Compre online

Browse By

Camelô em Nova Iorque

Pensando pelo avesso: a pirataria não prejudica os lucros da indústria formal

As discussões sobre originalidade, direito autoral e pirataria não são tão novas quanto parecem. Muito antes da internet de banda larga possibilitar a distribuição de arquivos em mp3 colocando as gravadoras em maus lençóis, artistas consagrados já se plagiavam mutuamente durante o período renascentista europeu, dando origem a discussões públicas enormes muito parecidas com as que vemos esquentarem o noticiário em pleno século XXI. Os argumentos das vítimas da pirataria seguem sendo mais ou menos os mesmos desde aquela época: a cópia não autorizada impede que o criador original usufrua plenamente da sua criação e a pirataria, como um todo, acaba roubando lucros do mercado formal, que paga impostos e gera empregos. Argumentos interessantes em primeira abordagem, mas que caem um a um à medida que novas notícias sobre o tema são divulgadas por aí.

piratas

O famoso triturador de pirataria está passando pela sua segunda-feira: imaginem quanta música legal esse veículo bonitinho não esmagou nesse dia.

Na semana passada, uma postagem no blog da parlamentar alemã Julia Reda reacendeu as discussões sobre os malefícios da pirataria à indústria do entretenimento e aos criadores artísticos em geral. Segundo relatou ela, a Comissão Europeia teria contratado uma agência especializada em pesquisas mercadológicas para comprovar em números o rombo que a distribuição não autorizada de materiais teria causado à produção cultural recente. O resultado do estudo concluído em 2015 – que custou à Comissão mais da € 360.000 -, no entanto,  nunca foi divulgado. Julia foi atrás para descobrir as razões do engavetamento do estudo e se deparou com o que já esperava encontrar: as conclusões apresentadas pela agência de pesquisa afirmavam que a pirataria era inofensiva aos cofres da indústria.

A parlamentar ainda comentou rapidamente que, em um grande número de casos, a pirataria acaba sendo a porta de entrada para o consumo formal, algo que bate com outras informações disponíveis a partir de uma rápida pesquisa no Google. Paulo Coelho, por exemplo, um dos escritores mais vendidos do mundo, certa vez comentou o quanto a pirataria do seu livro “O Alquimista” foi importante para que a obra se tornasse conhecida e amplamente comercializada pelo mundo. E ele vai além: para consumir um artista, você tem que comprar a sua ideia antes, e não há forma melhor de conhecer uma ideia do que tendo um contato gratuito com ela antes.

Semi Metalic Disc: o formato que se tornou obsoleto algumas semanas depois de ser anunciado como novidade

A posição do escritor brasileiro era baseada na sua experiência de vida, mas bem que poderia estar embasada em estudos científicos que dizem exatamente a mesma coisa. A agência australiana TNS afirmou em 2016 que as pessoas que pagam por 100% do conteúdo que consomem acabam por consumir menos e, no longo prazo, acabam sendo menos rentáveis à indústria do entretenimento. Por outro lado, aqueles consumidores que optam pela pirataria acabam tendo acesso a um número muito maior de materiais e acabam sendo incitados à compra com maior contundência. Já a agência sueca IIS descobriu uma relação curiosa entre piratas e consumidores formais: segundo apontou a pesquisa publicada no ano passado, usuários adeptos da pirataria digital formam a ampla maioria dos assinantes de serviços de streaming como Netflix e Spotify. O site TorrentFreak, ciente desta última pesquisa, cravou: a eliminação total do acesso livre ao conteúdo (desejo da indústria fonográfica) poderia levar ao esvaziamento ou pelo menos à estagnação do setor de streaming por assinatura, e não o contrário.

Camelô em Nova Iorque

Um camelô prepara o seu local de trabalho em uma manhã de Nova Iorque (foto de Spencer Platt). Quem gera mais empregos: a indústria ou a pirataria?

Neil Young, um dos maiores nomes da história da música norte-americana, disse certa vez ao Telegraph que via a pirataria como o novo rádio. Neil lembrou que a disponibilização de conteúdo fonográfico através de ondas sonoras de longo alcance, proposta pelas rádios pioneiras na primeira metade do século XX, também foi na época vítima do moralismo da indústria, que acreditava que as pessoas comprariam menos discos a partir do momento em que tivessem acesso à música gratuita. A história provou o contrário: à medida em que rádio e indústria se solidificavam, os artistas que engordavam a programação das rádios eram exatamente aqueles que mais vinham a vender discos nas lojas físicas depois, pois eram aqueles que se tornavam mais conhecidos junto ao grande público. Uma relação óbvia que deu, inclusive, origem à prática do jabá.

Mas e os estudos que afirmam de pés juntos que a pirataria gera prejuízos ao mercado e impede a geração de empregos? Estes não são poucos, e também merecem ser destrinchados. A Business Software Alliance (BSA) afirmou em 2012 que, só no primeiro semestre de 2011, mais de 2,62 bilhões de reais teriam escorrido pelo ralo por conta do uso de softwares ilegais no Brasil. O estudo, no entanto, não mencionou quantos profissionais movimentaram o mercado naquele mesmo período utilizando esses mesmos softwares ilegais. Quantos milhões de reais teriam sido gerados por agências de publicidade que operam com Photoshop pirata? Quantos empreendedores teriam gerado emprego à sua região contando com Windows pirata em seus computadores? E você aí, que gera audiência ao meu site e mantém o meu emprego, tem Windows original? Imagine que legal uma pesquisa que mostrasse números sobre como o software pirata movimenta positivamente a economia. Certamente você não verá isso tão facilmente por aí.

Voltando à arte, Will Page, ex-economista-chefe da maior sociedade de direitos autorais do Reino Unido, comentou em uma entrevista que a pirataria geralmente tende a ter como alvo o artista de massa, aquele cantor/ator/diretor/produtor que já lucra suficientemente bem com a sua criação. Levando Will a sério, e considerando que o mercado informal emprega milhões de pessoas ao redor do mundo, a pirataria poderia ser vista como uma técnica de distribuição de renda, que se empenha em a) identificar os artistas que já lucraram o bastante com a sua criação; b) tomar emprestada uma parte da obra sem que o artista morra de fome; c) revender essa obra a preços populares gerando uma cadeia de novos empregos na informalidade e d) disponibilizar arte à população que não tem a possibilidade de consumi-la da maneira tradicional.

Todo camelô e todo torrent é um pouco Robin Hood. O resto, diria Paulo Coelho, é ganância ou ignorância pura.