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O que aconteceu com o Napster?

Quem viveu o final dos anos 90 sabe do estrago que o Napster causou, mas pouca gente sabe o que aconteceu com a empresa depois que as grandes gravadoras fizeram de tudo para tirar do ar a primeira plataforma de download gratuito de músicas. Nem eu, que sempre fui daqueles curiosos que navegam tardes inteiras atrás de links perdidos, sabia ao certo que rumo as coisas haviam tomado. Um dia, fiquei sabendo que o Napster ainda existia e que havia aberto um escritório em São Paulo. Me deu vontade de conversar com alguém de lá para saber quantos dos boatos que ouvi eram verdadeiros. Troquei alguns e-mails com a assessoria de imprensa e consegui o contato que eu precisava. Numa tarde fria em Porto Alegre, fiz um café e conectei-me via Skype com o Tiago Ramazzini, líder do Napster na América Latina, para falar sobre música independente, tecnologia e tretas judiciais.

Tela do Napster em computador com o Windows 98: pai de todos.

Tela do Napster em computador com o Windows 98: pai de todos.

Os mais novos podem estranhar essa informação, mas houve um tempo em que a música não circulava pela internet. Não havia YouTube. Não havia Spotify. O próprio formato MP3 era apenas uma sigla estranha que o público mais leigo desconfiava ser vírus. Para consumir música, você precisava ir a um show, assistir à MTV ou comprar um disco (quase sempre a preços nada amigáveis). Até a pirataria era pouco acessível nessa época, porque a maioria dos computadores caseiros ainda não tinha gravador de CD. Nesse período jurássico, nos derradeiros anos da década de 90, surgiu o Napster, que disponibilizou em rede mundial a primeira plataforma digital para download de músicas.

O modelo era inovador demais para a sua época, e até por isso arranjou inimigos de todo o tipo. As gravadoras, em especial, prevendo a queda de vendas físicas que o Napster poderia causar, cercaram a plataforma e iniciaram uma fase de embates jurídicos que durou até o momento em que a startup norte-americana começou a sumir do noticiário. Aos poucos paramos de ler notícias sobre o assunto e o Napster deixou de ser o software do momento para se tornar uma vaga lembrança. O que ocorreu à sombra do holofote midiático nessa segunda fase ainda é confuso, mas conta-se que o serviço chegou a ser interrompido durante um curto período, trocou de dono, assimilou as críticas do mercado e mudou um pouco a sua forma de atuação.

“Toda essa briga judicial foi há muito tempo. Hoje, nem os líderes daquela fase estão na empresa mais”, comentou Tiago, como quem já contou essa história várias vezes. Ele me explicou que, desde 2010, os direitos de marca do Napster pertencem à Rhapsody International Inc., que transformou a antiga plataforma de downloads dos anos 90 em um aplicativo de streaming. “Antes mesmo do Spotify surgir, nós e outros players do mercado já víamos o streaming como o único modelo capaz de aproveitar a popularização do mobile para tentar definitivamente aproximar a música e os usuários”, lembrou ele, comentando que neste novo modelo o Napster atua em PARCERIA com selos e gravadoras. Garantiu, inclusive, que o passado proibidão da empresa não prejudica em nada o fechamento dos atuais contratos. “A história acabou redimindo o Napster. Houve um período em que fomos, sim, lembrados como os piratas que acabaram com ‘o ganha pão’ das gravadoras. Mas o momento mudou. A música na web hoje é uma realidade irreversível e isso alterou a visão sobre aquela primeira fase do Napster também. Hoje, nos veem como os pioneiros na democratização real do consumo de música, e isso até facilita o nosso trânsito no mercado corporativo”.

Since we’re on the legality

Atualmente, o Napster é um serviço de streaming “tipo o Spotify”, como alguns usuários comentam na página do aplicativo no Facebook. Aliás, ser “tipo” alguma coisa deve ser uma realidade bem estranha para quem foi o pioneiro em disponibilizar música através da internet. A situação, no entanto, é um demonstrativo do protagonismo que o Spotify assumiu em um mercado com diversos aplicativos que fazem mais ou menos a mesma coisa e que se diferenciam por um ou outro detalhe.

Em junho de 2016, a Reuters divulgou que o Spotify já havia ultrapassado a marca de 100 milhões de usuários (em seu auge, o Napster teve apenas 50 milhões). Como o aplicativo sueco oferece a opção de conta gratuita, nem todo mundo paga para ouvir as músicas de seu catálogo, e apenas 30 milhões desembolsam mensalmente para usar o serviço de streaming que lidera a corrida no setor há alguns anos.

