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Odair José do alto de seus 68 anos.

Odair José: “quem segue fórmulas não faz arte”

Não é segredo que os rótulos superficiais colocados pela imprensa prejudicam a carreira de alguns artistas. Distribuídos sem responsabilidade, podem limitar o alcance de bandas, fechar portas importantes no mercado, prejudicar contratos e, em grau mais extremo, até levar o próprio artista a questionar o seu processo criativo. Odair José viveu na pele quase todos esses problemas em uma época em que a imprensa tinha muito mais poder do que tem hoje. Surgiu no rock, acostumou-se a escrever sobre temas que eram tabus, sofreu com a censura da ditadura, desagradou a mídia conservadora e ganhou dela, como revide, o rótulo de “brega”, que nada tinha a ver com a sua coleção de discos e a sua fixação por Bob Dylan.

Odair José do alto de seus 68 anos.

Odair José do alto de seus 68 anos: “só quem não me conhece estranhou as guitarras do disco novo” (FOTO: Marcus Leoni).

Cansado de brigar com Deus e o mundo, Odair passou os anos 80 e 90 com o freio de mão puxado, a fim de evitar novos problemas, mas internamente alguma coisa o pedia para voltar a causar incômodo. Em 2006, o selo Allegro Discos lançou um tributo onde diversos artistas independentes reliam canções de Odair José. O trabalho fez com que um novo público olhasse para a obra do então incompreendido compositor goiano, e aquilo foi a motivação que ele precisava para voltar a ser ácido como antes. Empunhou a sua guitarra com uma gana renovada e, desde então, gravou três discos de inéditas carregados de letras diretas e despidos do medo de errar. O mais recente trabalho, Gatos e Ratos, foi lançado há pouquíssimo tempo pela distribuidora independente Canal 3.

É uma carreira extensa e complexa demais para explicar em alguns parágrafos, eu sei. Por isso mesmo fomos conversar com o próprio Odair, que falou sobre o disco novo, a sua relação estranha com a imprensa, os anos 70, a patrulha dos hipócritas sobre a sua obra e as possibilidades que surgiram em seu horizonte desde que ele se desvinculou das grandes gravadoras.

New Yeah – Gatos e Ratos, seu disco novo, fez bastante barulho na mídia especializada. Muitos alardearam o trabalho como um “abraço tardio” seu ao rock’n roll, o que é estranho, porque você é um filho da Jovem Guarda, então obviamente tem um pé no rock desde o início da carreira. Outros chamaram atenção para o fato de você ter “abandonado os temas românticos”, o que também é esquisito, porque já nos anos 70 você tocava em temas delicados como a maconha e a prostituição. Você acha que a mídia brasileira conhece pouco sobre você ou tem preguiça de se aprofundar na sua obra? Muita gente prefere tratar você como um simples ícone romântico, quando na verdade a sua obra é bem mais complexa do que isso.

Odair José – Olha… sem falsa modéstia, acho que eu sempre assustei os conservadores. Talvez por isso a maioria da mídia nunca tenha tentado retratar a minha obra de maneira mais profunda. Nunca houve também vontade o suficiente para aceitarem que o meu trabalho está e sempre esteve distante de quase tudo o que escreveram a meu respeito. Não sei se por preconceito, por falta de informação ou por medo, mas geralmente se limitaram a me adjetivar com clichês e, sinceramente, não me encaixo em nenhum desses absurdos que me colocaram como rótulo ao longo dos anos. Minhas referências sempre estiveram no rock, mesmo que muitas vezes na ausência de guitarras mais pesadas. Minhas letras e melodias, por exemplo, sempre seguiram essa linha. Aí quem não me conhece ou me conhece através da mídia obviamente estranha o disco novo, que tem guitarras presentes e temáticas sociais. Acham diferente e disruptivo. Se me conhecessem, veriam que sempre fui o mesmo: o músico de rua. O cronista que vai contra a hipocrisia.

Bom, então vamos falar do trabalho novo sem usar os clichês de sempre. O que você tentou realmente passar através desse disco e como você gostaria que o trabalho fosse entendido pelas pessoas dentro da tua discografia?

Gatos e Ratos é, antes de qualquer coisa, um trabalho honesto. É uma demonstração de respeito por quem vai ouvir. Ás vezes, o músico/compositor fica repetindo o truque da foca e fazendo a mesma coisa com medo de errar. Sabe? Para mim, o cara que faz isso não faz arte. O artista precisa ser inquieto. Com esse trabalho novo, eu quis primeiramente sair da mesmice. Nas letras, estou, do meu jeito, falando daquilo que observo e que me incomoda, exercendo a minha cidadania através das canções.

E o cenário brasileiro é bem fértil para quem quer escrever sobre “coisas que incomodam”…

Sinceramente, nunca tive tanto receio quanto ao cenário do Brasil e do mundo. Me preocupo muito com as falsas informações que de um modo geral passam para o povo e, principalmente, me preocupo com as coisas nas quais o povo está acreditando. Não quero ser a palmatória do momento. Não é isso. Mas penso em ser um despertador desse bloqueio coletivo que afeta tanta gente. Vejo isso como meu dever, principalmente na situação em que estamos. Pessoalmente falando, não vejo a esquerda como solução para todos os problemas, mas colocar a direita em todos os níveis de poder pode nos levar, em 2017, a sentir saudades de 2016.

