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O Rock in Rio 32 anos depois: da lama ao instagramável

O calor fazia o caminho para o Parque Olímpico parecer mais distante do que realmente era para nós. O celular mostrava meio-dia e o suor já confirmava que seria brabo. Ao longe, dava para identificar uma variedade de cores que ia além dos tons de preto, apesar da grande atração da noite até flertar com o tal público “metaleiro” popularizado pela Rede Globo em 1985, na primeira edição do festival. Nos portões da Cidade do Rock, quando perguntei a alguns o porquê de terem chegado tão cedo, mesmo com um calor daquele, com a sede, a distância de casa e o perrengue, ouvi da fã do Aerosmith, Yasmin Porto, a mesma resposta que todos os outros me deram: “Quero ficar na grade, né?”!

Deslize o botão vermelho para ver o comparativo entre as edições de 1985 e 2017 nas fotos da matéria.

O dia 21 tinha o Aerosmith como headline, sendo antecedida pela terceira chance do Def Leppard no Brasil, o retorno do Fall Out Boy ao país após três anos e o grande momento da Scalene, que abriria o Palco Mundo. No espaço antes dos portões de entrada, uns seguiam de pé enquanto outros se refugiavam sentados nas sombras que conseguiram encontrar ou improvisar usando carrinhos de bebida, lixeiras, cangas e até mesmo papelão.

Um pouco distante, num 11 de janeiro de 1985, o descampado atrás do antigo autódromo de Jacarepaguá recebia cariocas e pessoas do mundo inteiro instigados pela promessa do “maior festival de rock de todos os tempos”. Os chamados “metaleiros”, 32 anos atrás, também enfrentaram suas dificuldades com a mesma finalidade da Yasmin: ver de perto seus ídolos e bandas favoritas, numa época em que uma visita deles ao Brasil era coisa bem mais rara do que hoje.

Em contrapartida, na nossa fila de 32 anos depois, um sujeito muito animado fazia perguntas sobre o festival e sobre as bandas da lineup usando um microfone, oferecendo brindes a quem encostasse nele primeiro e acertasse a resposta. Apesar do cansaço já estampado nos rostos, a maioria parecia prestar atenção naquele quase-standup-cultural, assistindo aos participantes que corriam desesperadamente em direção ao animador enquanto outros preferiam ficar parados no seu lugar sussurrando para si “eu sei qual é a resposta dessa”.

Como uma TV na sala de espera, a brincadeira trazia leveza e funcionava como uma pequena amostra da alegria que todos estavam prestes a experimentar assim que atravessassem os portões. Havia entretenimento antes mesmo da entrada. E foi ele quem deu início ao dia do festival, muito antes da apresentação da Ana Cañas, o primeiro show do dia, no palco Sunset. Antes das 14:00, os seguranças pediram para organizar as filas. E entramos de um jeitinho bem mais tranquilo do que a geração 85.

Ok, a gente já sabe que muita coisa mudou de 1985 até aqui. Mas… que mudanças foram essas que transformaram o promissor evento brasileiro no hoje consagrado maior festival de música e entretenimento do mundo?

De fato, muitas coisas se transformaram além da galera na fila e da localização da Cidade do Rock nessas mais de três décadas que nos separavam do show de Ney Matogrosso em meio à lama dos anos 80. A sociedade adquiriu novos hábitos, num geral, e a conjuntura política do nosso país conferiu ao festival um novo contexto.

No quinto dos 10 dias em que aconteceu a primeira edição, o Brasil se desvencilhou da ditadura após a eleição de Tancredo, resultando numa massa extremamente eufórica e esperançosa que se concentrou na Praça dos Três Poderes para comemorar a eleição do primeiro presidente civil desde 1961. Horas depois, uma massa também eufórica estaria no Rock in Rio para tirar da garganta em pleno festival o grito da democracia há tanto tempo guardado. O mesmo festival que servia como divisor de águas para o show business nacional também serviu de comemoração diante do (ilusório, porém) avanço político.