Atualmente, o Napster mantém uma base de 3,5 milhões de ouvintes, todos pagantes. O número é inferior ao que alegam ter a Apple Music (13 milhões) e o Deezer (seis milhões), mas é o suficiente para sustentar a empresa em crescimento e com as contas em dia, o que já é meio caminho andado em um setor marcado pelo desaparecimento repentino de players (Rdio e Grooveshark que o digam).

Da esquerda para a direita: número de usuários atuais do Spotify (em escuro, a quantidade de usuários que pagam para usá-lo). Depois, usuários do Napster em janeiro de 2001 / usuários atuais da Apple Music / Usuários DIÁRIOS do Napster no seu auge / Deezer / Napster atualmente / Tidal / Rdio (que decretou falência em 2015).

Da esquerda para a direita: número de usuários atuais do Spotify (em escuro, a quantidade de usuários que pagam para usá-lo). Depois, usuários do Napster em janeiro de 2001 / usuários atuais da Apple Music / Usuários DIÁRIOS do Napster no seu auge / Deezer / Napster atualmente / Tidal / Rdio (que decretou falência em 2015).

Fontes: 1, 2, 3, 4 e 5

Tiago conhece bem os números, mas acha que eles estão longe de ser definitivos e muita coisa ainda pode acontecer nessa disputa. “O Spotify tem feito bons investimentos em marketing digital e isso tem ajudado a educar o público, mas nem o Spotify, nem o streaming em geral conseguiram se tornar populares ainda, principalmente no Brasil”, comentou o mandatário do Napster. “O grande desafio do Napster e de toda a sua concorrência hoje é explicar ao usuário brasileiro o que é o streaming. É um tipo de serviço que parece óbvio para nós, mas que ainda é um mistério para boa parte dos usuários de internet”.

Enquanto ele falava, eu lembrava que o YouTube atua por streaming e tem grande popularidade, mas fiquei pensando: quantos usuários do YouTube sabem que estão usando um serviço de streaming quando abrem o clipe de “Gangnam Style” para ver mais uma vez a coreografia do menino? Tiago concluiu: “o Brasil tem mais de 100 milhões de usuários de internet e 70% desse pessoal não está nem no Napster, nem no Deezer, nem na Apple Music, nem no Spotify ainda. Então tem para onde o mercado crescer, né?”. É. Parece que tem.

Os herdeiros de Sean Parker: onde vivem; do que se alimentam?

Shawn Fanning era o cérebro por trás do Napster naquela finaleira de anos 90 quando as coisas deram muito certo e de repente começaram a dar muito errado. Em 2002, ele vendeu o Napster e foi investir o seu tempo em outras iniciativas menos estressantes.

Como Shawn era mais introspectivo, foi Sean Parker, seu sócio polêmico e também fundador do Napster, quem ficou mundialmente famoso naquela época das brigas judiciais. Com o tempo, Sean ganhou fama de grande gênio criativo, depois ganhou fama de louco e hoje é um quase quarentão boa pinta que continua tendo boas ideias e se envolvendo em polêmicas bastante noticiadas por tabloides sensacionalistas. Desde o início dos anos 2000, também não integra a equipe que administra o Napster, tendo passado por cargos importantes dentro do Facebook e, mais recentemente, colaborado com o (vejam só) Spotify.

Longe da rotina de glamour vivida pelo seu fundador, a equipe que toca o Napster diariamente é composta por trabalhadores normais, daqueles que batem ponto, cumprem metas, dão entrevista por Skype e vivem o cotidiano de uma empresa com papel histórico indiscutível, mas com uma realidade que exige trabalho duro para que os resultados cheguem e devolvam a marca aos bons tempos. Afinal, vontade de sair na capa da Forbes nunca ajudou a pagar as contas de ninguém, e Eike Batista sabe disso.

Tiago comentou que hoje o Napster é uma empresa média formada por pouco mais de 200 funcionários no mundo. Uma boa parte desses funcionários está na matriz, que fica em solo norte-americano, e a sede brasileira concentra profissionais de comunicação, direito, comércio e (claro) música, que têm total liberdade para dirigir as iniciativas da marca em toda a América Latina.

“A equipe brasileira não atua sobre o produto, não mexe nas funcionalidades do aplicativo, mas é a responsável por todo o conteúdo, pela criação das playlists temáticas, pelas estratégias comerciais e pelos investimentos publicitários”, comentou, destacando a parceria do aplicativo com o Corínthians, firmada em 2015. A dobradinha com o clube paulista, idealizada pelo escritório brasileiro, rendeu alguns milhões aos cofres do Timão e resultou em mais de 25 mil novos usuários para o aplicativo em menos de uma semana.

