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Deixa Quieto, Macaco Bong

Groove debaixo d’agua: o disco “Nevermind” relido pelo Macaco Bong

Toda música pode ser interpretada de milhares de formas diferentes. Talvez essa seja até uma das coisas mais legais que a música tem. Elementos que para um indivíduo são importantes, para outro simplesmente se desmancham no ar. A música é esse corpo fadado à atualização, predestinado a sempre mostrar novas vias e se renovar na mente de novos ouvintes. Para isso, basta apenas que o som circule, seja na sua forma original, seja acompanhado de alguma grande sacada, um insight revigorante que enriqueça ainda mais a discussão e mostre um lado completamente diferente daquele que todo mundo já conhecia. Foi exatamente isso que o Macaco Bong propôs a Nevermind, um dos discos mais icônicos dos anos 90.

Macaco Bong

A nova formação do Macaco Bong e a missão de fazer as pessoas escutarem o lado musical de Kurt Cobain: “a geração atual conhece mais as polêmicas do Kurt do que as músicas do Nirvana”. Foto por Bernie Walbenny.

Se cada pessoa tem a capacidade de interpretar uma música à sua forma, o músico tem em essa capacidade multiplicada por 10. Tocar e ter o controle sobre as frequências possibilita uma percepção ainda mais diversificada. É aquele lance de ouvir “A” e logo pensar: “pô, se o cara tocasse B ou C, não ficaria mais interessante”? O Macaco Bong decidiu levar essa prática da desconstrução para cima da maior obra do Nirvana. Capitaneado pelo sempre inquieto Bruno Kayapy, o trio instrumental pegou o segundo trabalho dos desleixados de Seattle e o virou do avesso, o quebrou no meio; colocou uns slides, adicionou uns improvisos repletos de blues, visão e sensibilidade. Nirvana em versão blues/jazz instrumental. Foi tanta viagem que o New Yeah teve que trocar uma ideia com o próprio Bruno para entender melhor os bastidores dessa conexão até então improvável.

NEW YEAH: em termos de surpreender a audiência, vocês concordam que esse é o trabalho mais potente da banda desde o EP Verdão Verdinho, lançado em 2011?

KAYAPY: sem dúvidas é um disco potente. Não comparo aos demais trabalhos da banda devido ao momento em que cada um foi feito, com contextos muito diferentes de um álbum para o outro. Verdão e Verdinho aconteceu uma fase em que eu estava bastante focado na onda de trazer para o som da banda mais da linguagem da música regional do pântano mesmo, coisa nossa dali de Mato Grosso, com influências de Helena Meirelles, Almir Sater, Alzira e Tetê Espindola. Já esse disco agora, apesar de ser uma releitura do trabalho do Nirvana, possui ainda bastante dessa influência brasileira porque está no sangue e no DNA do Macaco Bong, mas é um álbum “mais blues”. Essa é a singularidade dele para mim.

NEW YEAH: falando sobre a guitarra, especificamente… qual foi a importância do modelo barítono neste registro?

KAYAPY: já venho adotando a guitarra barítone há um bom tempo. É um instrumento apaixonante. Desde quando experimentei tocar despretensiosamente algumas músicas do Nevermind, achei que algumas coisas ficavam muito bem com esta guitarra e que talvez usar o instrumento pudesse ser um dos diferenciais positivos caso a gente viesse a fazer um álbum de releituras. Mas a minha velha stratocaster, que chamo de Benedictta, também teve um papel importante. Curiosamente, foi a primeira vez que usei essa guitarra novamente em uma gravação depois dos trabalhos do disco Artista Igual Pedreiro!

NEW YEAH: em termos de dinâmica, o disco acabou ficando muito rico. A guitarra barítona, uma bateria que parece emular o jazz sempre que possível e um baixo bastante livre pra costurar a espinha dorsal do som. Como que foi o processo de gravação para chegar nessa fórmula tão bem encaixada?

“Coletivizar a bruxaria. Basicamente foi esse o processo de composição, criação e gravação”.

