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Rockabilly Brasil

O Rock(abilly) não morreu

Em março deste ano, a história do rockabilly brasileiro ganhou o seu primeiro registro escrito com o livro “Rockabilly Brasil”, do jornalista gaúcho Eduardo Molinar. O autor passou dois anos pesquisando, produzindo, viajando e entrevistando aproximadamente 100 pessoas que falaram sobre as origens e os desmembramentos de um gênero que vem sofrendo mutações e ganhando adeptos no país desde a década de 50.

Rockers na revista Manchete em 1991 (foto cedida por Luiz Moreira).

Rockers brasileiros na revista Manchete em 1991 (foto cedida por Luiz Moreira).

O namoro da música brasileira com o rockabilly vem de longe. Os Sputniks (banda que reunia Tim Maia, Roberto Carlos, Arlênio Livio, Edson Trindade e Wellington Oliveira) surgiram em 1957 tocando versões de Elvis e Little Richard quando estes ídolos estrangeiros ainda davam os primeiros passos em suas carreiras. Ainda marcando essa influência do estilo na música nacional, Erasmo Carlos apareceu em 1965 com o seu primeiro disco, A Pescaria, com claras influências do rockabilly e do iê-iê-iê dos Beatles.

“São músicos que foram totalmente influenciados por esses estilos dos anos 50 e 60, mas eles não tocavam exclusivamente rockabilly. A importância e a qualidade deles é indiscutível, mas o rockabilly tradicional só teve uma banda brasileira que o representasse em 1979”, explicou Molinar, lembrando o surgimento da banda paulistana Coke Luxe, a “primeira banda clássica de rockabilly”.

OK. Vamos sair da história que todos conhecem e ir um pouco mais fundo.

Agora vai!

Liderada por Eddy Teddy, a Coke Luxe começou a ganhar público no início da década de 80, na esteira do crescimento do Clube do Rockabilly, projeto de Eddy que lutava para fomentar a produção do gênero na capital paulista promovendo festas onde o rockabilly e as bandas que o produziam serviam como trilha sonora.

Em entrevista dada a Molinar durante as pesquisas para o livro, Sérgio Barbo, amigo de Eddy na época, contou como o clube foi necessário para a expansão do movimento rockabilly no país. “Lembro que ouvi o Eddy em um programa de rádio do Kid Vinil onde falavam sobre o Clube do Rockabilly. Comecei a me corresponder com e ele e me tornei sócio logo depois. A partir daí, comecei a participar de seus eventos, reuniões e feiras de discos”.

Eddy Teddy. Cedida por Luiz Moreira (arquivo pessoal)

Eddy Teddy nos anos 80. Cedida por Luiz Moreira (arquivo pessoal)

Nos anos 80, a cena de rockabilly se expandiu e vários outros grupos e gangues surgiram em vários lugares de São Paulo. A partir dali, um processo de midiatização alcançou o movimento. Com o sucesso da novela Bambolê e até um campeonato de topetes com direito a entrevista no Programa do Jô, a cena começou a ser um assunto nacional e se proliferou a ponto de ocupar inclusive a pauta do Globo Repórter em 1988.

Na época, a massificação dividiu opiniões. Rick (organizador do campeonato de topetes) foi o centro de algumas discussões acirradas. Para uns, ele simplesmente havia se vendido para a grande mídia. Para outros, havia ocupado um espaço midiático importante, evitando que o rockabilly fosse retratado de forma infantil e caricata por pessoas que não estavam verdadeiramente envolvidas com o movimento. Intrigas a parte, o movimento foi crescendo desde então, ganhando novos ícones e se fortalecendo durante a década de 90.

Rockabilly não é só pro seu namorado

Ainda que o rockabilly tenha sido inspirado por símbolos masculinos como Elvis, James Dean e Gene Vincent, o gênero foi significativo para o empoderamento das mulheres dentro rock brasileiro. Divididas entre o estilo pin up clássico e o estilo rocker, com calça jeans e jaquetas de couro, as mulheres promoveram uma grande libertação de padrões em paralelo ao som que rolava.