Napster & Coríthians: com a parceria, o clube paulista passou a produzir conteúdo personalizado para a plataforma, influenciando a sua torcida a baixar o aplicativo.

Napster & Corínthians: com a parceria, o clube paulista passou a produzir conteúdo personalizado para a plataforma, influenciando a sua torcida a baixar aplicativo.

O leque de parcerias ainda inclui a Rádio Transamérica e a operadora Vivo (essa, fruto de um contrato global com a Telefónica S. A.). “Algumas ideias de parcerias partiram da gente e em outras nós fomos procurados. A ideia é abrir esse espaço para marcas que podem nos gerar assinantes e oferecer a elas o Napster como oportunidade de enriquecer a experiência dos seus clientes”, explicou o Tiago.

O Napster quer o mercado independente

Quando descobri que a sede brasileira do Napster tinha liberdade para guiar as ações em toda a América Latina, passei a enxergar com mais otimismo o futuro da empresa. Isso porque o mercado latino-americano não pode mesmo ser encarado com uma mentalidade nórdica, por conta das especificidades que ele possui. Puxei esse assunto com o Tiago, que começou a falar de dados percebidos pela equipe nos três anos em que o aplicativo opera no hemisfério sul.

O primeiro ponto, do qual eu já desconfiava, foi confirmado: os artistas mais tocados no Napster realmente não reúnem a maioria dos plays na plataforma. “Há os hits, os artistas de massa”, ponderou o vice-presidente, “mas há, em paralelo a estes, muitos artistas de menor visibilidade que, juntos, acumulam muito mais plays”. O gráfico de cauda longa de Chris Anderson confirmado em números e transformado em estratégia comercial: “o Napster tem como objetivo de mercado fortalecer os pequenos artistas, porque o rendimento deles significa um aumento do nosso rendimento”, pontuou.

Segundo o Tiago, o primeiro grande desafio do Napster na operação mundial era garantir um catálogo de músicas e artistas numeroso para brigar em pé de igualdade com outros aplicativos semelhantes. Tal necessidade induziu a empresa a assinar contratos com grandes gravadoras que tinham em seu casting centenas de cantores, cantoras e bandas. Vencida esta primeira etapa, a aproximação com pequenos artistas e gravadoras de menor porte será o próximo passo natural. “Sabemos que será necessário chegar nesses pequenos produtores e conversar individualmente com cada um, e estamos armando os contatos necessários para isso”.

Comentei com ele que será um longo trabalho, porque a quantidade de pequenas gravadoras no país é realmente grande. Expus que aquilo que os brasileiros chamam de “pequenos produtores” são empresa realmente pequenas, formadas por uma dúzia de funcionários, diferente do modelo de gravadora independente norte-americana, que possui até contratos com rádios e emissoras de TV. O Tiago comentou que é mesmo impossível calcular o número de pequenas gravadoras que estão em atividade, mas salientou que os produtores e os distribuidores dos quais a empresa se aproximou no último ano tornarão esse processo bem mais prático.

A ideia de um aplicativo de streaming que dedique atenção ao mercado independente é animadora, principalmente para mim que sou um entusiasta do nicho. Faz um tempo que as vendas físicas de muitos artistas não são o suficiente para suprir os custos de produção. A alternativa tem sido apostar em financiamentos coletivos e em apresentações ao vivo para driblar esse impasse, já que o streaming, tal como está, ainda não resulta em grandes lucros aos pequenos produtores.

“Os produtores independentes são muitas vezes vítimas da burocracia também. São empreendedores e artistas com muito talento, mas que infelizmente saem atrás em conhecimento de mercado. Vejo que as coisas têm mudado, mas ainda estão longe do ideal neste quesito”, comentou o entrevistado. “Se você não tem um bom contrato, as suas músicas no streaming nunca renderão dinheiro, independente de quantos plays você conseguir. Por isso, vamos ter que conversar calmamente com todo esse pessoal, para explicar algumas coisas e tentar gerar contratos que de fato sirvam às duas partes”.

Quando a Rhapsody International Inc. distribuiu as sedes do Napster pelo mapa-múndi, a intenção era justamente implantar escritórios de estudo e levantamento de dados que depois fossem capazes de propor estratégias personalizadas para cada localidade. A ideia era que o Napster fosse uma marca global, mas com “sabor local” em cada terra aonde chegasse. “Somos uma empresa norte-americana, mas precisamos refletir a realidade musical de cada país para gerar o interesse dos usuários”, falou o frontman do aplicativo. “Por isso a necessidade de trazer para perto os independentes, que são parte fundamental da cadeia produtiva brasileira. É uma aproximação que o Napster vai fazer aos poucos, com a cautela e o respeito necessários”.

