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O trio por trás do Oruã. Foto: Shay Reis

Oruã e sua potente viagem experimental em “Sem Bênção/Sem Crença”

Conhecido nacionalmente como um dos principais nomes do lo-fi nacional, Lê Almeida vem experimentando cada vez mais o seu poder criativo nos lançamento que divulga através do selo Transfusão Noise Records. O projeto Oruã é prova disso. Em seu registro de estreia, Sem Bênção/Sem Crença, lançado hoje, com exclusividade pelo New Yeah, o músico carioca vai ainda mais longe nas suas misturas e mostra uma nova postura em suas composições, trocando as letras ensolaradas e apaixonadas por frases de resistência e reflexão, tudo isso construído coletivamente a partir a partir do câmbio com os companheiros de banda e selo.

O trio por trás do Oruã. Foto: Shay Reis

O trio por trás do Oruã. Foto: Shay Reis.

Sem Bênção/Sem Crença é o primeiro disco da Oruã, o mais novo projeto de Lê, João Luiz (baixista que acompanha a carreira solo de Lê e é responsável pelas guitarras da banda Carpete Florido) e Daniel Duarte (banda MOS e auxiliar de gravação da Audio Rebel). O trio base é o guia de todas as parcerias que aparecem na gravação, totalizando mais de 10 pessoas envolvidas na produção das 13 faixas do debut.

Musicalmente, o projeto apresenta características diferentes dos trabalhados de Lê em sua carreira solo, principalmente pelo uso frequente de teclados e também pelo pé no experimentalismo, fugindo um pouco da sonoridade garageira noventista que até então poderia ser apontada como marca de suas produções. Outro fato interessante de ser analisado é que as canções seguem a tendência de mudança que já vinha ganhando espaço nos últimos anos nas produções vindas do Escritório – quartel general de Lê e do próprio selo Transfusão Noise Records. Músicas mais longas, instrumentais mais limpas e processadas, além do uso da gravação inteiramente em fita k7, são algumas das características dessa mudança que vem aparecendo gradativamente nas produções vindas do selo.

Entre mantras autobiográficos e viagens instrumentais inéditas em sua produção, Lê e seus companheiros dão um passo além do lo-fi clássico e flertam com tags mais modernas, como o próprio post-bop.

Essa construção diferenciada de arranjos ganha mais força em faixas específicas do álbum. “Força Contra a Favor” vem com baixos marcados e um groove potente; “Pedra Porosa”, “Anátema” e “Bravura de Areia Branca” aparecem com instrumentais que mesclam as guitarras distorcidas com pianos bem altos, lembrando até as viagens de post-bop de bandas como BadBadNotGod. “Santo Amaro” tem teclados ainda mais potentes e transporta o protagonismo das guitarras para as teclas, enquanto “Meu Levantar” cai de cabeça no lo-fi com um inédito violão cheio de ambiências.

Ponto importante do lançamento: as letras de Sem Bênção/Sem Crença trazem mantras biográficos com um tom de melancolia e, em alguns momentos, quase de protesto. Essa postura mostra uma mudança entendível na forma como Lê encara o poder das suas produções, talvez resultado do momento pessoal conturbado que ele viveu em 2016. Nas poucas frases ditas em cada jam do disco, Lê e seus companheiros expressam a importância das fases da vida, dos altos e dos baixos para o entendimento de quem se é, além de lições quase universais sobre positividade, sempre pela ótica de alguém que se sentiu exilado diante do grave episódio no ano passado.

A experimental e pesada faixa que dá nome ao disco demonstra, sem muitos retoques, um mix resumido de todos os sentimentos que permeiam o registro de maneira geral. Um som denso e progressivo, misturado à uma bateria desgovernada apoiada por guitarras e baixos clipando.

O primeiro lançamento do projeto Oruã é, com certeza, um dos discos mais interessantes desse início de segundo semestre de 2017. Seus arranjos mergulham em referências bem elaboradas, experimentais e intensas, sem perder a características principal dos registros lançados pela Transfusão.

Bonus track 1: para quem for do Rio de Janeiro, o trio toca na próxima sexta-feira (11) no Escritório da Transfusão Noise Records e algumas das novas canções já devem aparecer por lá. Bonus track 2: uma versão do disco tocada ao contrário, chamada Açnerc Mes/Oãçnêb Mes, foi upada no perfil do Oruã no Spotify e, para fins de curiosidade ou delírio sonoro do ouvinte, está disponível neste link.