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Os melhores singles e EPs de maio

Uma vez me disseram que as temperaturas frias fazem com que as pessoas fiquem mais introspectivas e esquisitas. Como acontece em toda primeira quinzena, a nossa coluna mensal traz aqui os melhores singles e EPs lançados no mês passado. Mas aviso desde já que escrevo de Porto Alegre, uma terra que possui inverno, e que talvez por isso a seleção deste mês seja a mais introspectiva e esquisita que já fiz no ano. Coloca o teu fone aí e vem ouvir as melhores e mais tensas/estranhas coisas que eu escutei no mês de maio.

EP (Vathlo)

No mês passado, Filipe e Kaue (dois ex-integrantes do grupo Supercordas) colocaram no mundo o EP de estreia do projeto Vathlo. O trabalho, repleto de ecos, sintetizadores, ambiências e faixas desestruturadas é uma viagem interessante para ouvidos que gostam de ser perder na polifonia do caos. O trabalho problematiza, entre outras coisas, o conceito de canção, apresentando faixas que muitas vezes abrem mão de andamento, notas nítidas, melodia e até do próprio ritmo. Aqui, a estética não permeia a arte: a arte é a estética em si.

“Mestre Jonas” (The Bombers)

Lembra que eu havia falado de introspecção? Pois a banda paulista The Bombers resolveu lançar em maio a regravação de um clássico da música nacional que fala justamente sobre isso. “Mestre Jonas” (lançada originalmente em 1973 pelo trio Sá, Rodrix e Guarabyra) conta a história de um homem que foi engolido por uma baleia e que, por vontade própria, decidiu ficar por lá mesmo vivendo sozinho. Na versão do grupo paulista, a letra hiperbólica é mantida e envolvida por ares de punk/ska, com bastante respeito à estrutura melódica e instrumental vista na original, mas com um peso extra que cai bem dentro do esqueleto consagrado. Segundo consta no release que chegou aqui, esta faixa é o primeiro single do álbum Embracing the Sun, que sai em julho pela gravadora Hearts Bleed Blue

The DownBeat Sessions Vol. 01. (OZU)

Saindo de dentro da baleia, vamos para o interior das paisagens cinzas e inabitadas da OZU, uma banda que ousa fazer trip hop noventista em plena São Paulo do século XXI. A temática da faixa “Alone In Town” ainda é a solidão, mas agora revestida por grooves melódicos ao melhor estilo Massive Attack. A canção está no EP The DownBeat Sessions Vol. 01., que chegou até nós em um pacotão de novidades enviado pela Cérebro Surdo Produções. Na discografia da banda, este EP é o primeiro registro oficial, contando com faixas que foram surgindo ao longo de uma caminhada iniciada há mais de uma década, no longínquo ano de 2006.

“Má Vontade Boa Intenção” (Valciãn Calixto)

O piauiense Valciãn Calixto é um estranho não estranho. Explico: não é a primeira vez que ele aparece aqui (já deu as caras, por exemplo, na lista de melhores discos do ano de 2016 elaborada pelos selos independentes), logo, não é um nome desconhecido e estranho; em paralelo a isso, a música dele está cada vez mais esquisita e estranha. “Má Vontade Boa Intenção”, single lançado em maio, além da letra forte e direta que desse pelos ouvidos de forma pontiaguda, instrumentalmente parece ter dois ou três arranjos diferentes sendo executados ao mesmo tempo. Um passo além nas doses de transgressão que o artista já havia apresentado no disco Foda! no ano passado, rankeado entre os melhores trabalhos do ano no país.

Mother of Transition (Sabine Holler)

Do caos informativo de Calixto, vamos ao nude musical de Sabine Holler, porque o choque térmico faz parte da vida. Ex-integrante do Jennifer Lo-Fi, Sabine apresentou em maio o seu primeiro EP solo, que mistura elementos orgânicos e eletrônicos em instrumentais extremamente minimalistas sobre as quais a sua voz, rasgante e firme, deita para dar um show a parte. A sensibilidade ímpar, que cobre das letras à capa do trabalho, é o atrativo mais interessante da grande artista que o selo Hérnia de Discos tem em mãos.

