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Quadrado Mágico: um novo selo brasiliense para solidificar uma cena radicalmente nova

O primeiro passo para resolver um problema é perceber que você tem um, mas isso geralmente não é algo fácil de se alcançar. Em Brasília, por exemplo, demorou um tempo para que as pessoas ligadas à cultura se dessem conta de que a produção local, embora fosse assistida por políticas públicas e abraçada por um discurso provinciano de imprensa, estava se distanciando do público e com isso perdendo a sua razão de ser. Miguel Galvão, uma das mentes por trás do Festival PicniK, acredita que foi essa aparente situação confortável dos produtores locais que acabou afastando a plateia: “criamos uma geração especialista em editais que pouco se preocupou em ser atrativa ao público, perdendo com isso o seu fator de sustentabilidade”. Desde que o problema foi notado, diversos dos agentes mais inquietos da cidade se propuseram a remexer a situação. O selo Quadrado Mágico, criado por Miguel em parceria com Gustavo Halfeld e Victor Yrigonyen, é um dos importantes movimentos na busca pelo reavivamento do meio cultural na capital do país.

Quadrado Mágico

Quadrado Mágico: o novo selo brasiliense é o resultado de uma série de movimentações que já vinham acontecendo separadamente, mas que agora se reúnem oficialmente e mais ousadamente sob o mesmo teto.

Fundado em 2017, o Quadrado Mágico é uma junção de pessoas já acostumadas a movimentarem artística e mercadologicamente a produção de Brasília. As expertises reunidas no selo vão da produção musical propriamente dita à organização de grandes, pequenos e médios eventos. Com um público interessado, mas ainda relativamente disperso, e uma boa quantidade de bandas produzindo trabalhos de qualidade, mas sem tanto resultado popular, o selo encontrou um espaço de atuação que vem sendo explorado com sucesso. Para falar sobre o que houve e o que haverá, fomos trocar uma ideia com o próprio Miguel Galvão, que contou sobre os bastidores da ideia original, os trabalhos realizados nestes primeiros meses de selo e as portas que têm se aberto diante do bom trabalho da equipe.

NEW YEAH: hoje existe uma cena grande de selos independentes espalhados pelo Brasil, só que, na lista dos que mais produzem e aparecem, não vemos nomes vindos do Distrito Federal. Para você que vê a região mais de perto, como é de fato a cena dos selos e dos produtores por aí?

MIGUEL GALVÃO: definitivamente, não há ineditismo ou pioneirismo de nossa parte em empreender um selo na cidade, tão pouco estamos ou estaremos sós nas coisas que fazemos e faremos. Por aqui, já tem mais de ano que a Lombra Recs apresenta um trabalho legal, com abordagem ácida e irônica e foco na cena punk, stoner e hardcore. O diferencial fica por conta deles terem uma prensa de vinil daquelas artesanais, o que permite ao selo dos caras manter um ritmo frenético e prestar um serviço interessante à região. Outro trabalho que vale ser lembrado, que surgiu como um selo mas se especializou mais no lance de merchs e eventos, é a Chezz Recs, do ultra versátil e carismático Steve Chezz. Mesmo contando com poucos lançamentos em seu catálogo, a Chezz desenvolve um trabalho muito bacana agitando a cena na cidade, principalmente no escoamento de shows. Nessa pegada, ela já viabilizou eventos com Collen Green (EUA), Radio Moscow (EUA), Crocodiles (EUA) e Dirty Coal Train (POR), além de ter sido minha sócia no Groselha e de ter promovido alguns stages no PicniK. Importante citar também a Sala Fumarte, dos irmãos Breno e Bruno do Bilis Negra. Apesar de não ser um selo propriamente dito, mas um espaço de gravação, ela está por trás de 80% dos lançamentos que acho mais interessantes em Brasília, colaborando ativamente com o desenvolvimento da cena.

NEW YEAH: e qual a lacuna que vocês acreditam que estarão preenchendo dentro dessa movimentação?