KAYAPY: a ideia do disco começa em 2009, com o Macaco Bong ainda na sua primeira formação, fazendo uma versão medley de “Drain You” combinada com “Stay Away”. As mudanças de formação depois disso me fizeram arquivar as ideias por um tempo. Em 2013, eu compus “Móviaje” já pensando em “On a Plain”. Tenho a versão pré-dela, que tem umas partes diferentes da que acabamos gravando. Na verdade, fizemos várias versões de todas as faixas, e escolhemos uma de cada, resultando no material que lançamos. O Renato Pestana entrou na banda em pleno processo de iniciar as gravações do álbum e a gente ensaiou muito pouco. Fomos entrando em estúdio e já ensaiando, meio que gravando ao mesmo tempo, ouvindo, gravando de novo… foram alguns bons meses produzindo esse trampo. Senti que isso trouxe o frescor que a gente escuta nas músicas. Rola uma magia interessante quando não se ensaia muito antes de entrar em estúdio. Por isso deixei os caras bastante à vontade para que, acima de tudo, eles somassem na banda através de sua próprias magias também. Coletivizar a bruxaria. Basicamente foi esse o processo de composição, criação e gravação. Gravamos em nosso estúdio, no Pico do Macaco. Eu mesmo produzi os arranjos, gravei, mixei, masterizei e concebi a arte da capa, mas não dei muito pitaco no resultado final que consegui chegar; apresentei para os meninos e foram eles que bateram o martelo, pediram para mudar isso, mudar assado etc.

NEW YEAH: e como você avalia a intervenção deles no disco? A magia deles apareceu?

KAYAPY: sim! Eles foram incríveis no estúdio, mataram tudo takeone, sem cortes, sem edições! Tocaram lindamente. O Renato (atual batera) e o Daniel Hortides (atual baixista) são incríveis músicos que se encaixaram perfeitamente na banda. O Fabrício, que acabou de entrar na banda para somar mais uma guitarra comigo, não chegou a gravar, mas acompanhou todo o processo de gravação desde o início e contribuiu bastante com o álbum, sendo o ouvinte principal da obra. Estamos agora no momento ensaiando e preparando um show muito legal, com uma guitarra a mais, batera, bass, guitarra barítone e guitarra standard.

Macaco Bong ao vivo

Da esquerda para a direita: Daniel, Renato e Bruno Kayapy. O trio responsável direto pelas releituras do Nirvana. Foto por Jairo Lavia.

NEW YEAH: esse disco faz até quem não gosta de Nirvana voltar a escutar o Nevermind. Mas qual a relação de vocês com o disco do Nirvana? Que aspecto nesse trabalho estimulou o Macaco Bong a arquitetar essas releituras?

KAYAPY: Nevermind sem dúvidas foi o álbum mais influente de toda a minha vida, já que sou da geração dos 90, nascido no ano de 86. Quando o Nevermind foi lançado, em 1991, eu tinha quatro anos. Meu primo tinha o disco em vinil e escutava sempre, aí eu, por tabela, acabei tendo um contato precoce com “Lithium”, “Come As You Are”, “Polly”, “Smells like Teen Spirit” e “Territorial Pissings”. Eu ouvia o álbum inteiro e depois umas 100 vezes só a “Territorial Pissings”. Basicamente foi assim o início da minha relação com a música, nada ligado em mídia, MTV, nada mesmo. Minha mídia era o Nirvana. Foi amor à primeira vista. Até hoje amo todos os álbuns, por sinal. Pensei em fazer um trabalho com releituras do Bleach (1989), mas acabei decidindo por fazer com o Nevermind, porquê é um disco mais conhecido e menos arriscado de reler, ao meu ver.

NEW YEAH: o som do Nirvana é muito forte, né? Como foi trabalhar com uma abordagem mais psicodélica-viajante em cima de um disco que é tão intenso e visceral?

