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Os melhores singles e EPs de julho

Existe uma afetação histórica entre o que entendemos como underground e mainstream. Na música, mais de uma vez vimos um gênero surgir em instâncias periféricas, mobilizar uma quantia considerável de pessoas e logo em seguida ser adotado pelo mundo corporativo, arredondado e transformado em produto de massa rentável. A etapa seguinte do processo de tensão envolve, por consequência, um novo esforço das instâncias periféricas na criação de uma nova linguagem, visto que a linguagem antiga já perdeu, diante da investida transformadora do mercado, a capacidade de comunicar na íntegra o que inicialmente se pretendia.

Essa tensão rege a lógica comum que varreu do punk rock ao calipso no passado: um lado criou, o outro adotou e vendeu, deixando o vácuo para que o lado criador tornasse a criar. No século XXI, no entanto, existe algo novo na fórmula. O mainstream segue se alimentando do underground, tendo nele a sua fonte e o seu inimigo favoritos. No novo ambiente, no entanto, há pela primeira vez disponibilidade de informação e acesso à tecnologia para que o underground roube abertamente elementos do mainstream também, tornando a disputa mais franca. Os trabalhos que separamos desta vez, os melhores singles e EPs de julho, tangem essa característica: se construíram no submundo empunhando referências do mainstream num verdadeiro processo reintegração de posse.

“Radioactivity”  (Herod)

Em julho, recebemos a primeira amostra do disco Herod Plays Kraftwerk, que a banda Herod deve lançar em setembro. Neste trabalho, o grupo paulista se apropria de algumas das mais representativas canções do grupo alemão Kraftwerk e as redesenha sob a ótica do post-rock. Uma mistura que inicialmente pode parecer confusa, mas que é esclarecida pelo single “Radioactivity”, que dá algumas pistas de como esta química deverá ocorrer na prática no disco completo: bastante respeito às estruturas e atmosferas originais, mas com inúmeras camadas de guitarra tomando de assalto o terreno onde inicialmente havia alguns dos primeiros experimentos mais sérios de música eletrônica realizados por uma banda de primeiro escalão. O mais legal é que o single funciona também para quem nunca ouviu falar do Kraftwerk antes: a base constante e crescente da música é segurada por uma voz monotônica que só explode no final, em um caminho conduzido por texturas, ruídos e códigos Morse, em uma qualidade de produção bem rara mesmo em produções com orçamento mais elevado.

“R.A.P.”  (Oriente)

A primeira coisa que chama a atenção no single do Oriente que recebemos em julho é a semelhança dele com a dinâmica introdutória de “Killing In the Name”, do Rage Against The Machine. E de fato é uma boa característica do grupo fluminense essa capacidade de devorar diferentes fontes e levar o remix às últimas consequências. No desenrolar da faixa, o grupo acaba indo bem além do mantra de desobediência narrado por Zack de la Rocha, e foca-se sobretudo em um discurso de resistência que toma diversas formas ao longo dos quase quatro minutos de som, sempre dando ênfase às letras R, A e P, tidas aqui como formadoras de uma sigla que abrevia “Resistência Ao Poder”. Curiosamente, o single sai pela Sony Music – ícone do poder na indústria cultural há décadas. Você fica livre para interpretar, podendo encarar como uma contradição ideológica das mais vorazes ou como uma resistência realmente desafiadora que visa se manter em pé mesmo pisando em território mainstream. Independente de como você resolver encarar o single, dificilmente a qualidade da faixa – em sua potência, energia e musicalidade – poderá ser negada.

“Nu e Cheio”  (Sanitário Sexy)

Por falar em semelhanças com velhos e conhecidos nomes, o single “Nu e Cheio” do grupo pernambucano Sanitário Sexy bem que poderia ser uma faixa do disco de estreia do Vanguart. As semelhanças estão dadas na bateria marcada que contracena com o violão formando a base para um vocal mordaz de dentes cerrados que anuncia uma letra viajadamente melancólica. Como característica própria, a Sanitário Sexy traz uma demão extra de influência latina, sobretudo em uma guitarra que canta com mais força do meio para o final da canção, lembrando bastante os experimentos de Carlos Santana com a música pop no final dos anos 90. O som do grupo é uma colcha de retalhos que desce bem e prova que o folk rock também sabe praticar os seus remixes.

“O Mar”  (Vespertinos)

E o folk parece mesmo ser uma plataforma interessante para a realização de misturas, como prova também o grupo Vespertinos, que flerta com o experimentalismo e com o indie, afina cordas em uma tonalidade havaiana e, apesar da chuva de elementos, nunca deixa que os instrumentos roubem o protagonismo da narrativa trovadora que rola em primeiro plano. Tal combinação de referências acompanha o grupo desde o seu EP de estreia, lançado no ano passado. “O Mar”, single que recebemos em seis de julho, é uma escala breve, que deve desembocar mais à frente em um disco previsto para o segundo semestre de 2017.

Não Esqueça/Início, Meio e Fim (General BoniMores)

Fiquemos no rock que belisca o pop e que se serve de instrumentos acústicos perfilados de maneira audível e harmônica: temos o som da General BoniMores, que chegou até nós em forma de um compacto duplo em julho, trazendo as faixas Não Esqueça e Início, Meio e Fim. Os sons lançados pelo Selo 180 se encaixariam perfeitamente em discos radiofônicos como Cosmotron (Skank, 2003), embora aqui as letras tenham uma riqueza poética não muito vista nas FMs daquela virada de milênio. Um som impressionantemente cristalino (e anacrônico, já que ousa ser radiofônico numa época em que nem sei se o rádio existe mais).