MIGUEL GALVÃO: bem, mesmo com todo esse pessoal trabalhando muito, ainda estamos todos longe do satisfatório. Como a distribuição digital atualmente não tem mistério e quase todo artista sequer precisa de um selo para fazer isso, no Quadrado Mágico nosso interesse é o de ajudar a potencializar o trabalho de bandas amigas com as quais interagimos, fazer com que cheguem mais longe e canalizar de maneiras mais eficientes a energia investida nos projetos. Enfim, aportamos nas bandas expertises que desenvolvemos graças à experiencia em outros projetos – marketing, finanças, estratégias de lançamento, gravação com boa relação custo benefício, merchandising etc. Assim, a galera das bandas pode deixar o foco mais voltado para o que faz de melhor, que é a criação. Em paralelo a isso, sempre tivemos a ideia de operar um registro histórico mesmo, de poder juntar numa mesma “casa” artistas com certa afinidade musical para que as gerações seguintes consigam compreender melhor esses turbulentos anos que estamos vivendo.

NEW YEAH: além de tocarem o selo, os três integrantes do Quadrado Mágico possuem seus próprios projetos, inclusive ligados à cena cultural local. Vocês acreditam que, atualmente, para se ter um selo, não se pode ser só o “dono do selo”? Precisa ser produtor de shows, dono de casa, de marca, de festival, entre outras coisas?

Sim. Nada de se fechar em uma definição, ou em um conjunto de definições. A gente busca é o oposto. Queremos ter ao nosso alcance uma palheta de atividades variada e fértil, que possa sempre nos manter em movimento e em contato com pessoas, ideias e projetos interessantes, criativos e inusitados. Uma atuação mais geral como essa que você comento às vezes diminui esforços ou até mesmo torna as coisas maiores! Respirar é preciso para deixar tudo fluir em harmonia e com a devida qualidade.

NEW YEAH: atualmente há bastante visibilidade sobre uma cena musical goiana, que movimenta festivais, selos e bandas com bastante apelo. Apesar de ser mais tradicional na música alternativa, por que Brasília, geograficamente tão próxima da cena goiana, não tem conseguido uma performance igual em âmbito nacional nos últimos tempos?

MIGUEL GALVÃO: olha, ao meu ver, o que era para ter catapultado a nossa cena acabou sendo o nosso calcanhar de aquiles, a grana! Diferentemente de Goiânia, onde a galera tem de se virar em mil e realmente desenvolver uma rede colaborativa eficiente para a cena acontecer, aqui em Brasília nós sempre fomos privilegiados por conta dos recursos estatais/públicos, que criaram um circuito viciado e pouco competitivo. Durante um tempo, até tivemos cases de bom impacto nacional, como o Móveis Coloniais de Acaju, mas o modelo vigente na cidade nos levou para uma posição quase que oposta à goianiense, com pouco público consumidor e lançamentos (em geral) de baixa relevância artística. Entramos num círculo vicioso irônico, com abundância de palcos gigantescos, quase que inexistência de pequenos palcos, desinteresse crescente por parte do público, overdose de “brodagem”, artistas super especializados em editais mas com quase nenhuma mobilização de audiência, ausência de crítica… e a mídia local gritando a todos os cantos que continuamos como a capital do rock e com uma cena expressiva usando cases como o do Scalene, que é um ponto totalmente fora da curva, como miragem.

NEW YEAH: tenho a impressão de que o PicniK (festival alternativo que ocorre desde 2014 e que também funciona como feira de encontro e comércio para pequenos e médios produtores) já era uma tentativa de antídoto contra esse status quo

MIGUEL GALVÃO: sim. Com o PicniK, desde 2014, a gente vem tentando fazer a nossa parte. Não temos intensão de ser “salvadores da pátria”, mas estamos propondo à galera – bandas e público – voltar ao básico, com bom rock e diversão sem pretensão! Palcos pequenos, orçamentos apertados, muita vontade, disposição e riscos! Essa é a nossa realidade e o Quadrado Mágico é um passo adiante nesse processo que o PicniK já havia proposto. Como falei anteriormente, queremos somar aos artistas que apostamos algumas de nossas habilidades que foram muito úteis para consolidar, na cena alternativa, projetos relevantes como o próprio PicniK.

Público na edição de 2014 do PicniK

Público na edição de 2014 do PicniK: a última década da produção cultural em Brasília tem sido marcada por iniciativas que preencham de gente uma cena até então marcada por produtores que muitas vezes conversavam sozinhos.