Depois daquele início avassalador que não deu muito certo, a política atual da companhia é manter os pés no chão e não queimar etapas. Do lado de cá, eu ouvia um pouco impressionado. Para quem viu o Napster noventista peitar a Recording Industry Association of America (RIAA) e discutir com o baterista do Metallica em rede nacional por causa de direitos autorais, era bem estranho ouvir as palavras “napster” e “cautela” na mesma frase.

Bola pra frente…

Da época em que o Napster reinou e reinventou a web, ficou a logomarca. O gato de headphones que causou calafrios na indústria durante o início da década passada também colocou à prova um sistema de comercialização da música que só predominava mesmo por falta de alternativa dos consumidores. Aliás, quem comandava esse sistema estava tão lerdo que a própria presença do Napster demorou a ser notada como perigosa.

Quando o software atingiu os primeiros usuários, tanto as grandes gravadoras quanto os artistas do mainstream tentaram fazer pouco caso da novidade digital que prometia mudar a forma como as pessoas se relacionavam com a música. Quando a brincadeira de Shawn e Sean começou a atingir números mais absurdos (8 milhões de usuários em apenas um dia, por exemplo), um verdadeiro barraco se iniciou nos tribunais e não teve trégua até que o Napster se declarasse vencido.

Diversos especialistas discutem o caso até hoje, e apontam que a briga encabeçada pela Sony e pelo Metallica foi um erro, já que a derrota do Napster nem de longe significou o fim do compartilhamento de músicas na rede. Assim que a série de processos chegou ao fim gerando o enfraquecimento do Napster, softwares como eMule, BitTorrent, Kazaa e outros tantos começaram a distribuir música da mesma forma e isso nunca mais parou. Olhando para trás, fica muito claro que a melhor alternativa naquele momento teria sido o diálogo que o Napster tentou firmar com a indústria e que não foi sequer cogitado pelo lado que babava e queria manter os seus rendimentos milionários. Pura teimosia: uma parceria da RIAA com o Napster certamente teria ajudado a inibir o nascimento dos outros softwares de download e ainda teria convertido em lucro boa parte da gigantesca base de usuários que Shawn e Sean haviam acumulado em apenas dois anos de atuação. Mas nada disso foi feito.

A indústria fonográfica entrou em estado vegetativo mesmo tendo vencido a batalha e a cabeça dura de grandes gravadoras e artistas multimilionários acabou fazendo com que a indústria da música enfrentasse uma década de atraso no seu processo natural de evolução. Hoje, o Metallica finalmente entendeu o que estava acontecendo e suas músicas estão disponíveis no Napster. Uma pena que tenham tido essa leitura com mais ou menos uns 12 anos de atraso.

Vivemos para ver: depois de tanto barraco, cá está o Metallica com as suas músicas upadas no Napster.

Vivemos para ver: depois de tanto barraco, cá está o Metallica com as suas músicas upadas no Napster.

Mas todo aquele imbróglio judicial, ainda bem, não gerou só atraso. Dos anticorpos reunidos naquela época, o Napster, já sob nova direção, retirou a lucidez que o tem guiado nos dias atuais. De parceria em parceria, transformou-se em uma empresa que reconhece o seu tamanho e planeja coisas de forma mais realista. De faixa em faixa, segue a sua missão de ensinar aos brasileiros o que é o streaming, nem que para isso tenha que falar de forma pedagogicamente professoral (“o streaming significa 40 milhões de músicas pelo preço de quatro refrigerantes”, diz uma frase na página inicial do site).

Agradeci pelo papo e me despedi do Tiago. Antes, prometi que não esqueceria de linkar aqui o site do aplicativo para quem quisesse conhecer a nova face do (sem exageros) software mais inovador da história da internet. E aqui está o br.napster.com. Se estiver com tempo, passe lá para dar uma olhada no que está acontecendo, mesmo que você já esteja sendo feliz com outro aplicativo. Eu, por exemplo, estou feliz com o Spotify, mas volta e meia dou uma pesquisada para ver o que o Napster anda inventando. Faço isso como quem visita um amigo antigo a quem se deve muito. Talvez ele nunca mais seja o meu melhor amigo de novo, porque a vida dá voltas, mas é bom saber que quem me deu tanta alegria no passado hoje está com boa saúde e planejando coisas para o futuro.