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tropicacofonoia

Plunderfonia à brasileira

Por mais incrível que pareça, alguém louco o bastante (e com tempo de sobra) encarou a proeza de picotar e remixar os clássicos do cancioneiro nacional em um experimento semelhante aos plunderphonics de John Oswald. O projeto, excentricamente batizado como Tropicacofonóia, em seu primeiro volume disseca de Carlos Gomes a Gilberto Gil, passando por Gal Costa, Caetano, João Gilberto e até Roberto Carlos.

Tropicacofonóia

A capa do álbum: arte mistura imagens dos discos Tropicália e Gilberto Gil, lançados em 1968.

Logo na primeira faixa, a introdução da ópera “O Guarani” é apresentada em três velocidades diferentes, simultaneamente, criando dissonâncias assustadoras. A citação, claro, remete ao programa A Voz do Brasil, onde a música funciona como tema de abertura.

Em “eai”, o falso-começo de “Não Vá Se Perder Por Aí”, dos ainda jovens Mutantes, é extendido com a inclusão de outras vozes em coro, não passando nunca da expectativa do início da canção. É curioso notar como, desde o invento do fonograma, um erro ou outtake pode tornar-se célebre e integrante de uma composição.

Em “merica”, uma versão dub de “Soy Loco Por Ti América”, de Caetano Veloso, roda em baixa velocidade, tendo como foco o groove, a batida e a instrumentação. Em vários momentos, esse é o maior mérito das remixagens: iluminar detalhes desapercebidos nas gravações originais.

Em “euvou”, o clássico “Maracangalha”, de Caymmi, é transfigurado em uma tremenda alucinação rítmica, por meio de delays e ecos sobrepostos.

O destaque maior, na nossa opinião, fica para a faixa de encerramento. Nela, a canção “Back in Bahia”, de Gil, tem a sua velocidade reduzida até tornar-se tão irreconhecível quanto deslumbrante. A voz de Gil soa, aqui, quase sobrenatural, como se ele fosse um monge misterioso em algum ritual místico, nos guiando até os limites da definição de sampling.

Na faixa mais longa do álbum, um breve momento – o início da canção original – é extendido por mais de quatro minutos, numa prova de que é possível ouvir os clássicos com um novo ouvido. Um excelente desfecho para o primeiro passo do curioso projeto, do qual esperamos outros volumes no futuro.

chupa-manga-recordsTexto publicado originalmente na edição #2 do chupa manga zine, que pode ser adquirido aqui ou lido na íntegra gratuitamente aqui.