Cavalo Sessions (Mannequin Trees)

O Mannequin Trees é um projeto do músico sergipano Ícaro Reis que lançou em maio o seu EP de estreia, gravado ao vivo no Cavalo Estúdio, em São Paulo. Ícaro também é integrante do grupo Sarina, mas resolveu criar um codinome para lançar estas músicas que ele compôs e que estavam muito diferentes daquilo que o seu grupo normalmente toca. Ao todo, são quatro músicas que o cantor e multi-instrumentista compôs sozinho (estou dizendo que a introspecção é a onda do momento) e que se alinham a referências que vão do bom rock psicodélico inglês à new wave sintética dos anos 80, primando sempre por manter progressismos que ampliem a viagem mas que não tirem a melodia do centro de tudo.

EP Radical (Cat Vids)

O grande fenômeno das bandas de uma pessoa só manifestou-se também no projeto Cat Vids, do paulistano Pedro Spadoni, que lançou em maio o seu EP de estreia, Radical. “Eu estava com as músicas na mão e deu vontade de gravar”, disse ele no release que nos enviou. Tudo começou com algumas demos que o artista gravou em sua própria casa e depois aperfeiçoou em estúdio. Da fase caseira, restaram alguns elementos mantidos na mixagem final, como os violões na faixa “People”, gravados no banheiro da casa de Pedro. A faixa, inclusive, é a mais interessante do trabalho justamente por resumir bem a empreitada: uma mescla de sons caseiros com instrumentos mais bem captados em estúdio atravessados por temáticas intimistas que refletem a introspecção daquele processo inicial de criação onde só havia o violão e nada mais.

“Imensidão Azul” (Salve Jurema)

Falando de inverno e de sons esquisitos, chegamos no single “Imensidão Azul”, da Salve Jurema. A banda tem a sua base na cidade de São Marcos, no Rio Grande do Sul, local que (segundo o site Clima Tempo) enfrenta a agradável sensação térmica de 5°C enquanto termino de redigir este texto. A canção com sonoridade indie, mas formato e letra de um canto religioso iorubá, consegue impressionantemente ser mais bela e criativa do que exótica. Foi publicada no penúltimo dia do mês de maio acompanhada de um vídeo feito pelo artista gráfico Leonardo Lucena (que também é vocalista e guitarrista da banda Catavento).

“Pulling Back” (Missing Takes feat. Aline Seibel)

Permanecendo no sul para garantir que a temperatura continue abaixo dos 10°C, temos o single “Pulling Back”, lançado recentemente pela banda porto-alegrense Missing Takes. O grupo formado por figuras carimbadas da cena local vem experimentando em estúdio e tentando encontrar o seu som com o carro em movimento. Arriscado, mas felizmente vem dando certo. O single que recebemos na segunda quinzena de maio é o bom resultado das evoluções ocorridas no grupo desde o EP Superfriend Going Down, lançado no ano passado, e o som do grupo, agora mais cheio e mais próprio, começa a se modelar de maneira mais definitiva e cativante. Colaborou para a qualidade da faixa a participação da cantora Aline Seibel, que inteligentemente não entra na faixa roubando a cena, mas sim colocando o seu agudo de forma sutil justamente onde a música pedia isso.

“Triz” (Almir Chiaratti)

Por fim, e não menos importante, temos um artista daqueles que estão em um grau de maturidade tão grande que a gente até se impressiona de não ter ouvido antes. O carioca Almir Chiaratti lançou o seu primeiro álbum no ano passado e o single “Triz” faz parte dos preparativos para a divulgação de seu segundo grande registro, ainda sem data prevista. Curiosamente, a faixa que mistura com competência arranjos de jazz à elegância do violoncelo, foi inspirada por uma fotografia tirada no posto 11 da praia do Leblon, em um cenário bem diferente da frieza e do inverno do qual falamos até agora. Que fique aqui como ponto dissonante então, pra evitar que o seu dia congele antes da metade das suas horas.