KAYAPY: cara, não acho que o nosso disco seja psicodélico. Viajante? Talvez. Quando falo em “psicodélico”, penso logo em sinterizadores, samplers, modulações de efeitos. O Deixa Quieto, ao contrário disso, é 100% orgânico. Não usamos nele qualquer timbre digital. O único pedal que usei foi um chorus + delay construído especialmente para mim; um pedal feito e desenhado a mão, que possui um controle de feedback via sensor de antena interna, ou seja, controlo o feedback da modulação do efeito do pedal com os movimentos do meu próprio corpo e através da aproximação e do distanciamento dos meus pés no pedal. Sim, é coisa de gente doida mesmo, tipo eu e o Leandro Galdino, que construiu essa maravilhosa peça para mim muito gentilmente. De distorções, usei somente a distorção do próprio amplificador da marca PEDRONE AMPS, modelo TITAN, tudo captado por um único microfone shure sm57. Acho que o resultado ficou até mais introspectivo do que viajante, pensando bem. Mas acho legal que você veja psicodelia no trabalho. Um sente sabor de limão, o outro sentiu de tangerina… isso é o que acontece quando o material possui magia. Sobre a diferença do que registramos em comparação com o disco original, essa discrepância torna o trabalho ainda mais legal para mim. O barato da releitura é esse de mencionar, e não necessariamente reproduzir uma versão cover da música.

“A galera da nova geração saca muito mais sobre a vida do Kurt do que sobre a música e os discos que o Nirvana lançou. Grande parte da geração pós-Linkin Park simplesmente não entendeu ainda a importância das obras do Nirvana”.

NEW YEAH: uma releitura abre espaço para novas interpretações do disco original. Existe algo que vocês gostariam que fosse mais valorizado no Nevermind?

KAYAPY: acho que não só olhando para o Nevermind, mas para todos os álbuns do Nirvana, gostaria que as pessoas valorizassem mais o lado musical do Kurt e parassem de pirar nos filmes e nos depoimentos de pessoas que eram ligadas a ele. A atual geração, a que veio depois da minha, a geração do Linkin Park, não conhece o Nirvana muito além de filmes e boatos sobre a conturbada vida do líder da banda. É importante que essa nova geração pare para pensar que são raros os casos de caras que se foram com apenas 27 anos de idade deixando tantos discos de alto nível, como fizeram Kurt Cobain, Cliff Burton e Jimi Hendrix, citando apenas três casos. Tenho certeza que quem fizer isso, de analisar o Nirvana por essa perspectiva MUSICAL, vai encontrar coisas no Bleach, por exemplo. Essa onda da mídia em cima da vida do Kurt atrapalhou bastante a importância musical do Nirvana para todas as demais futuras gerações, incluindo a minha, a que veio depois da minha e a futura geração, que está vindo aí. Acho isso muito louco. A galera da nova geração saca muito mais sobre a vida do Kurt do que sobre a música e os discos que o Nirvana lançou. Grande parte da geração pós-Linkin Park simplesmente não entendeu ainda a importância das obras do Nirvana.

NEW YEAH: ficaram surpresos com a repercussão do disco?

KAYAPY: bastante, cara! 135 mil views em apenas uma semana de lançamento, com vários comentários positivos elogiando o trabalho. Isso é muito gratificante! Estamos todos da banda muito contentes com o feedback deste novo trabalho. Agora vêm os shows, né? Ensaiar e tocar! E adianto: e som está porrada demais ao vivo.

NEW YEAH: a ideia então é tocar ao vivo agora? O que podemos esperar desse futuro próximo?

KAYAPY: estamos criando uma loja virtual da banda, com diversos produtos, como camisetas, dichavadores, sedas e vaporizadores, tudo 100% personalizado, made in Macaco Bong. Queremos tocar esse trabalho ao vivo, mas já não tenho a turnê como um modelo de negócio pra banda. O custo é muito alto para girar no Brasil ou no exterior e atualmente estamos bastante focados com as atividades do nosso estúdio. Os shows vão acontecer mais em sistema bate-e-volta mesmo, sem muito tempo longe de casa, tanto nas apresentações pelo Brasil quanto pelos países vizinhos, como a Argentina, onde temos um público bastante fiel. Logo menos, tem o show de lançamento do Deixa Quieto, se tudo der certo, ainda este ano. Mas a tendência é a banda fazer cada vez menos shows durante o ano e focar em outras atividades, como o Instituto de Audio e MIDI, que estamos fundando ali no nosso espaço na Vila Mariana para oferecer cursos práticos voltados para a produção musical. A previsão de inauguração do Instituto é entre final de outubro e meio de novembro desse ano.

Acompanhe os próximos passos do grupo pela página do Facebook. Leia mais sobre este e outros registros do Macaco Bong no site do selo Sinewave.