NEW YEAH: o Quadrado Mágico foi fundado em 2017, e o primeiro lançamento dele foi de uma banda internacional, não necessariamente ligada à Brasília. Como é/será o processo de curadoria do selo?

MIGUEL GALVÃO: o interesse é colocar nossos serviços à disposição, primeiramente, do nosso networking – amigos e pessoas com quem esbarramos nos vários projetos que tocamos – para ajudar a fazer acontecer as coisas por aqui. O foco inicial é potencializar alguns artistas da cena local, mas a ideia é que a atuação seja bem líquida, escorrendo para onde o horizonte nos levar, como aconteceu com Gipsydelica. Assisti eles no Glastonbury, achei o show incrível e único e decidi viabilizar a tour deles aqui no Brasil. Foi muito difícil de vender o show no Brasil porque o material dos caras era quase que inexistente. Como ficaram uns dias a mais na cidade, vi uma boa oportunidade de colocar os caras na Sala Fumarte, sob supervisão do Gustavo, e tentar tirar algum registro decente e inédito disso. E saiu um EP de alta qualidade, do qual ficamos muito orgulhosos, porque é um trabalho que celebra um momento importante que rolou aqui em Brasília, de pessoas aleatórias e teoricamente sem nenhuma probabilidade de vínculo se juntando para fazer acontecer algo mágico. E cabe destacar que vale a pena desconsiderar essas visões preconceituosas e ensebadas que circulam majoritariamente nas redes, porque, acima de tudo, Brasília é sobre esse tipo de mágica, ok? Mas, respondendo à sua pergunta de maneira objetiva, olhando por um espectro musical, procuramos por artistas com abordagens psych, lo-fi, shoegazer, dream-pop, eletronica, experimental, indie, étnica, cigana, etérea… seja lá a forma como isso possa se manifestar.

NEW YEAH: esse trabalho com o Gipsydelica tem um outro ponto interessante, porque nele o Quadrado Mágico acabou gravando, produzindo, distribuindo e divulgando o trabalho. Vocês desejam firmar esse modelo mais “gravadora” (faz tudo) de produção ou esse caso inicial foi uma situação isolada?

MIGUEL GALVÃO: depende de cada caso. Com o Gipsydelica foi assim porque era o que tínhamos na mesa. Já com o Bike e o That Gum U Like, eles já tinham as faixas prontas e nós somamos com a parte de inteligência, divulgação (um salve à nossa Flora!), distribuição e remixes. Como Gustavo esta produzindo uma safra bem interessante de bandas locais, acaba que essa parte da gravação fica bem tangível para a gente.

“Vale a pena desconsiderar essas visões preconceituosas e ensebadas que circulam majoritariamente nas redes, porque, acima de tudo, Brasília é mágica”.

NEW YEAH: aliás, fala mais dessa história dos remixes. Como surgiu a vontade de criar versões remixadas de bandas de rock? Surgiu de alguma demanda ou de alguma vontade artística específica?

MIGUEL GALVÃO: nós gostamos de falar que operamos o selo em duas vertentes. A primeira é “para viajar”, relacionada ao lançamento de trabalhos inéditos de bandas que de certa forma se relacionem conosco. O Gustavo Halfeld, meu sócio nesse braço, é um excelente produtor musical e já vinha registrando uma boa leva de bandas locais, quase sempre na já lendária Sala Fumarte. Conseguimos oferecer esse suporte técnico de gravação, masterização etc. às bandas, mas não descartamos casos onde o material já chega quase que todo pronto, como foi na situação do That Gum U Like, que saiu em dezembro. A segunda vertente do selo é a “para dançar”, onde enxergamos a oportunidade de explorar um tipo de produto não muito desenvolvido aqui no país ainda, que é o lançamento de remixes das bandas como parte das estratégias de divulgação do trabalho, desenvolvimento estético e expansão de público para novas audiências. Isso é até muito comum na Europa e particularmente conheci muitos artistas novos (bandas ou produtores) com este tipo de cruzamento. Nessa ala, nosso sócio é o lendário DJ e produtor paulista Renato Cohen, que cuida dos aspectos técnicos e artísticos dos releases. A gente fez um EP exclusivo de remixes para o Bike, que foi bem elogiado e contou com produtores importantes da cena eletrônica brasileira atual. O That Gum U Like também teve todas as faixas do EP remixadas e estamos preparando duas faixas do Gipsydelica para servirem de lado B para uma eventual prensagem futura em vinil.

