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Os melhores singles e EPs de fevereiro

A velha máxima de que o ano brasileiro se inicia de fato somente após o carnaval faz cada vez menos sentido pra mim. Cada trem lotado que pego durante os meses de janeiro e fevereiro – com pessoas indo trabalhar às 7:00 da manhã – depõe contra esse clichê. O movimento da caixa de entrada do New Yeah durante o início do ano também não concorda com a afirmativa de que estes dois primeiros meses da jornada anual são improdutivos no Brasil: faça chuva, faça sol, faça réveillon ou carnaval, há sempre coisas chegando dos mais diversos lugares. A lista a seguir dá continuidade à nossa tradição de listar os melhores singles e EPs que recebemos ao longo do mês anterior. Olha aí e depois nos avise se deixamos algo muito legal de fora.

“Louca” (Alice Caymmi)

Uma das grandes intérpretes apresentadas pela música brasileira ao longo dos últimos anos, Alice Caymmi voltou a atacar no mês passado com o single “Louca”, que chegou para nós no dia 09 de fevereiro. A faixa lançada pela cantora carioca é uma versão em português para a canção “Loca” da cantora mexicana Thalía (sim, aquela mesma das novelas da Televisa). Enquanto a versão original segue a cartilha romântica das baladas pós-julioiglesianas (um gênero ainda muito vivo em solo mexicano), a versão de Alice é coberta de grooves e elementos eletrônicos. Com uma interpretação à altura do que já lançou anteriormente, Alice dá uma cara nova a um hit latino provando a sua capacidade de imprimir tons autorais mesmo em faixas que nasceram bem longe da sua cabeceira.

“Casa do Medo” (The Galo Power)

Por falar em versão bem feita para músicas de terceiros, a banda goiana Galo Power foi cavar ainda mais fundo no seu baú de referências para gravar o seu single lançado em fevereiro. “Casa do Medo” é uma versão em português para “Night of Fear”, que a banda zambiana Ngozi Family lançou originalmente em 1977. Enquanto o mundo ocidental fervilhava sob o punk rock, a nuvem de influências da banda africana ainda tinha muito da psicodelia do início dos anos 70, trazendo na temática as complicações de uma África que ainda precisaria de algumas décadas para superar o apartheid. A Galo Power, por sua vez, traz ao presente aquele discurso áspero que os zambianos empunharam há 40 anos, preservando o espírito da faixa original e colocando sobre ela o tom vintage e cru que o grupo goiano tem como característica desde sempre.

Paseo EP (Valentin)

O Valentin é o já consolidado projeto solo de Érico Junqueira, músico de Porto Alegre que ficou conhecido sobretudo na região sul do Brasil como vocalista da banda Doyoulike?. Desde que a banda parou de tocar regularmente, e lá se vão alguns anos, o Valentin se tornou o principal projeto na vida do rapaz, que já acumula uma série de lançamentos e consegue manter, com o apoio dos fãs, uma agenda com apresentações em diferentes partes do país (em novembro, por exemplo, superou o Trópico de Capricórnio e esteve em Aracaju, João Pessoa, Natal e Fortaleza). Já o EP Paseo, lançado em fevereiro, é o mais novo filho do triângulo amoroso estável que Érico mantém com a música folk e com a melancolia, sempre primando por melodias instintivas e sonoridades minimalistas que contracenam perfeitamente bem com a forte carga confessional das letras.

“Às Vezes Cansa” (Cigana)

A banda limeirense Cigana apareceu aqui pela primeira vez em 2014, quando lançou o EP Sinestesia. Percebi na época uma banda já bem rica em termos de sonoridade, mas também um grupo que apresentava pontos onde poderia evoluir; e a coisa mais legal em ouvir aquele EP era justamente perceber que o grupo tinha repertório e capacidade técnica para implementar esse processo de evolução. Desde então, quase três anos se passaram. A Cigana lançou mais um EP (onde mostrou enorme amadurecimento), participou da exitosa compilação O Pulso Ainda Pulsa (contribuindo com um dos melhores registros daquele disco duplo) e chegou ao single “Às Vezes Cansa” já soando de uma maneira muito particular. Os grooves estão mais encorpados, as vozes estão cada vez mais bem colocadas, as guitarras soam com uma autenticidade bastante ímpar e o emaranhado de eventos dentro da mesma faixa se mantém vivo como era antigamente, mas soa ainda mais harmônico do que soava anos atrás. Só ainda não acho que seja o máximo que a banda consegue conseguem atingir, por isso vou acompanhar com atenção e curiosidade os próximos capítulos.

