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Os melhores singles e EPs de novembro/dezembro

O final do ano é uma coisa bastante louca. Quando olhamos o calendário, lá se foram vários dias, semanas e meses, o que faz com que novembro e dezembro pareçam uma única coisa para quem está mergulhado na correria. Em razão desse fenômeno que confunde a nossa noção de tempo, a lista dos melhores singles e EPs de novembro acabou não ficando pronta na data certa e foi adiada para sair junto com a lista de dezembro. Tudo junto, como os próprios dois meses aparentam sempre estar. Antes de seguir, atente para uma mudança no regulamento: como a lista aborda um período de tempo maior do que de costume, alongamos um pouco a tradicional relação com apenas dez itens. A seguir, segue a lista com os 14 melhores singles e EPs que chegaram na nossa caixa de entrada ao longo dos dois meses derradeiros de 2016.

EP Papisa (Papisa)

O selo PWR Records vem fazendo um trabalho muito legal de catalogar e fomentar a música independente feita por mulheres no Brasil. A ideia surgiu de uma lista no Google Docs, evoluiu com a organização coletiva e acabou virando um empreendimento colaborativo que tem a arte e a sororidade em seu embrião. O EP de estreia da Papisa, projeto solo da cantora e multi-instrumentista Rita Oliva, é um dos primeiros lançamentos do selo e se destaca tanto pela sonoridade lo-fi melodiosa quanto pelo clima místico que ronda a obra, permeando desde o nome do projeto até as linhas e entrelinhas de cada canção.

Longo Agosto – EP (Longo Agosto)

A Longo Agosto tem a sua base de atuação em Porto Alegre e está envolvida no emaranhado de influências que ronda o sul do Brasil e a sua subtropicalidade característica. O EP homônimo lançado pelo trio em novembro é uma oração ao inverno, bebe da música platina, flerta com a milonga e é mixado como se fosse um trabalho de post-rock (sim, bem inusitado). É o primeiro trabalho oficial de uma banda que vale a pena acompanhar daqui em diante para ver no que vai dar.

“Small Pieces of Cruel Mirrors” (Polvö)

Seguindo no sul para aproveitar a viagem – mas fugindo quase que completamente da sonoridade descrita no item anterior-, chegamos ao Polvö, projeto do guitarrista gaúcho Eduardo Luersen apresentado a nós pelo selo Sinewave. No single, lançado também em novembro, a ideia master vai de encontro à raiz do post-rock mais clássico, tendo a experimentação como norte, a guitarra como condutora e as levadas progressivas como retórica constante. O resultado é um trabalho cheio de atmosferas, quase espiritual, repleto de camadas e colagens que se unem em uma sonoridade agradável e massageadora dos ouvidos.

“Você Já Está Aqui” (Alf Sá)

Alf Sá já rodou o underground e o mainstream brasileiros desde que emitiu os primeiros ruídos de maior alcance no final da década de 90. Integrou o Rumbora (um dos grandes grupos brasilienses da era pós-Raimundos), passou por grupos como Supergalo e Câmbio Negro e decidiu, enfim, empreender a sua carreira solo. Desde 2013, ele vem lançando singles bastante elogiados que criaram uma boa expectativa sobre o primeiro álbum completo do artista. Pelo que informa a gravadora Hearts Bleed Blue, esse disco virá finalmente em 2017. Antes dele, o artista divulgou mais um single, “Você Já Está Aqui”, que bebe mais forte na black music do que os lançamentos anteriores, dando a dica de que o disco deverá ser bastante diversificado no que diz respeito a formatos e influências, e deixando claro que o talento de Alf para criar melodias chicletes segue firme e forte mesmo com o passar dos anos.