NEW YEAH: há mais projetos engatilhados neste sentido?

MIGUEL GALVÃO: sim. Na vinda do Holy Wave, em dezembro, eles gostaram bastante do que apresentamos e estamos agora negociando um álbum de remixes derivado do disco novo deles, que sai agora em março. Isso deve acontecer também com o já clássico disco Cosmos, do My Magical Glowing Lens. Também iniciamos conversas a respeito desse assunto com a Samira, da Winter. Esse campo tem se demonstrado bem fértil para nós.

Gipsydelica

Gipsydelica, grupo britânico que chegou ao Brasil para uma turnê e saiu do país com um EP de inéditas gravado em parceria com o Quadrado Mágico: agilidade e mão na massa para aproveitar as oportunidades marcam as atividades do novo selo brasiliense.

NEW YEAH: vi algumas vezes vocês comentarem sobre um desejo de abranger bandas com uma pegada mais “psicodélica”. Esse é um assunto que nos interessa bastante. O que vocês consideram uma “banda psicodélica” hoje? Acreditam que o termo tenha relação com um tipo de som ou com alguma outra característica além da sonora?

MIGUEL GALVÃO: nós temos usado o termo mais com relação a certas paisagens sonoras que gostamos de cultivar e explorar, mas em casos como o do Bike e do Gipsydelica, isso se estende também ao lifestyle, o que se torna uma fonte a mais de atração. São pessoas criativas, belas e cativantes que optaram por surfar a onda num estilo muito original e orgânico. E nós queremos participar do registro e do desenvolvimento disso, aprendendo bastante com eles no processo, gerando riquezas que não se computam diretamente na conta do banco. Acho que o termo “psicodélico” se tornou algo amplo e difuso mesmo, mas gosto de achar que encontramos esse elemento em bandas que deixam evidente em seus trabalhos que ainda há mágica nessa nossa existência. Essas bandas que permitem que as flutuações do cosmos influenciem ativamente na sua música e na maneira como vivem as suas vidas, se jogando numa (boa) aventura, independentemente do quão nublado e imprevisível o mar esteja.

NEW YEAH: pra terminar, fala mais sobre os projetos futuros de vocês. O que podemos esperar até o final do ano?

MIGUEL GALVÃO: além do que falamos acima, temos novidades já agora em março, com o novo álbum do Bike, que está belíssimo. Se chama Their Shamanic Majesties’ Third Request e está muito sintonizado com uma vibe que queremos, pelo menos para nossos horizontes pessoais. É um disco sereno, maduro e cheio de conteúdo. Estamos ajudando Julito e cia na prensagem de vinil que vai rolar no Reino Unido, onde eles já estão com uma agenda bem movimentada para o segundo semestre. Também estamos pegando junto com um trabalho de assessoria de imprensa com veículos gringos, planejamento materiais e idealizando o show de lançamento aqui em Brasília. Depois do Bike, se tudo correr certo, tem um lançamento da brasiliense Mari Perrelli, que é famosa no circuito de festas eletrônicas 4×4 e que tem um trabalho autoral com abordagem mais R&B e chillwave, na linha do The XX. Daí, para o semestre, tem ainda o álbum de estreia da Oxy, banda de shoegazer também aqui da cidade que tá fazendo um som incrível e o Superquadra, de nosso eterno professor Cláudio Bull, que está com um disco em fase de finalização, que traz um olhar positivo e ácido para essa onda de separações que abalou o país nos últimos meses. Por fim, tô na cabeça do Gustavo, que é um dos donos da marca de roupas super hype Quero Melancia, para a gente lançar ainda neste ano alguma coleção de camisetas vinculada ao Quadrado Mágico, subvertendo a ordem natural moda vs música. Vejo que é aí onde a coisa pode esquentar para nosso lado! Quem viver… viverá?