Uma velha máxima científica aponta que a mistura de duas coisas provavelmente gerará uma terceira coisa com consistência e aparência distintas das observadas nos elementos originais. Isso explica como, por exemplo, o oxigênio e o hidrogênio da água que normalmente bebemos se transformam em soda cáustica (líquido fortemente corrosivo) com a simples adição de sódio (aquele mesmo que está presente no sal de cozinha). O conceito que a química chama de substância composta – substância final com características próprias, mas formada por dois ou mais elementos distintos – é facilmente transportado para a cultura e está ilustrado no disco Learning By Watching, estreia da banda pernambucana Prume. O trabalho traz aos ouvidos do público uma banda formada na efervescência cultural nordestina orquestrada por um experiente produtor carioca. O passeio da produção por dois pontos brasileiros geograficamente distantes, no entanto, resulta em um som que encanta sem conseguir se localizar certeiramente no Mapa-múndi.

Antes de prosseguir, que tal dar um PLAY?

Faixas 01. 606 on fire / 02. Other way to pray feat. Wink / 03. The life i seek / 04. Non Planned Holiday / 05. My Next Love / 06. How U? / 07. Nowadays feat. Wink / 08. Conclusion / 09. The Trueman Show / 10. The Awakened Life /
Banda Igor Bruno, Cadu Bussad e Felipe Wolfenson Feat. Ryan Wink, Twanny, Luccas Maia, Thiago Rad, Caio Coelho, Thito Borba, Pedro Muniz, Lourdes Maia e Theo Hoover.
Técnica Gravado no Estúdio Carranca, em Recife. Produção e mixagem: Diogo Strausz. Masterização: Carlos Freitas e Nathalia Herrera (Classic Master). Engenharia de som: Bruno Lins, do Estúdio Carranca.

Ainda que não possa ser localizado com precisão, Learning By Watching pode ser apontando seguramente como um disco pop. Isso fica claro na biblioteca de recursos acionada pela banda e nas linguagens sonoras utilizadas pelo produtor Diogo Strausz. A mão do produtor no resultado final, aliás, faz dele praticamente um parceiro de composição nas faixas. Nem uma combustão forçada, daquelas utilizadas para separar água e álcool, separaria a banda de seu produtor neste trabalho, tamanha a química.

Quando falamos em música pop, logo imaginamos o som que as rádios populares comportam: sua ação retilínea e sua previsibilidade cativante em uma dinâmica musical que permite imaginar o final da música quando ela apenas começou. Essa é a lógica quebrada por Learning By Watching. Nele, a linguagem pop – seus beats, suas estruturas, seus refrãos – aparece adulterada, com o arredondamento comum do gênero dando lugar a quinas pontiagudas, irregulares e desconfortantes, capazes de prender a atenção do início ao fim, ao invés de causar o relaxamento comum que se tem ao ouvir músicas mais comerciais.

Na irregularidade proposital do disco, que busca uma identidade, mas que permite se perder entre uma faixa e outra em prol da própria liberdade criativa, duas faixas acabam chamando bastante atenção.

"Conclusion" é peculiar pela aparição da cantora Twanny, que traz uma voz feminina quebrando a predominância do timbre grave presente até ali. O título da canção, conclusivo, explica nas entrelinhas que a identidade apresentada ao longo do trabalho, embora pareça mutante e andante, é resultado de um processo de imersão, inspiração e transpiração que sempre perseguiu justamente este resultado. A faixa também apresenta ao ouvinte um tom melancólico pouco comum na música pop atual, mostrando que a roupagem popular aqui é só um meio para se contar histórias que não necessariamente são comuns.

"The Life I Seek", que não à toa foi o primeiro single do trabalho, aparece com destaque ainda maior por uma série de pontos. Primeiro, é a música comercialmente mais viável do trabalho, com sua levada alegre, sua instrumental mais orgânica e seu arranjo direto. A graça da faixa, no entanto, vai muito além disso e está localizada na parte final da canção, quando um rap cantado em português toma a música e mostra muita coisa. Talvez até mais do que os autores tenham desejado mostrar.

Prume - Learning By Watching

A primeira coisa que salta aos ouvidos é o sotaque nordestino do cantor, que na língua inglesa não era notado tão claramente. Quando um pequeno trecho em língua local surge como alento, a barreira de bits abre a guarda, dando espaço à uma banda que finalmente entrega sua origem por alguns segundos. Entre as frases que surgem no emaranhado de palavras latinas, a frase “a gente é pequeno para o tamanho do mundo” cai no colo de quem ouve lembrando que tudo que vem do homem é um ponto pequeno em um mapa enorme, do qual nunca entenderemos o real tamanho. E a música também é assim, por mais mundial que ela pareça ser quando tantos talentos de geografia distinta se misturam quimicamente nos tubos de ensaio da vida.

Acompanhe mais novidades sobre o disco e a banda pela página oficial da Prume no Facebook.

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