Faça o teste

Browse By

Cauda Longa

“O rock tem apenas 6% de alcance”, mas não se desespere

Na segunda-feira (07/11), um estudo realizado pelo Nexo Jornal circulou pela internet apontando os possíveis gêneros musicais mais queridos entre os brasileiros que utilizam o Spotify. O gênero “eletrônico” apareceu na liderança, empatado com o “sertanejo” (ambos com 13% da quantidade de plays no aplicativo). Logo atrás, estavam o “hip-hop” e o “R&B” (ambos com 10%). O rock vinha bem atrás, com apenas 6% da preferência. Houve comoção social. Houve xingamento ao jornal. O engajado site Tenho Mais Discos Que Amigos cravou: “Adeus, rock and roll? Números do Spotify mostram cenário preocupante”. Mas eu venho com boas notícias. Se você se importa com o futuro do rock, não se desespere. O estudo não é assim tão apocalíptico quanto parece e a popularidade do rock no Brasil provavelmente é bem maior do que aqueles 6% apontados pela pesquisa. E isso não é um discurso apaixonado: é apenas uma obviedade científica.

spotify-mais-ouvidos

Números do Nexo Jornal que viralizaram no início da semana.

Quando nos deparamos com números de uma pequisa, sejam eles alarmantes ou não, a atitude mais adequada a tomar antes de xingar o autor é observar qual foi a metodologia de coleta dos dados. Nisso, o Nexo é bem transparente ao abrir a matéria com a seguinte observação: “O Spotify disponibiliza ao público os dados das 200 músicas mais tocadas em cada país (…). As análises presentes aqui consideram as músicas que fazem parte desses rankings”. Temos aqui a primeira informação relevante: o estudo não é uma análise do CONSUMO REAL de música no Spotify, mas uma pesquisa que tem como objeto apenas as músicas mais ouvidas em cada localidade.

Ora, mas não é a mesma coisa? Lógico que não, amigo. E aqui vale abrir um parênteses.

O Spotify está no mundo digital, e isso significa que, por mais inovador que ele seja, ele obedece a algumas tendências próprias do seu meio. Uma dessas é a tendência de consumo em cauda longa, da qual você já deve ter ouvido falar alguma vez. O conceito popularizado por Chris Anderson em 2006 aponta, entre outras coisas, que:

a) na web, a cultura de massa continua tendo bastante espaço. Na música, essa tendência garante que o mesmo Justin Bieber que domina o rádio e embala as dançarinas do Faustão tenha grande chance de ser um dos artistas mais ouvidos do Spotify também, dividindo essa posição privilegiada com Jorge & Mateus, Henrique & Juliano e outros artistas de um seleto grupo de “mobilizadores de multidões” (e vale lembrar aqui que esse sucesso é muito resultado do reconhecimento angariado dentro da própria mídia de massa);

b) na web, há uma grande (imensa, quase incalculável) quantidade de produtores que não são muito populares, mas que, juntos, somam uma considerável quantidade de consumidores. Na música, essa tendência garante que todas as bandas alternativas, juntas, tenham mais plays no Spotify do que o poderoso e popular Justin Bieber.

O resultado dessa relação de consumo proporcionada pela internet gera um gráfico parecido com esse aqui abaixo. Nele, o consumo real é uma soma entre os hits e os alternativos. Todos os artistas que não habitam o top do mainstream formam uma espécie de grande “cauda” de consumo, enquanto Justin Bieber e outros poucos artistas se concentram numa zona mais vertical à esquerda.

Nesse desenho, é possível ver como o estudo publicado pelo Nexo não representa o consumo real de música no mundo (e talvez nem fosse essa a intenção – só faltou avisar a internet). Na parte azul, estão quase todas as bandas de rock que você escuta. E o estudo publicado pelo Nexo levou em conta só a parte vermelha. Isso significa, por exemplo, que há uma grande possibilidade de a sua banda favorita sequer estar integrando aquele 6% de alcance do rock, porque, se essa banda não teve músicas entre as mais tocadas do país, ela foi sumariamente ignorada na contagem. Resultado: a lista gerada não é pior nem melhor do que aquilo que toca nas rádios. Ela simplesmente reproduz a programação das FMs, e as rádios brasileiras, como sabemos, não tocam rock. Por isso a distorção.

Ver que o estudo se baseia apenas nos hits me fez pensar em algumas coisas até bem engraçadas. O Lucas Portal, nosso colaborador aqui no site, gostou muito do último disco do Justin Bieber, e hoje ele intercala as audições daquele disco pop com as músicas de Fall Out Boy e Motion City Soundtrack que ele sempre ouviu ao longo da vida. Muita gente faz isso de escutar um ou outro artista de massa sem abandonar os seus gostos mais alternativos, que convivem ali, em paralelo. Pois o estudo do Nexo contabilizou TODOS os plays do Lucas no Justin e ignorou TODOS os plays dele nessas bandas menos populares. Estão percebendo onde o rock vai ficando para trás na metodologia aplicada? Para quem lê o estudo, o Lucas nunca ouviu punk rock na vida e é um lunático que tem ouvido apenas Justin Bieber desde que o disco novo saiu.

Lucas Portal: segundo o estudo, esse moço só escuta Justin Bieber no Spotify.

Lucas Portal: segundo análises, esse moço barbudo só escuta Justin Bieber no Spotify.

A amostra pouco precisa considerada pelo jornal, no entanto, ajuda a apontar algumas coisas interessantes. A principal delas é que o rock não possui hoje figuras capazes de, sozinhas, atingir uma grande massa de pessoas. Pelo menos não com a mesma força de outros gêneros. Mas aí vale a pena pensar: quando o rock mundial se sentiu à vontade no topo das listas de reprodução? Seria isso um fenômeno moderno? As listas Hot 100 da Billboard, recheadas de nomes pops desde a metade da década de 80, dizem que de alguma forma há muito tempo é assim.

A confusão gerada pelo telefone sem fio da internet acabou também impedindo algumas discussões válidas que os fãs do rock poderiam propor a partir do estudo publicado pelo jornal. Por exemplo: se o rock se mantém vivo na cauda longa, será que o lucro garantido por essa situação de mercado é o suficiente para as bandas de rock sobreviverem? Juntas, as bandas de rock certamente possuem mais do que 6% de share, mas cada uma dessas bandas lucra em separado e lucra cada vez menos na extensa cauda que vai se formando. Que tal discutirmos isso ao invés de xingar os fãs do Shawn Mendes?

Apenas para deixar registrado: acho o Nexo um dos grandes veículos de imprensa surgidos nessa fase digital de descentralização da informação. O jornal tem oferecido ao grande público uma boa quantidade de conteúdos esclarecedores em uma das piores épocas do jornalismo nacional. Em meio a tantas qualidades, talvez tenha se equivocado no título da matéria (“O gosto musical dos países de acordo com o Spotify”), que induzia ao erro, mas ainda acho que é responsabilidade do leitor ir além da manchete e buscar a verdade dos fatos com olhar crítico. Aliás, se o jornal errou MESMO, foi no tamanho da letra nas notas de rodapé, que poderia ser maior, talvez reluzente, para garantir que o método não passaria desapercebido.

Do mais, vida que segue. Todo mundo continua vivo. E acho que o rock também.