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Os melhores singles e EPs de março e abril

Com atraso, mas cá estamos. Uma boa dose de e-mails chegou à nossa caixa de entrada desde a última coletânea de singles e EPs que publicamos no já distante mês de fevereiro. Desde lá, apesar do fluxo de recebimentos, a lista de melhores do mês sofreu um hiato circunstancial em março por conta de outras pautas que absorveram a vida do editor responsável. Como forma de compensar, hoje publicamos uma coletânea um pouco maior, com 14 títulos que merecem atenção e que ganharam o mundo durante o terceiro e o quarto mês dessa aventura louca que está sendo 2017.

“A Chapa É Quente” (Emicida e Rael)

O Emicida há algum tempo faz parte das coisas mais interessantes a se observar na música brasileira, tanto pela habilidade dele em formatar negócios a partir do que canta quanto pela precisão do canto em si. No registro enviado para nós no dia 28 de abril, o single “A Chapa É Quente”, o rapper aparece ao lado de Rael em uma faixa que é um mosaico periférico interessante, misturando discurso à la Cidade de Deus, andamento rap e leve flerte com batidas de funk carioca. Segundo constava no e-mail que passou por aqui, o registro deve integrar um álbum a ser publicado ao longo do mês de maio.

EP Vacilant (Vacilant)

Já o Yuri Costa nos escreveu no mês passado contando sobre os seus últimos “estudos rítmicos”. O músico cearense teria parado para ouvir artistas orgânicos que tentam soar com estética próxima da eletrônica, tentando aprender com eles uma dinâmica nova que pudesse canalizar em sua obra depois. O resultado desse estudo foi o EP homônimo de seu projeto Vacilant, onde se encontra a tal pesquisa instrumental que o autor comenta, e de onde também é possível extrair formas do soul, trejeitos do free jazz, timbres do post rock e sobretudo uma malha eletrônica bastante eficaz no papel de oferecer unidade a tanta coisa reunida no mesmo lugar.

SCCM EP (Lucas Romero)

Lucas Romero, compositor e instrumentista com base em São Paulo, falou conosco pela primeira vez no final do ano passado, enquanto finalizávamos a nossa matéria sobre músicos que possuem bandas sozinhos. Embora o texto final não tenha incluído as respostas dele por uma questão de cronograma/economia de espaço, conhecemos ali a história de um cara que não vive da composição, mas que certamente não viveria sem ela. A relação do Lucas com as canções que surgem dele e com o estúdio que ele transformou em extensão de si estão agora em seu novo EP, SCCM, onde ele dá continuidade ao sonho de ser uma guitar band de um homem só.

“Raggavruumm” (Vruumm)

Embora o groove fosse uma especialidade da Vruumm desde a sua estreia em disco, em 2015, todo embalo do que fora registrado pela banda naquele trabalho colava na trilha da black music, diferente do dub/lounge-reggae do single “Raggavruumm”, publicado no último abril como aperitivo para o novo disco que está por vir. E o grupo do saxofonista Anderson Quevedo entra em terreno novo com bastante propriedade, dominando o ambiente rasta como se vivesse neles há tempos e sem deixar de lado os improvisos jazzísticos que são o grande atrativo da Vruumm desde que a ouvimos pela primeira vez.

Surfadelic Dreams EP (Paquetá)

Pra não dizer que não falei do sul, o grupo gaúcho Paquetá apareceu na nossa caixa de entrada se propondo a incorporar a herança da surf music sem necessariamente ser adepta do estilo. O som do grupo, de fato, passeia por algo próximo à surf music mais nervosa, flertando também com o punk 77 e dando espaço para psicodelia e cirúrgicas pitadas de imprevisibilidade. Da turma da praia, o grupo herdou uma virtuose minimalista de rápida velocidade. Da turma do CBGB, veio a preferência por instrumentais cruas e a ancoragem da bateria 4×4. O EP é o primeiro registro da banda, que já nasce digna de alguns minutos da sua quarta-feira.

Marina Goes To Moon (Juna)

Uma paisagem de overdrives, duetos suspirantes à frente de paredes instrumentais de dream pop e um bom conjunto de melodias suaves em tempos tão conturbados e cinzas. O EP de estreia do Juna, duo do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul, tem 22 minutos de barulho relaxante, em um daqueles raros casos em que o ruído ajuda o ouvido a pausar e operar o seu tão necessário chill out em meio ao frenesi.

EP Chão de Terra (Victor Mus)

Outro trabalho de estreia muito interessante que chegou ao longo da última sub-temporada foi o EP de estreia do carioca Victor Mus. Apesar de sermos apresentados a ele só agora, o currículo do rapaz já reúne aparições em grandes eventos no centro do país  e participação na coletânea Garimpo do site Brasileiríssimos.  Como ele conseguiu isso tudo sem ter ao menos um EP? Ainda não descobrimos, mas, de toda forma, cá está o primeiro trabalho mais completo do menino, com swing orgânico, letra percussiva que bate no ouvido como atabaque e voz algo dramática típica do que a nova MPB vem produzindo pelas bandas da Cidade Maravilhosa. Se você acompanha aquela cena, mesmo que de longe, adicione este novo nome no seu radar.

Interlúcido (Cafe Republica)

Bom, o Cafe Republica… não é todo dia que uma banda habituada a passear pelas múltiplas nuances do rock alternativo inventa de se retribalizar pisando descalça numa africanização sonora, não é mesmo? Desculpe pela frase longa e pela metáfora mcluhaniana. É que, neste caso, só a audácia já merece a citação. E, dos vocais primais em “Xa Manhntro Vhan” à nomenclatura em português das faixas, tudo é novo e promissor no trabalho experimental que a Cafe publicou no finalzinho de março. Não é brilhante, e talvez nem desejasse ser, mas é um aviso de que coisa boa está por vir na trajetória de um grupo que já havia se encontrado numa praia e que agora arrisca guinar em outríssima direção.

