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Entremundos ao vivo: no vácuo do groove da Nômade Orquestra

A música instrumental proporciona expansões pela sua capacidade de fazer diversas influências habitarem o mesmo espaço/tempo no vácuo do improviso. Mas é importante que se diga: a miscigenação sonora não se trata de simplesmente misturar funk com dub e jazz, mas de ir além e ser capaz de fundir estilos e fazer o ouvinte pensar: “como é que esse funk virou um reggae?”. É ter a capacidade de entreter ouvidos deixando-os a mercê de um som que, por explorar as características universais da música e não se contentar com caixinhas, consegue, não só absorver referências, mas apresentá-las ao mundo com uma nova identidade que deixa o som praticamente inclassificável.

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Se por, um lado, a música instrumental oferece esses caminhos, por outro, é óbvio que nem todo mundo tem capacidade de andar por eles facilmente. O grupo Nômade Orquestra, do ABC paulista, aparentemente tem esse talento. Talvez uma das maiores bandas em atividade no Brasil atualmente no que diz respeito à coesão instrumental, o grupo lançou recentemente o seu segundo disco, que é tão impressionante quanto o primeiro.

Em Entremundos, gravado nos estúdios da Red Bull em São Paulo (e lançado em junho de 2017 pela Far Out Records), a banda mostra que está vivendo um de seus maiores picos criativos, e deixa claro que se não for pra tocar um som que consiga falar com os fãs de Mulatu Astatke e James Brown, tudo no mesmo arranjo, ela nem quer brincar mais. E foi ao vivo, justamente do jeito em que a banda se sente mais à vontade, que o palco do Bourbon Street ficou pequeno para receber tantos redesenhos sobre os meandros do jazz, do blues, do ska, da música brasileira, da africana e de muito mais nesta última quinta-feira.

Nômade Orquestra, Entremundos ao vivo no Bourbon Street

Nômade Orquestra, Entremundos ao vivo no Bourbon Street

Nômade Orquestra, Entremundos ao vivo no Bourbon Street

Nômade Orquestra, Entremundos ao vivo no Bourbon Street

Claro que fundir diversas escolas é uma tarefa que exige, além de repertório, bastante equilíbrio na hora de compor em razão da possibilidade de se pecar pelo excesso. Esse excesso pode vir através de uma cozinha difícil de digerir ou através de um conjunto geral que dificulte a principal razão da música instrumental: executar o que for possível para fazer soar a naturalidade das notas. Este, outro ponto onde a Nômade Orquestra se sai muito bem, tanto no disco, quanto sobre o palco.

Sobre o palco do Bourbon Street, a banda deixou claro que a sua prática é justamente essa: construir para desconstruir; apanhar um som com a pegada de uma “Felag Mengu” e mostrar como nele cabe Fela Kuti sem que o tema perca originalidade; abrir as portas de uma faixa como “Olho do Tempo” e fazer o ouvinte entrar para justamente se perder dentro dela, ao invés de simplesmente indicar um caminho reto com início, meio e fim. Um show compacto de cerca de 90 minutos onde a banda apresentou a sua principal característica, a desconstrução criativa: misturar, fundir e flertar para que o resultado tenha diversas nuances e ainda assim mantenha o brilho do inclassificável sendo “apenas” música.

Fotos: Emanuel Coutinho.