“Muda” (Marcelo Perdido)

Em 24 de novembro, recebemos na nossa caixa de entrada o single “Muda”, aperitivo do que ainda viria a ser o segundo disco do cantautor Marcelo Perdido, filho de Lisboa erradicado no Rio de Janeiro. Comparando com o trabalho anterior do artista, de 2014, há algumas mudanças. O sotaque está cada vez mais carioca e menos português, embora a melancolia lusa siga sendo um ponto marcante. Vale notar também como o artista deu continuidade à sua proposta de trabalhar com arranjos enxutos, mas ao mesmo tempo evoluiu experimentando saídas e formas que vão bem além do acústico cru que o caracterizava há dois anos. “Muda” retrata bem essa transição: a música nasce crua, cresce ao longo dos seus pouco mais de três minutos, se desenrola sobre as cordas e vai ganhando a companhia de complementos que ajudam a ressaltar o talento melódico que Marcelo sempre teve como característica maior.

“Ataque ao Sobrado” (Grandfúria)

Érico Veríssimo já era um escritor de 44 anos quando lançou O Continente, primeiro volume da série O Tempo e o Vento, que narra através de romances históricos toda a fase de formação cultural e étnica do Rio Grande do Sul. Ao todo, o autor dedicou à série mais de 12 anos de sua vida e ela acabou se transformando na sua obra-prima. Vendeu milhões de cópias, virou filme com alto orçamento, inspirou uma mini-série daquelas da Globo que têm o Thiago Lacerda no elenco, mas nunca havia sido tema de um disco conceitual. A banda caxiense Grandfúria, uma das que melhor uniram o regionalismo gaúcho às estéticas musicais contemporâneas, está trabalhando para reparar esse erro histórico. O single “Ataque ao Sobrado”, lançado em novembro, é o abre alas para um disco que parte da obra de Érico Veríssimo, toma a licença poética pela mão e vai longe tendo como fundo a história gaúcha durante o período imperial.

EP Bruce Lee (Pin Ups)

Por falar em história, deixa eu contar uma passagem jurássica pra vocês. Antes de haver celular com 4G, havia o computador de mesa que se conectava a uma banda larga de velocidade bem suspeita. Antes dessa banda larga de velocidade suspeita, havia a internet discada e a sua instabilidade testadora da nossa paciência – fazer login no Orkut podia demorar horas, e isso não é um exagero. Antes da internet discada, por fim, não havia qualquer internet. Havia o papel, as rádios FM, uma MTV sempre ineficiente para o tamanho do país e o império das grandes gravadoras. O grupo paulista Pin Ups fazia música independente nesse período pré-histórico, ajudando a construir uma boa parte do que hoje conhecemos como “música alternativa brasileira”. O grupo lutou por longos anos, enfrentou hiatos, voltou e, agora em dezembro, teve os seus trabalhos clássicos relançados pelo selo midsummer madness. Entre os relançamentos, está o EP Bruce Lee. Último lançamento do grupo, publicado originalmente em 1999, o EP mostra uma banda amadurecida e calejada pelos anos de estrada, driblando as dificuldades de recursos características do período e impondo as suas guitarras que talvez nunca tenham chegado ao grande público, mas que mesmo assim ajudaram a mudar para sempre a história da música no país.

“A Cada Dia” (Gloria)

Por falar em banda histórica, dezembro também foi o mês em que recebemos o single novo da Gloria, uma das mais importantes bandas do cenário hardcore brasileiro. O grupo caminha para lançar agora o seu quinto disco, com nova formação e um retorno definitivo às raízes menos comerciais que marcaram o início da banda e que saíram um pouco de cena no período em que ela passou pelas mãos das grandes gravadoras. Pouco se sabe ainda sobre o disco novo que a banda promete para os próximos meses, mas o single já é uma boa notícia para os fãs mais antigos, com peso, divisões e letra que dificilmente seriam festejados por apreciadores mais superficiais do gênero.