“Se Você Nadar” (Arnaldo Antunes)

Já notaram que essa lista está cheia de nomes instrumentais? Cada vez mais grupos que abrem mão das palavras andam chegando até nós. Isso pode ser resultado de uma vontade de explorar mais os sons do que a fala, algo que faz sentido em um contexto de hiper informação. Pode também ser o amadurecimento tardio da música instrumental brasileira, enfim livre para voar agora que não depende mais do crivo das grandes gravadoras para chegar a um número OK de ouvintes. Na contra-corrente, Arnaldo Antunes segue falando para caramba e falando cada vez melhor. A faixa “Se Você Nadar”, enviada para nós no dia de Tiradentes, foi a primeira track do seu novo DVD, Ao Vivo em Lisboa, lançado agora na primeira quinzena de maio. O trabalho conta com músicas inéditas e com outras velhas conhecidas, daquelas que até você que não gosta dele tanto quanto eu sabe cantar de trás para frente. Privilégio que só consegue quem passa três décadas lançando coisas em alto nível.

Wasted Time (Unbelievable Things)

O grupo paranaense Unbelievable Things, que nos enviou o seu EP Wasted Time em março, atualiza o lo-fi pisando em influências básicas do gênero e aceitando a interferência de novos nomes, em um caldeirão onde Amandinho e Pavement contracenam de forma anacrônica. O destaque do grupo em seu segundo EP, no entanto, é a tentativa de inserir dentro da estética lo-fi o idioma português, dando uma cara tupiniquim a algo que estamos bastante acostumados a ver sendo (bem) feito em língua inglesa. Tanto na mistura das referências quanto na extrapolação das fórmulas, o grupo demonstra uma coragem criativa rara que pode ser muito bem aproveitada em um possível disco de estreia.

“Do Céu ao Mar” (Riviera)

O rock no início dos anos 2000 fez uma série de movimentos sobre a linha tênue entre coragem da popularização e o erro da pasteurização, muitas vezes desabando para o quintal da obediência ao mercado (e alguns nomes nunca mais conseguiram sair de lá). No Brasil, a herança desse tempo de aventuras no limite é a leva de bandas que aprenderam a inserir o peso dentro de formatos musicais de largo alcance. A banda Riviera carrega essa bandeira, mesmo que nunca tenha pensado a respeito. Depois de um início mais pop com o disco Somos Estações, o grupo retorna um ano depois com pedais duplos e vocais de nu metal no single “Do Céu ao Mar”, gravado pelo projeto Converse Rubber Tracks. A faixa, que a banda avisa ser o embrião de um EP com gravação em curso,  tem a participação de André Ribeiro, conhecido na cena paulista como vocalista do grupo Alaska.

“Sideral” (My Magical Glowing Lens)

Outra banda que achou conveniente preparar o público com um single de abre alas foi a capixaba My Magical Glowing Lens, que com o single “Sideral” antecipa o disco Cosmos, previsto para este mês. Segundo Gabriela Deptulski, mentora do grupo, a faixa “traz pensamentos e sentimentos sobre a ligação entre mente e espaço sideral e sobre transformação e libertação do eu/ego mediante a ideia de infinito”. A viagem cósmico-socrática de seu depoimento está refletida no ar lisérgico e transcendental do canto e bem aludida na bela arte da capa. O single é o primeiro material da banda a ser publicado nos últimos quatro anos e apresenta um som mais cheio e multifacetado do que a estreia no EP homônimo de 2013.

EP Beijo Burocrático (Spinosa)

E o Brasil é mesmo um cenário de contrastes bem incômodos quando falamos de produção musical. Enquanto a turma que aprendeu com o rádio muitas vezes pecou pela cópia descarada e pela superficialidade de não entender as próprias referências, a turma que se aprofundou no estudo da música muitas vezes pecou pelo isolamento e pela produção de imagens estéticas indecifráveis e elitizadas, quase impossíveis de serem absorvidas por uma plateia leiga. Spinosa, bacharel em composição e professor da Escola do Auditório do Ibirapuera, felizmente fez bem a tarefa de se descolar desse segundo grupo, mesmo tendo conhecimento para se afundar no estetiquês. Seu EP de estreia, pelo contrário, flerta com o popularesco na busca por formatos palatáveis e se utiliza da erudição apenas como ferramenta de requinte, quando passeia pelo blues e pelo folk com segurança, sem abandonar a abordagem kitsch que permeia a sua obra como um todo.

“Folia de Reis” (Carlos Maltz)

Carlos Maltz é um dos coadjuvantes mais interessantes daquela geração que dominou o rock brasileiro no final dos anos 80, duelou com a música eletrônica nos 90 e chegou com vigor ao início dos anos 2000, enquanto a própria música eletrônica de pista já agonizava depois do seu sucesso comercial passageiro. Nesse período, Maltz foi baterista do Engenheiros do Hawaii em seus discos mais importantes, saindo da banda logo em seguida e voltando como vocalista em participação especial no Acústico MTV, em 2004. Desde que saiu da banda, Carlos desenvolve uma carreira solo onde expõe com mais liberdade (e menos visibilidade) o ar dramático de sua interpretação e a agilidade de letras bastante cinematográficas, muito influenciadas pelas próprias letras de Humberto Gessinger. E o bardo das sombras retornou em abril, com uma versão maltziana de “Folia de Reis”, de Baiano e Os Novos Caetanos.  A faixa tem a participação de Humberto (sim), porque, mesmo com o DNA aflorando, Carlos Maltz é bem ciente dos seus karmas. Surfemos nisso tudo, então.