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O algoritmo não curte mamilos

Censura constante em capas de discos tencionará o debate sobre a liberdade artística e pessoal na era das redes sociais?

Abril de 2017. Vésperas do lançamento do disco Simone Mazzer & Cotonete. O distribuidor do disco, em uma atividade que tinha tudo para ser prática e livre de dores de cabeça, postou a capa do álbum no Facebook para gerar um efeito teaser. Horas depois, uma mensagem enviada pela equipe do Facebook informava que a página estava bloqueada e que somente seria liberada se a foto recém postada fosse excluída da rede social. Razão do alarde: a capa do álbum trazia um desenho de uma mulher com os seios à mostra.

Simone Mazzer & Cotonete

Capa/afronta de Simone Mazzer & Cotonete, publicada em abril nas redes sociais. Segundo o Facebook, uma das imagens mais ofensivas que você verá hoje.

“Na época, reclamei e pedi para os funcionários do Facebook analisarem o caso”, contou a cantora Simone em rápida entrevista por e-mail. “Os funcionários então pediram desculpas, dizendo que haviam cometido um erro de avaliação. Postei a imagem de novo, durou um ou dois dias no ar e bloquearam tudo de novo”. A cantora relatou ainda que, no fim, desistiu de postar a foto porque precisava da página no ar para divulgar os seus shows.

O veto a “conteúdos que possam ferir a sensibilidade de outros usuários” – como as redes sociais chamam os mamilos femininos em seus termos de uso – virou um limitador para qualquer pessoa na era do algoritmo. Um impedimento que, na prática, é censura, mas que é amaciada pela nomenclatura de “Padrões da Comunidade” para não causar tanto alarde a quem decidir ler as letras miúdas na abertura da conta.

Artisticamente, o veto virou também uma pedra no sapato de artistas: em 2015, a cantora Karina Buhr já tivera a foto do disco Selvática, onde exibe os seios, apagada arbitrariamente pelo Facebook. E o problema tem grandes dimensões porque não é exclusivo da rede de Mark Zuckerberg: também em 2015, a cantora Juçara Marçal reclamou que o iTunes havia proibido a arte de seu disco Encarnado porque ela apresentava um corpo feminino com mamilos à mostra. Na época, a Apple chegou a sugerir que outra capa fosse confeccionada para o trabalho, mas a artista se negou a seguir a orientação.

Simone, artista que canta no disco cuja capa abre esse post, comentou que a censura da rede social ao seu álbum acabou gerando muito barulho em torno da obra, e que isso acabou sendo positivo no final das contas, ajudando a aumentar o interesse do público pelas canções que estavam por trás da nudez. Ainda assim, ela lamentou a postura do Facebook: “caminhamos a passos largos para trás; tem um monte de vídeo extremamente violento rolando, com mulheres humilhadas, crianças maltratadas, cachorros torturados, político destilando ódio, aquele monte de preconceito… isso tudo pode”. O problema, lógico, é o mamilo. E, detalhe importante: o mamilo feminino.

Sérgio Branco, advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade, falou sobre o caso à Revista UBC em maio deste ano. Segundo contou, as redes sociais possuem autonomia para remover os conteúdos que acharem impróprios sem consultar a terceiros. Aconteceu recentemente até com uma postagem do Ministério da Cultura: em 2015, uma foto de uma índia com os seios de fora acabou sendo bloqueada pelo Facebook. A foto de 1909, feita por Walter Garbe, foi colocada na página do Minc no Facebook para falar sobre o lançamento do Portal Brasiliana Fotográfica e, após bloqueada, só voltou ao ar após o Ministério ter ameaçado um processo por desrespeito à Constituição Federal. Dada a tradição da indumentária indígena, perceba como o “veto à nudez” soa até como filtro étnico em alguns casos.

Sérgio, o advogado, contou também que é raro que um usuário abra reclamações sobre seus conteúdos removidos: o mais normal é que o usuário bloqueado assimile a censura e se adeque às normas da casa. É um processo cíclico regressivo: a presença de conservadores online define o que é ou não uma “ofensa à sensibilidade comum”; depois, o algoritmo toma esta definição como parte da sua operação de censura; em seguida, o algoritmo aplica a sua censura sobre os usuários mais “despojados”; no fim, todo usuário tende a se adaptar ao gosto dos conservadores que ditaram a norma. E só os eleitores do Trump sabem onde isso pode parar, já que o nivelamento parece ser feito por eles.

Analisando o texto da lei, pouca coisa pode ser feita na base do escândalo, já que toda rede social, mesmo sendo um espaço digital, ainda é uma propriedade privada. O dono da rede permite que você entre, retire os sapatos e sente no sofá para assistir à timeline, mas as regras de convivência do lar não são muito democráticas, principalmente quando a questão de gênero entra em cena. E casos absurdos não faltam para ilustrar isso.

Em 2015, a transexual Courtney Demone criou perfis nas redes sociais para documentar o progresso de seu tratamento hormonal para o aumento dos seios. O projeto seguiu tranquilamente até que os seus seios começaram a crescer. Quando os seios começaram a tomar um formato “feminino”, as publicações de Courtney começaram a “incomodar”. Os pedidos constantes para que algumas fotos fossem retiradas do ar denunciavam: seus seios haviam se desenvolvido o suficiente para serem censurados. Em compensação, mais anúncios de beleza passaram a aparecer na sua timeline.

Courtney ainda não feminina o bastante para ser censurada, segundo o Facebook.

Courtney ainda não feminina o bastante para ser censurada, segundo o Facebook.

À época, Courtney lançou um movimento chamado #DoIHaveBoobsNow (tenho peitos agora?), na tentativa de sensibilizar o Facebook e mobilizar pessoas que se identificassem com a causa, mas pouco se avançou quanto a isso desde então, e casos como o de Simone, que abre essa matéria, são a prova disso. E mais: de lá pra cá, o protagonismo das redes sociais na mediação das relações só aumentou. E o quanto avançou-se no debate sobre como a lógica do algoritmo interfere na nossa liberdade? E será que estamos cientes do quanto a lógica dos “termos de uso” padroniza a senso comum de “moral e bons costumes”?

São debates que sequer entraram na pauta e que provavelmente demorarão a serem tidos como problema enquanto houver vídeos de gatinho o bastante para alegrar a segunda-feira. Até lá, sem seios na timeline, por favor, a menos que os seus sejam másculos o bastante para não ofender ninguém.

Este texto é baseado nos escritos de Kamille Viola à UBC em maio deste ano, mas também toma emprestados trechos de publicações da Zero-Hora, da Folha de São Paulo e do portal Mashable. Os textos foram misturados pela Editoria de Remix, adaptados por questão de espaço, tonalizados onde entendeu-se que melhor cabia e o resultado final não necessariamente reflete a opinião dos autores originais.