Betty boops, cedida por Alexandre Maneiro (arquivo pessoal).

Betty boops, cedida por Alexandre Maneiro (arquivo pessoal).

Nos anos 80, no Brasil, surgiu a gangue de garotas chamada Betty Boops Rockabilly, em São Paulo. “[…] De calças justas e batom vermelho, elas usavam somente três cores: branco, preto e vermelho. Eram ousadas. Chegavam lindas e decididas. Olhavam para os rapazes mais bonitos do rolê e chegavam já, cada uma, agarrando o seu paquera. Elas não se importavam com o que os outros falavam ou pensavam e agiam como queriam”, contou no livro MoniBoop, uma das integrantes da gangue.

A atitude não era característica só das meninas “que usavam calças”. As garotas que admiravam o estilo pin up também se organizavam e expandiam o movimento. Outra gangue formada na época foi a Simple Dolls, que convocava outras garotas interessadas em rockabilly para dançar, ouvir, tocar e se divertir da maneira que achassem melhor.

“Para a época, um homem tocar rock e ser rebelde já era obsceno, para uma mulher, então, fazer isso era um absurdo. E essa é a parte boa! Mulheres fazendo um som tão bom ou até melhor do que o dos homens”, comentou o autor. “O rockabilly representou uma quebra na sociedade conservadora. Era (e ainda é) um instrumento de rebeldia e liberdade”.

Novos tempos

Seja para as gerações mais antigas, seja para os mais novos que descobriram com os pais sobre o movimento, o Brasil tem atualmente uma cena fortificada por festivais, bandas e pelo estilo rockabilly de ser. Nos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Amazonas e Brasília, é possível encontrar bandas e festivais que mantém acesa a boa e velha chama do gênero em terras brasileiras.

Uma das bandas atuais citadas por Molinar é a gaúcha Old Stuff Trio, da cidade de Sapucaia do Sul. Formada em 1998, a banda tem uma grande projeção na cena local e chegou a tocar, em 2011, no festival Hemsby Rock n’ Roll Weekenders, um dos mais importantes eventos de rockabilly da Inglaterra.

Além disso, o grupo organiza o Big River Festival, que é o primeiro evento internacional do gênero feito no Brasil, já contando com cinco edições.

Em São Carlos (SP), a Cherry Rat e os Gatunos também segue na ativa. A banda atualmente está se preparando para lançar um novo álbum, o sucessor de Bop To The Hell, lançado em 2014.

Em Curitiba (PR), a banda Hillbilly Rawhide contribui com a cena tocando country e rockabilly. Tendo início em 2003, o grupo continua se apresentando priorizando o seu repertório autoral. A Hillbilly Rawhide conta com um EP, um registro em vinil e cinco álbuns cheios.

O Amazonas também fortalece a cena com Os Dry Martinis, que está na ativa desde 2011 fazendo shows em Manaus e buscando ser o mais fiel possível aos arranjos mais clássicos.

Em Minas, a banda The Hicks apresenta clássicos do rockabilly e ainda agrega o universo do country, do hillbilly e do blues. No fim do ano passado, o grupo (surgido em 2015) lançou o seu primeiro clipe, “Black to Black”.

Todo essa produção mostra que, apesar dos anos 50 já terem passado há tempos, a veia do rockabilly continua bombeando música por aí. Para Molinar, o movimento não é nostálgico, mas agregador, afinal, muitos outros elementos visuais e musicais foram trazidos para dentro do estilo desde o seu surgimento em décadas distantes. Nem tudo é revival.

“O movimento rockabilly acompanhou a evolução do tempo mantendo um pé no passado e o outro no futuro”, ponderou o autor. “Não podemos ficar presos em uma época que já passou, mas podemos adaptar aquele estilo aos tempos atuais. Acredito que qualquer movimento possa fazer isso se osseus integrantes quiserem”.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.