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Soupy, dos Wonder Years, avisou via Facebook que o show até então cancelado da banda no Chile (!) foi reorganizado e viabilizado por um fã.

Quando o fã deixa de ser receptor para ser propositor

Está todo mundo careca de ouvir que a internet aumentou a velocidade das coisas. Hoje, a informação consegue chegar a muito mais lugares em muito menos tempo, pessoas que não tinham acesso à informação a obtém pela web e, principalmente, vozes que antes precisavam apenas ouvir hoje podem falar, e falar cada vez mais alto. No mundo da música, isso teve alguns reflexos significativos.

Soupy, dos Wonder Years, avisou via Facebook que o show até então cancelado da banda no Chile (!) foi reorganizado e viabilizado por um fã.

Soupy, dos Wonder Years, avisou via Facebook que o show até então cancelado da banda no Chile (!) foi reorganizado e viabilizado por um fã.

As ferramentas de produção se democratizaram, as barreiras entre admiradores e artistas foram sendo derrubadas pouco a pouco por meio das conexões e, hoje, cada vez é mais comum avistar fãs e bandas interagindo e unindo esforços, seja na viabilização de um show, seja no financiamento de uma gravação específica ou de um disco inteiro. Inclusive, aposto que a nova frase dos tiozões que escrevem sobre a geração Y será “o crowdfunding veio para ficar”. Essa é a tendência, sabemos na teoria. Mas a prática, na velocidade com que acontece, espanta até mesmo quem está submerso no meio. E a semana passada foi especialmente espantosa para mim.

Desde o ano passado, venho observando a forma como, nesse novo cenário, os fãs colocam a mão na massa para trazer artistas de longe para apresentações na sua cidade. Cheguei a escrever um texto bem grande sobre isso aqui, destacando casos como a última turnê brasileira da cantora Lucy Rose (totalmente organizada e produzida pelos fãs), o show do Mac Demarco em Porto Alegre (que começou com um evento que eu criei no Facebook) e a série de apresentações da banda carioca Gorduratrans pelo Nordeste (que gerou uma dúzia de shows sem que os músicos tenham tirado grana do próprio bolso).

Em todos esses episódios, a banda ou produtora teve a ajuda de algum fã ou de uma quantidade considerável de fãs que articularam mobilizações, viabilizaram espaços e providenciaram até a estrutura dos shows em algumas localidades, mostrando que cada vez mais o papel do fã deixará de ser simplesmente bater palmas ao final de cada número. Além de consumir a música, o papel do fã agora também é outro: mobilizar, agitar e viabilizar. O fã deixa de ser um componente receptor para se tornar propositor. No que diz respeito aos shows e turnês, isso não inclui apenas o financiamento, que antigamente já acontecia a partir da compra do ingresso, por exemplo. O novo papel delega ao fã a função de conectar diversas oportunidades e fazer acontecer coisas que talvez nunca pudessem ser realizadas sem a ajuda de um braço local. Então chegamos ao exemplo louco que ocorreu na semana passada.

Radicalizando a boa mobilização vista nestes outros casos que acabei de comentar, um fã chileno da banda norte americana The Wonder Years, insatisfeito com o cancelamento do show do grupo na sua cidade por complicações da produtora local, contatou uma banda da região e organizou com ela o show que parecia perdido. Juntos, correram atrás de um novo espaço, mantiveram contato direto com os norte-americanos responsáveis pela turnê mundial e, por fim, trouxeram o show para Santiago do Chile. Em nota em sua página no Facebook, a produtora Highlight Sounds, responsável pela vinda do grupo ao Brasil, comentou o empenho do fã e postou um vídeo onde o vocalista da banda, conhecido como Soupy, alertava o público sobre o novo local da apresentação, confirmando o show que já estava sendo dado como cancelado.

“Apesar dos inúmeros problemas causados pelo cancelamento da apresentação do The Wonder Years pelos produtores de Santiago no Chile, o sexteto fez o possível e o impossível para conseguir um novo local para se apresentar e, com a ajuda de um grande fã local, remarcaram o show para o Frequência Nacional, com a ajuda da banda Coraje”.

O papel do fã sofreu uma grande mudança por conta de diversos fatores, e a tecnologia está visivelmente no centro disso. As relações se estreitaram, os meios de produção se tornaram mais acessíveis e, com a fragmentação da cadeia produtiva, a imagem do ÍDOLO foi substituída pela imagem do PARCEIRO. Nesse novo jogo, o papel do fã foi reinventado, o tirando do ponto passivo e ressignificando a sua função, dando a ele o poder de realizar coisas que antes ficavam necessariamente a cargo de empresas e marcas (que nem sempre possuíam interesses muito cristalinos).

O consumidor tradicional abre espaço atualmente para a figura do prosumer, termo que o marketing moderno tem usado para designar o consumidor que produz e viabiliza o que compra. É outra tendência daquelas que “veio para ficar”, o Nizan Guanaes diria em um livro impresso com 545 páginas.

Essas práticas novas ressignificam a forma como o fã atua e alteram a maneira como o fã é percebido pelo mercado. Na prática, cria-se a necessidade de desenvolver novos formatos em que o fã tenha cada vez mais poder de participação, mobilização e (por que não?) veto.

O novo cenário muda a forma como as bandas enxergam os fãs também, marcando uma época de relações mais sólidas e confiáveis. Uma coisa é financiar um disco contando com a ajuda dos fãs através de uma plataforma digital, outra é colocar a bagagem em um avião e voar da Philadelphia ao Chile para subir em um palco providenciado por um fã. A banda entrega cada vez mais o destino do “empreendimento banda” nas mãos do público e caminha para um futuro onde os limites entre o artista e o admirador serão cada vez mais difíceis de enxergar. Se sou o produtor da minha banda favorita, eu sou fã ou sou parte do staff? Eu sou manager ou admirador número 1 quando trago a banda para a minha cidade e depois vou para a primeira fila mostrar que tenho todas as letras na ponta língua?

Os fãs não são mais apenas fãs: são agentes fundamentais ao longo de todo o processo. Não são só um detalhe: são o ponto de partida e de chegada da coisa toda. E isso exige mais da cadeia produtiva: os produtores já não são mais apenas intermediadores e empreendedores apaixonados, e agora precisam ser também ouvidores qualificados, menos guiados pelos seus anseios próprios e mais ligados ao que o cenário está dizendo. As bandas, por fim, deixam de ser o ponto de partida da ação. Continuam sendo o alicerce de tudo e o motivo pelo qual as ações acontecem, mas cada vez mais são o ingrediente em um bolo de colaboração do qual o artista não é o confeiteiro: o artista é o recheio principal. Do lado de lá, os utensílios de confeitaria e pâtisserie estão na mão de quem até então só podia esperar, aplaudir e tentar a sorte em uma foto de camarim.