Sticky the Crazy EP (Fita)

Por falar em anacronismo, um dos trabalhos mais interessantes que caíram na nossa caixa de entrada ao longo de julho trazia essa temática como eixo, prestando um claro tributo aos anos 80. Até aí, sem grandes novidades, porque muita gente tem usado da tecnologia atual para fazer essas viagens temporais, às vezes com maior, às vezes com menor êxito. O brilho produzido pelo paulista André Luiz Souza neste EP está um passo adiante, no instante em que ele consegue resolver a sua admiração pela música sintética da década de ombreiras e pisar com força em um terreno que vai além da caricatura. O trabalho tem uma base forte em nomes com New Order e Human League (chegando a citar isso no release), mas também dá espaço a sonoridades mais recentes e atualiza o som dançante das bases que devora. O saudosismo acaba ficando mesmo no visual, com uma capa em estética cassete muito bem reproduzida, onde o nome do projeto aparece escrito com aquela letra estilizada que lembra o logotipo da Sega.

“Super-Homem, Astronauta”  (Alpargatos e Mun-Rá)

As mesmas rádios que há tempos não mandam notícias adorariam ter algum contato com o single dos Alpargatos em parceria com Mun-Rá. A faixa recebeu internamente o troféu simbólico de melhor refrão do mês de julho com a sua melodia grudenta que permanece ecoando quando a longa e esperta letra do single chega ao fim. Parece clichê (e talvez nem tenha como fugir disso nestes casos), mas a melhor forma de ouvir este som é abdicando da ideia de encaixá-lo em algum gênero predefinido. Os quatro minutos e meio de pop, reggae, rap e ska tocados com guitarras em modo de surf music acabam confundindo as análises mais frias e fazendo pó de qualquer desejo de organização. Haverá aqueles que ainda assim persistirão na vontade de organizar e rotular as coisas, porque a desordem desconforta de fato. A estes, recomendo que abram uma trégua só desta vez, porque o refrão é mesmo muito bom. Podem me cobrar depois.

“Tiros em Columbine”  (Fones)

Aí, para recuperar do descompasso os organizadores de plantão, a banda Fones já vem rotulada de fábrica, com o tal soft punk que o grupo de Sorocaba relatou no release enviado à imprensa. Entrado em miúdos, há ali um caldeirão de influências que parece congregar sobretudo nomes do grunge e do punk, tomando do primeiro um grau destacado de melancolia e do segundo uma vitalidade contundente que aparece em momentos decisivos da faixa. A história por trás do single também é legal: o registro que chegou para nós em 20 de julho marca o retorno da banda após um hiato de cinco anos desde o lançamento do seu EP de estreia. De lá pra cá, mudanças de formação, novas referências e correrias da vida passaram por debaixo da ponte até que “Tiros em Columbine” viesse como abre-alas de uma nova fase, marcando, de quebra, uma guinada onde a sonoridade do grupo se encontra mais madura em relação aos registros da fase pré-ressurreição.

“Nada de Novo Sob o Sol” (Quasar)

Devorar o mainstream, induzir o refluxo intestinal do pop, devolver a César o que é de César por direito, mas ir além da cópia, porque nem o mainstream na sua eterna crise de criatividade é totalmente desprovido de novas interpretações nas apropriações que faz. A máxima vale para todos os nomes listados aqui, e se repete em “Nada de Novo Sob o Sol”, single lançado pelo grupo paulista Quasar como aperitivo para o disco novo que deve vir ainda este ano. A banda cita em seu release influências de Ventre e Bloc Party, mas a verdade é que o minimalismo plugado, o groove do baixo e o vibrato vocal da canção me lembraram mais o Kings of Leon no tempo em que a banda de Caleb Followill ainda chamava a atenção. A faixa é somente a segunda lançada pelo grupo paulistano e ainda não há como saber o que esperar do disco que vem aí, mas a qualidade dos canapés faz valer aquele follow de confiança.

“Dia de Sonho” (Mani Carneiro)

Em busca de novas fórmulas (ou buscando justamente não se prender a fórmula alguma), Mani Carneiro nos apresentou em julho uma faixa composta apenas de voz e percussão. O som não deixa de ser harmônico apesar da proposta pouco convencional, e muito disso se deve a uma boa imposição das vozes, que acabam guiando a melodia enquanto os batuques praticam o seu freestyle ao fundo. O resultado final é bastante peculiar, podendo, com algum esforço, ser relacionado a um par de trabalhos experimentais pós-manguebeat. Quem assina a mixagem, vejam só, é Chico Neves, responsável por trabalhos de O Rappa, Lenine, Paralamas e Arnaldo Antunes. Curiosamente, Chico esteve por trás dos principais trabalhos que levaram a estética do mangue ao mainstream nos anos 90. Agora, 20 anos depois, emprega o know-how do mainstream para ajudar a devolver o batuque ao underground. A dança não tem fim, mas felizmente vivemos em tempos onde o mainstream já não surrupia sozinho.