No fim das contas, o dia 16 de janeiro de 1985 seguiu as palavras do ídolo Cazuza e realmente nasceu feliz. O sonho Rock in Rio de Medina havia se tornado um marco real da música e da expressão social, “a festa da democracia brasileira”, segundo ele próprio chegou a comentar. 32 anos depois, a bandeira que serviu para expressar um sentimento nacionalista de orgulho adquiriu outros significados diante de um contexto político completamente diferente. O sentimento geral agora é de desesperança e, diferente da plateia calorosa e engajada que recebeu Iron Maiden, Queen e Gilberto Gil, reservamos ao festival agora a função de válvula de escape. O Brasil que só anda para trás às vezes precisa ficar do lado de fora da catraca para o bem do dia.

Bem distante da insatisfação oitentista de um povo ex-refém, que se expressava através de metáforas musicais e jeans propositalmente surrados num look anarcocapitalista, nossa catarse passou de gritos de ordem ao descanso mental através do entretenimento. Atualmente, a exposição online fez de nós seres digitais. E é no mundo digital que soltamos a nossa voz. No contexto do festival, não mais se entoa “Diretas, já!” ou “Viva o metal”, mas, sim, “Eu fui!”. Até o conhecido “Fora Temer!” foi pouco ouvido por ali. O perímetro da Cidade do Rock estava reservado para a diversão.

A nova Cidade do Rock mostrou que a lama realmente ficou no passado. Cada detalhe saltava aos olhos e parecia estrategicamente feito para ser fotografado, com direito a hashtags gigantes espalhadas pelo gramado. A organização mostrou que se adequou bem às mudanças de comportamento. E algumas coisas nem mudaram tanto assim, porque aparentemente algumas necessidades do público são atemporais.

As adaptações feitas no formato do Rock in Rio fizeram dele um festival mais diversificado, com ainda mais opções de gêneros musicais e com espetáculos que hoje vão além dos palcos principais. Lado a lado com marcas patrocinadoras e apoiadores, os mais de 300 mil metros quadrados da Cidade do Rock ficaram abarrotados pelas novas maneiras de se experienciar e viver a música.

A Sky trouxe ao público a atmosfera da Rota 66 com o um estande de três andares. A Coca-Cola deixou o show nas mãos de quem quisesse subir ao seu palco e mandar ver em algum instrumento ou no vocal, junto a músicos profissionais contratados pela marca. Mais uma vez, a tirolesa da Heineken atravessou a frente do Palco Mundo, permitindo que os corajosos sobrevoassem os shows principais e vivessem a noite com um pouco mais de adrenalina. Já o Itaú, além da roda-gigante que povoou stories do Instagram em massa, criou outras tantas atrações propositalmente “instagramáveis” para ver a sua marca espalhada pelas redes. Rock em todos os sentidos? Tivemos! Inclusive no paladar: o Doritos criou um sabor especial para o evento com três intensidades de pimenta.

Além disso tudo, não podemos esquecer da tenda eletrônica com mais de 30 DJs confirmados, da Rock Street montada especialmente para enaltecer a cultura africana, do Rock District, da Street Dance, do Digital Stage com participação de youtubers e do Game XP com vários jogos disponíveis para a galera. As bandas, o palco e tudo aquilo que era o único foco em 1985 viraram apenas mais uma coisa na paisagem entre várias ativações de marcas participantes que, de fato, influenciaram diretamente no modo como o festival foi vivido.

Às 2:20 da manhã, nós já estávamos o resto do resto. Nossa alma havia se perdido enquanto perambulávamos atrás de mais uns minutinhos de The Kills e Aerosmith. Depois de assistirmos a TODOS os shows dos palcos principais, respiramos fundo enquanto víamos os fogos de despedida andando para longe do eixo Mundo-Sunset. Por mais que já tivéssemos andado muito, havia ainda uma Cidade do Rock inteira a ser desbravada.

Além dos palcos, do banheiro e da arvorezinha disponível para carregar o celular, não tivemos tempo de ver mais nada daquele lugar: ou curtíamos os shows ou passeávamos pelo resto do espaço, que parecia mesmo ter sido construído para uma geração que navega na internet com mil abas abertas ao mesmo tempo e que não consegue assistir a um vídeo de 10 minutos até o fim. Naquele momento, nos olhamos e entendemos a grandiosidade que confere ao Rock in Rio o título de maior evento de música e entretenimento do mundo. Deu pra curtir 100% a parte da música. Mas a parte do entretenimento… essa vai ficar para 2019.

Fotos de 1985 retiradas do site IRON MAIDEN 666.