Você sempre se manteve na ativa de alguma forma desde que surgiu para o Brasil nos anos 70. Mas há algo estranho no repertório dos seus shows recentes, porque ele quase sempre ignora as suas músicas lançadas nos anos 80 e 90. Qual o problema das músicas lançadas por você nesse período?

Nessa época, sofri um apagão! Sério. E, sendo novamente bem honesto, de 1978 até 2006 não creio ter feito um trabalho que seja relevante para as pessoas. Como posso explicar? Quando lancei O Filho de José e Maria, em 1977, tive a sensação de estar lançando o meu melhor trabalho. Achava aquilo um dos melhores discos já feitos no Brasil. Mas foi um disco forte e muita gente se assustou com o conteúdo na época, então eu passei um tempo fazendo coisas mais brandas para não assustar mais. Aí fiz coisas boas, mas não tinha mais o peso de conteúdo que tinha aquele disco. Voltando naquela questão anterior, nessa mesma época alguns setores da mídia, também assustados, tentaram fragilizar a minha imagem diante do público para tentar me neutralizar. Infelizmente, conseguiram isso durante um longo tempo.

O Filho de José e Maria (1977)

O Filho de José e Maria (1977), na versão original e na edição ao vivo, de 2014: “se assustaram tanto com as músicas do disco que eu mesmo quis fazer canções mais brandas para não assustar mais ninguém”.

Outra vez fica claro que você antigamente foi bastante popular, mas teve dificuldades para circular por conta do nariz torcido que a crítica musical tinha com a sua obra e também porque uma “elite cultural”, que praticamente ditava o que era bom gosto, fazia questão de te sabotar.  Hoje, você já não toca tanto nas rádios, provavelmente não consegue lucrar tanto com a música quanto lucrava no passado, mas consegue chegar a fatias diferentes de ouvintes. É visto como um artista cult por determinados públicos, é absorvido por uma plateia mais jovem e finalmente tem alguns dos seus trabalhos antigos reconhecidos e comentados. Você sente que com a internet, com os aplicativos de música, com os blogs e com as redes sociais aquela “elite do gosto” perdeu um pouco do poder que tinha? 

Sim. Antes era tudo bem diferente. Existia uma mídia que determinava quem era tido como bom. Mas também não posso reclamar, porque mesmo assim eu consegui um espaço muito grande no rádio e em determinado momento eu era o mais tocado em várias estações. Tocava e vendia muito! Aí o negócio cresceu e começou a incomodar ainda mais todo mundo. Quando, em 1977, escrevi a tal “ópera rock”, dei o que eles precisavam para me brecar e o resultado foi aquilo que já comentei. Hoje, a mídia se espalhou, temos a internet e, para mim, parece que está ajudando. E, sim, se fatura menos, mas não faço o meu trabalho só pensando em dinheiro. Tenho os meus ideais.

De uns tempos para cá, você também parou de distribuir os seus discos por meio de grandes gravadoras (alguns trabalhos mais recentes são distribuídos pela Saravá Discos e o último disco tem distribuição pela Canal 3). Isso te trouxe maior liberdade em algum aspecto?

Sim! E, olha, fazer o seu trabalho sem gente dando palpite e querendo que você repita formulas é muito bom! Olhando para a minha obra, vejo que só fiz trabalhos bons quando tive liberdade! Posso errar, acontece, mas quero errar por mim mesmo, não por interferência dos outros.

Odair José

A virada de Odair nos últimos 10 anos, transformado em artista cult e se desvinculando das grandes gravadoras: “poder fazer o meu trabalho sem um monte de gente dando palpite é muito bom” (FOTO: Marcus Leoni).

Como já comentamos, você tem um público interessante entre as fatias mais jovens, que estão bem antenadas aos últimos lançamentos e conectadas a artistas dessa última geração. Qual a coisa mais contemporânea que você ouviu (e gostou) em 2016?

Pode não parecer, mas sempre tive o público jovem como meu foco. É para ele que faço musica. No passado, já era assim, por isso a Censura do Estado pegava tanto no meu pé. Hoje, é a censura da hipocrisia que continua pegando. Sobre os artistas novos, confesso que não tenho escutado tanto quanto deveria, mas noto que é no campo alternativo que tem gente fazendo bons trabalhos.

Você chegou a comentar que gostou bastante do que foi registrado em Gatos e Ratos, mas falou também que o disco ainda está longe de ser o que você quer alcançar. O que exatamente você queria ter feito que ainda não conseguiu fazer neste trabalho? Como imagina um próximo disco tendo essas pretensões em mente?

Sinto que preciso chegar mais perto do meu melhor. Quero fazer algo que realmente me deixe com a certeza de que não ficou faltando alguma coisa. Acho que posso conseguir! Estou com umas ideias boas. Já estou escrevendo as músicas para um próximo trabalho, mas não tenho pressa. Provavelmente saia só em 2018. Antes disso, vou rodar por aí com Gatos e Ratos. Também antes disso, a Sony vai relançar O Filho de José e Maria em vinil e CD, numa edição comemorativa aos 40 anos do projeto, aí vamos nos envolver com a realização de shows e tudo mais. Tenho tudo para me divertir e quem sabe divertir as pessoas!

>> Escute Gatos e Ratos na íntegra. Acompanhe as novidades do cantor pelo Facebook.