EP#02 (Orchestra Binária)

Quem também reapareceu foi a carioca Orchestra Binária, após quatro anos do seu EP de estreia. O release enviado pela assessoria de imprensa assusta um pouco (“a banda permanece buscando uma fusão entre o samba-rock de Jorge Ben, o funk carioca da periferia e as influências do Radiohead (…) há também referência ao Afrobeat e às guitarras de Sonic Youth”), mas a verdade é que o som do grupo evoluiu bastante e encontrou sua casa sob as asas do eletro-samba. O som lembra bastante os trabalhos da geração eletrônica filha do manguebeat e tem nas suas arestas intencionalmente mal aparadas o grande trunfo do seu samba difícil de dançar.

EP ex&etc (Laura Bastos)

Este EP é a união entre o doce talento de iniciante da cantora e compositora Laura Bastos com a experiência do produtor Vini Albernaz, um dos mais comentados do meio independente nos últimos anos. E a parceria funciona muito bem, por mais que as duas partes estejam em momentos bem distintos da carreira. Vini, como de costume, conseguiu formatar bem a sonoridade do trabalho, dando unidade a composições que em sua essência são muito diferentes entre si. E Laura, mesmo chegando agora, se impõe como quem conhece bem o seu próprio potencial, mostrando uma personalidade incomum para um trabalho de estreia. Talvez a qualidade do EP se deva muito à natureza das canções registradas: algumas delas, compostas há anos, tiveram o tempo necessário para serem entendidas e amadurecidas no inconsciente da cantora antes de serem expostas em um dos melhores EPs do segundo semestre.

“Oração 3” (Luiza Brina e o Liquidificador)

Seguimos falando de talento feminino, mas agora saindo da sonoridade urbana e timbrada, entrando na nostalgia acústica e semi-rural do single “Oração 3”. A canção, que ganhou o país em dezembro e é o primeiro sinal do disco que deve dar as caras em 2017, bebe na música folk, tem voltas que lembram a sonoridade caipira e possui melodias não muito distantes daquilo que o Clube da Esquina definiu como sendo a música mineira contemporânea. Uma combinação que escutada é menos complexa do que escrita: o som vem, toca fundo, vai e deixa a gente ali parado com o ouvido querendo mais.

A Coisa Toda EP (A Coisa Toda)

Do Rio de Janeiro, vieram as quatro músicas que compõem o EP de estreia do grupo A Coisa Toda. Há influência de Red Hot Chilli Peppers e Supertramp, entre outros, e deságua em um som litorâneo, surf music em slow. Me chamou a atenção em especial a canção “Domingo”, cujo início é bem semelhante à “Every Little Thing She Does Is Magic” (The Police) e o andamento seguinte parece coisa tocada pelo Sublime em sua melhor época. Temos o verão inteiro pela frente. Talvez em alguns dos próximos dias esse EP possa ser para você uma companhia interessante.

“Banho de Cerveja” (Império da Lã)

Não sou do tipo que costuma reclamar de coisas irreversíveis. Não reclamo do calor porque isso não diminui a temperatura. Não reclamo que anoiteceu porque isso não traz o sol de volta. Também não costumo reclamar do ano, dizendo que ele passou rápido demais, que foi muito trágico e tudo aquilo o que a gente tanto ouve por aí. Mas a verdade é que 2016 foi um ano de tensão acima da média e a virada para 2017 tem os seus motivos para ter sido tão aguardada. Talvez o novo ano nos ajude a virar essa página estranha. Não que janeiro tenha algo a mais do que dezembro, mas esses ciclos estabelecidos pelo homem exercem um efeito estranho sobre a nossa autoestima e sobre o ânimo com o qual encaramos os dias. Mais do que nunca precisamos de ânimo para renascer e o verão há de nos ajudar com isso, com os seus dias longos e dispersos onde até o porre adquire valor simbólico. Que ele seja animado e festivo como o single novo do supergrupo Império da Lã – meio samba, meio marchinha, meio axé – e que a alma lavada nos dê energia para desacinzentar os meses seguintes que virão.