Pausa (Testemolde)

Segundo informava o release que recebemos, esse som nasce de um “encontro (…) de sonoridades produzidas por instrumentos que aparentemente trabalham em dessintonia e divergência sonora”. De fato, o som instrumental da Testemolde é baseado em interfaces de ruído e construído abaixo de paredes de distorção que bebem em gêneros noventistas tortos, recolhendo influências em campos diversos que vão do grunge clássico ao metal alternativo. O destaque aqui fica para as guitarras, que já eram o forte do som do grupo no disco homônimo lançado em 2014. Agora, elas retornam se desprendendo com mais facilidades dos riffs crus para arriscarem experimentações à la Tom Morello, enriquecendo ainda mais um som que já era bem interessante naqueles primeiros sinais de vida.

“Em Chamas no Chão” (André Prando)

Sem tantas distorções mas também com um terreno largo de influências, o espírito-santense André Prando voltou a atacar no mês passado com a faixa inédita “Em Chamas no Chão”. A canção faz parte da coletânea Faixa 6, lançada pelo Selo Scream & Yell em fevereiro. O disco conta ainda com participações de Supervão, Volver, Beto Só e outra dezena de artistas que se dispuseram a doar faixas que nunca haviam sido divulgadas nas suas discografias regulares. A faixa de André, por exemplo, já aparecia nos shows, estava registrada em alguns vídeos pela rede, mas ainda não possuía uma versão de estúdio. Pois cá está ela agora, em formato de blues retorcido contando com os já clássicos vocais serpenteantes do cantor.

“Saideira/Turma do Funil” (Serjão Loroza)

A Escola Tony Tornado de Atores da Globo Com Vocação Para a Black Music tem um aluno aplicado que já lançou dois discos e que, apesar de não ter uma discografia constante, sempre aparece com músicas interessantes de tempos em tempos. Serjão Loroza (o Figueirinha, de A Diarista) lançou o seu primeiro disco, Música Brasileira de Pista, em 2007. O disco seguinte dele veio somente em 2013, seguindo a mesma veia soul e disco da estreia. Em meados do mês passado, ele apareceu novamente, apresentando um mini EP aparentemente pensado para o carnaval, onde se destaca o medley que une “Saideira” (hit noventista do Skank) e “Turma do Funil” (famosa marchinha atemporal dos blocos de rua). Com o timbre peculiar do cantor servindo como espinha dorsal do registro, é impossível ouvir e não lembrar dos personagens caricatos que Serjão já apareceu interpretando na TV, o que não atrapalha a audição; muito pelo contrário: ajuda a completar o tom bem humorado da faixa.

Esperando o Pior (Cidade Dormitório)

Do calor do chope coletivo, vamos direto à fria e triste melancolia com ares de ressaca moral. Sem escalas, porque choque térmico é um barato todo especial. Esperando o Pior é o primeiro EP da banda sergipana Cidade Dormitório. O trabalho, que foi lançado nos últimos minutos de janeiro e não teve tempo de entrar na nossa listagem anterior, é um compilado de cenas cotidianas dramatizadas por letras irônicas e sonorizadas por uma banda coesa demais para tão pouco tempo de existência. Desde a primeira audição, “Agora o Meu Coração é Um Lixeiro Azul Vazio Escroto” foi imediatamente declarada pela nossa equipe a melhor letra triste publicada em 2017. E até o fechamento desta edição ninguém no time havia mudado de opinião ainda.

EP Margens, Zumpiattes

Os cariocas da Zumpiattes também fazem da melancolia uma matéria-prima útil, mas a industrializam de maneira levemente mais otimista do que a banda citada no tópico anterior. O som aveludado do grupo passeia entre o folk e o chamber pop, sempre prezando por letras contemplativas e repletas de metáforas. O EP que contem a singela “Laço de Cetim” (lançada em formato de single ainda em 2016) e a andante “Dança à Dois” (a que mais me chamou a atenção) é o primeiro registro mais extenso de um grupo que já nasce merecendo ser notado.

“Donald Trump’s Tweets As An Early 2000s Emo Song” (Super Deluxe)

Li esses dias em uma discussão (dessas intermináveis que a internet é especialista em produzir) que 2017 será o ano de revival do emo. Ainda é cedo para afirmar com certeza se teremos um retorno às raízes daquilo que tanto ouvimos doze anos atrás, mas, de toda forma, fica aqui o meu apoio ao movimento: uma faixa emo inconformada gerada a partir de tweets publicados por Donald Trump. O compilado é obra da plataforma Super Deluxe lançada no último dia 12. Curiosamente, o teor adolescente que Trump pendura em seus murais diariamente casou muito bem com a estética musical college que embalou milhares de ensinos médios mundo afora. Escutar a faixa é um exercício bem paradoxal: ao mesmo tempo em que a sequência de frases improváveis me desperta a vontade de rir, também bate um desespero quando lembro que uma pessoa com esse temperamento está atualmente no comando da Casa Branca. Na época do meu ensino médio, os impulsivos de personalidade instável costumavam ser mais inofensivos.

Mas vamos em frente porque março vem por aí com suas armadilhas e peripécias. O carnaval se foi, o réveillon já é uma lembrança distante, logo mais será inverno e em outubro já será Natal em Porto Alegre.