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“O Bidú: Silêncio no Brooklin”: o disco que definiu o rumo dos anos 60 na música brasileira

Jorge Ben Jor (ou Jorge Ben, para os mais chegados) é um dos músicos brasileiros que mais flertou com a diversidade sonora. Fez experimentações que sempre tiveram o samba como fundo, mas misturou o samba com tudo o que foi possível, mostrando sempre o potencial do gênero como frente musical popular. Ao mesmo tempo em que estabeleceu paradigmas, também quebrou diversas regras, principalmente com o disco O Bidú: Silêncio no Brooklin, de 1967. Uma obra pouco conhecida mas muito representativa na trajetória do artista e da música nacional como um todo.

Jorge Ben: O Bidú: Silêncio no Brooklin

Jorge Ben em 1967: seu disco daquele ano definiu os rumos dos anos 60 na música brasileira.

Este disco tem uma desculpa plausível para ser pouco conhecido. Diferente dos quatro primeiros discos de Jorge Ben, este saiu por uma gravadora bem menor do que a então gigante Philips, onde Jorge já não se sentia mais à vontade: contracenando diariamente com grande figuras da música brasileira, Mr. Ben muitas vezes percebia que outros medalhões ganhavam mais prioridade da companhia.

Sentindo que suas músicas não eram trabalhadas da melhor maneira, ele acabou acertando com o selo pernambucano Rozenblit. Foi um tiro no escuro que acabou dando certo. Se por um lado perdeu em visibilidade, por outro lado ganhou em liberdade e autoestima: produziu um disco sem muitos pitacos externos e teve o peito inflado por ser, pela primeira vez, a grande estrela da casa.

Talvez ainda surja um questionamento comum a qualquer um que nunca tenha ouvido falar neste álbum: por que ouvi-lo, afinal? Uma resposta possível seria: porque Caetano disse que este é um dos discos mais importantes de todos os tempos na música brasileira. Mas isto não é argumento suficiente, claro! Então vamos aprofundar melhor esta questão.

O Bidú: Silêncio no Brooklin foi o primeiro disco de Ben a experimentar a fusão do samba (sua especialidade) com a finesse do rock paulistano dos anos 60. É interessante notarmos que aquele samba tradicional no compasso 2/4 (que Jorge Ben executava com sucesso em seu início de carreira) se misturava aqui ao compasso 4/4 do rock e do soul (esse, outro gênero presente na “pangeia” sonora do bolachão). Por conta desta refinada mistura de sons e geografias, Caetano Veloso disse também que este foi um disco de grande influência para o movimento da Tropicália, que explodiria nacionalmente meses depois. Sim: com este disco, Jorge Ben foi uma das fontes do tropicalismo.

O rock iê iê iê com guitarras dissonantes é uma das características mais marcantes do álbum, fruto da parceria de Jorge Ben com o grupo The Fevers, aquela mesma banda de apoio que trabalhou com Erasmo e Roberto Carlos, e que surgiu em meio a outro famoso movimento musical brasileiro, a Jovem Guarda. Notou? Jorge Ben, portanto, fazia aqui a ligação fundamental entre a Jovem Guarda e a Tropicália, materializando uma ponte importantíssima entre os dois mais importantes movimentos da música brasileira dos anos 60 e dando o tom de um importante momento de transição na cultura nacional.

“A tamba está tocando / Um novo príncipe está nascendo / Está até chovendo / Mas é um bom sinal / É um futuro rei pra combater o mal” (Jorge Ben, em “Nascimento De Um Príncipe Africano”)

Morando no bairro do Brooklin, em São Paulo, na companhia de Erasmo Carlos, Jorge conheceu uma realidade um pouco diferente da que vivia no Rio de Janeiro, tanto no cenário artístico, quanto na vida cotidiana. Não é à toa que as letras de O Bidú… apresentam um canto mais agressivo junto a riffs de guitarra, algo diferente daquela declamação contemplativa que ele expressava em contato com a vida carioca. Exemplos disso são as canções “Si Manda” e “Menina Gata Augusta”, que surgiu improvisada numa jam session em parceria com Erasmo. A produção do disco ficou a cargo de Roberto Côrte-Real que anteriormente já havia trabalhado com o fenômeno Maysa Matarazzo.

O Bidú: Silêncio no Brooklin antecipava muito do que iria surgir no cenário musical brasileiro naquele final de década. As influências rítmicas e o suingue misturado à agressividade sonora da guitarra elétrica eram ao mesmo tempo uma pós-Jovem Guarda e uma proto-Tropicália. Um elo perdido que fez com que Jorge Ben se reinventasse e tomasse um fôlego artístico que nunca mais o abandonou. De quebra, o pai do samba-rock ainda acabou se tornando um herói para os gregos de terninho e um visionário para os troianos multicoloridos filhos do Sgt. Pepper’s.