formação, que conta ainda com Paul Marrone (bateria) e Parker Griggs (guitarra). Algo afeta a banda positivamente por ela atingir essa marca?

ANTHONY MEIER: sim, certamente. Eu acredito que quanto mais gravamos juntos e principalmente tocamos juntos sobre o palco, melhor somos coletivamente. E, de fato, temos estado juntos há cinco bons anos, fazendo tantos shows e tours. A química musical que possuímos está mais forte do que nunca, e isso afeta até o próprio disco. Por termos conseguido manter a formação, fica mais fácil visualizar os progressos nas composições das banda. Você consegue ver uma evolução grande do material escrito pelo Parker, disco após disco, por exemplo. O som da banda é sentido como algo mais coerente. Dá pra sentir na audição que todos os nossos diferentes sons possuem as mesmas raízes. E nós, óbvio, ficamos bem felizes com o quão azeitado esse disco saiu. Foi muito divertido passar pelo processo de gravação, e a própria visão positiva sobre o processo de gravação se torna ainda mais positiva quando vemos o resultado.

Radio Moscou no Vic Club

Radio Moscow no Vic Club: a quarta passagem dos californianos pelo Brasil marcou a apresentação do disco New Beginnings, lançado no ano passado. Foto por Fernando Yokota.

NEW YEAH: a atual formação também reúne três grandes colecionadores de sons dos anos 60 e 70. Há discos dessa época que influenciaram especialmente esse último trabalho?

ANTHONY MEIER: mais ou menos. Não acho que o nosso disco novo tenha particularmente sido influenciado por algum LP específico. Somos sempre influenciados por diversos discos e o resultado de toda essa influência é sempre uma coisa bem misturada. Por outro lado, nós definitivamente curtimos as mesmas músicas, sons mais puxados para o rock, para a psicodelia, o krautrock, o garage e o prog. Nós três amamos Captain Beyond, Iron Claw, May Blitz, Masters Apprentices, T2, Toad, Love, King Crimson, Flower Travellin’ Band, Amon Düül II, Eloy, Quicksilver Messenger Service, Black Sabbath, Rory Gallagher, Jimi Hendrix, Peter Green, Hackwing, Mad River, Dust, H.P. Lovecraft, Glass Harp, Wishbone Ash e MC5. Mesmo antes de nos conhecermos, era nessa atmosfera que já estávamos. Era algo no meio de todos esses sons que nós queríamos tocar em uma banda. Logo, temos os mesmo pilares criativos, e isso acaba indo parar dentro das nossas canções e acaba influenciando até a nossa maneira de tocar ao vivo. Hoje, por exemplo, improvisamos muito sobre o palco, e isso só é possível porque estamos entre pessoas com um caminho sonoro bem semelhante.

NEW YEAH: depois desses últimos três trabalhos, quais são as expectativas da banda para um futuro próximo?

ANTHONY MEIER: bom, desde que concluímos a gravação desse disco, estamos fazendo uma turnê de grande porte, daquelas que o lançamento de um novo trabalho exige. Já fizemos seis semanas durante outubro do ano passado pela Europa e mais três semanas pelos Estados Unidos, já com o repertório desse disco novo. Agora viemos para a América do Sul, e depois teremos mais três semanas na Europa, com alguns festivais em maio e uma passagem pela Austrália em julho. Depois disso, acho que temos alguns shows e mais algumas semanas tocando nos Estados Unidos no outono. Seria bem legal ainda tocar no Japão ou em algum lugar diferente, como a Indonésia. Esperamos que essa mudança de selo (a Radio Moscow passou a fazer parte do casting do Century Media) nos ajude a tocar por mais países. Seria empolgante tocar no primeiro escalão dos festivais de rock pelo mundo todo também.

NEW YEAH: a banda planeja muitas coisas novas então…

ANTHONY MEIER: sim. A única coisa que deve se repetir é o que faremos ao final dessa maratona. Depois de todas essas viagens, deveremos nos reunir para compor novamente. Certamente prepararemos uma nova fornada de músicas e sons para o próximo trabalho, e depois colocaremos esse trabalho na estrada, como temos feito sempre, e como temos feito cada vez melhor.