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Obrigado, Terno Rei. Esse disco bateu com um sonho.

Em quantas músicas a gente já ouviu alguma história sobre saudade? O tema talvez seja uma das grandes pautas da música em geral já há muito tempo, em boa parte por ser um sentimento muito comum ao ser humano em geral. Agora, abordar esse tema com profundidade, a ponto de gerar algum tipo de sensação que vá além do simplesmente ouvir, tem sido uma tarefa para poucos. A banda paulista Terno Rei tem para si esta tarefa no disco Essa Noite Bateu Com Um Sonho. O trabalho recém-lançado é um ensaio pontiagudo sobre a saudade, o distanciamento, a dor e a sutileza de sentimentos que ultrapassam o nosso interior e se manifestam na pele.

Essa noite bateu com um sonho

Formada em 2011 por Bruno Rodrigues (Guitarra), Gregui Vinha (Guitarra), Luis Cardoso (Bateria), Victor Souza (Percussão) e Ale (Voz e Baixo), a Terno Rei ganhou notoriedade logo em seu primeiro lançamento pelo selo Balaclava Records, o debut intitulado Vigília. Algum tempo depois, com o EP Trem Leva As Minhas Pernas, o grupo começou a ganhar ainda mais potência e a mostrar um ar mutante que passou a fazer parte de sua eletrosfera. Cada passo dado pelo quinteto mostrava que suas composições e arranjos estavam em constante mutação, deixando claro que a Terno Rei estava mostrando pouco a pouco qual era o tipo de som que realmente a representava.

Em Essa Noite Bateu Com Um Sonho, a banda alcança mais uma etapa nesse processo de amadurecimento contínuo, mostrando uma evolução criativa, técnica e até, de certo modo, emocional: a forma que a banda escolheu para contar histórias introspectivas se comunica diretamente com os sentimentos mais introspectivos de quem ouve, por isso o impacto do disco é realmente grande para quem escolhe fazer parte dos sentimentos ali expostos. É como se o ouvinte passasse por uma viagem ora solitária, ora cheia de companhias, seja de lembranças, de paisagens sonoras ou de versos que caminham entre as contínuas linhas de guitarra.

Abrindo o registro, “Sinais” aparece com uma melodia mais acelerada se comparada às bases que já haviam sido lançadas pela banda anteriormente.

Talvez um dos maiores destaques do registro, “Criança” é uma das canções que melhor consegue sintetizar a sensação que é ouvir de ponta a ponta o disco. Uma base quase que silenciosa para falar sobre momentos que não voltam mais, lembranças que ficam e que doem quando retornam como flashes em nossa mente. Quem nunca sentiu falta de algo, de alguém ou de um momento? “As coisas que eu perdi / nunca voltam”. Um mergulho direto para dentro de si e uma volta por momentos que foram tão importantes que não serão facilmente apagados ou esquecidos. A ironia de momentos que não voltam, mas que constantemente nos revisitam como se nunca tivessem partido.

“Depressão na Pista de Dança” consegue misturar perfeitamente a melancolia com ritmos dançantes, batidas constantes de bateria. Em “Circulares”, a banda apresenta uma nova versão da colaboração divulgada anteriormente pelo projeto eletrônico Nuven e o pelo vocalista da Terno Rei, Ale Sater. Nesta nova versão, são mais guitarras e um andamento mais regular e cadenciado, que transita por diversos momentos de agitação e calmaria.

A sequência de “Litoral” e “A Prosa” trazem melodias mais solares ao disco. “Para o Centro” mostra uma cara mais psicodélica da banda, mesclando algumas dobras de vozes e o groove constante do baixo enquanto Ale repete “Tristeza não vai mais voltar / Ela vence”.

“Saiba que as minhas rosas estão a crescer / Saiba que ando sempre ao seu lado / Saiba que o vento muda a sua direção / Há um lugar para nós / Quero estar do lado bom” são as frases que regem o andamento de “Olha Você”. Em “Chegadas e Partidas”, o grupo referencia linhas sonoras semelhantes a registros de bandas como Real Estate e mergulha em um relato otimista, mas cheio de solidão, sobre a perda.

Encaminhado o registro ao final, a faixa título cria uma atmosfera capaz de envolver e contar uma história ao pé do ouvido; uma história sobre medo e sobre incerteza e que abre caminho para “Desconhecido”. A última música do disco mescla o emaranhado de referências já expostas no decorrer das canções, mas expressa de forma ainda mais visceral o conjunto de sentimentos usados até ali.

Em pouco mais de 40 minutos de audição, o que se sente é que Essa Noite Bateu Com Um Sonho é um disco capaz de se conectar com os sentimentos mais profundos de quem decide experimentá-lo de verdade. Um registro carregado de fatos abstratos e lembranças recortadas que abrem caminho para o ouvinte se sentir incluído em cada uma delas e projetar as suas angústias nessas telas que a Terno Rei apresenta em forma de letra e melodia. São relatos que muito se assemelham aos nossos próprios momentos de tristeza, de raiva, de angústia e até de felicidade. Um dos candidatos a grande álbum do ano, não por trazer algo revolucionário ou incomum em quesitos de composição e arranjo, mas sim por conseguir abraçar os ouvidos e ser uma plataforma para que o ouvinte enxergue as suas próprias histórias em cada uma das pequenas 12 histórias contadas.

Obrigado, Terno Rei. Esse disco bateu com um sonho.