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Morrostock 2017

Que 2018 traga mais dias como os que vivemos no Morrostock

Novos festivais surgem a cada ano no Brasil e se multiplicam quase tão rápido quanto as atualizações que aparecem em nossas timelines. Novas marcas surgem, outras são descontinuadas e algumas resistem, se consolidam e se transformam em agentes importantes da região onde existem. Este último grupo é onde se encaixa o Morrostock, festival fundado em Sapiranga (RS) que chegou à sua 11ª edição (a segunda na nova casa, no Balneário Ouro Verde, em Santa Maria). Um evento que a cada ano faz valer mais as cinco horas de estrada que o separam da civilização comum.

Morrostock 2017

Balneário lotado na 11ª edição do Morrostock: os bons públicos das últimas edições comprovam a importância do festival no roteiro de grandes eventos do sul do Brasil.

Todo ano, a experiência de viver o Morrostock se inicia por algumas horas de rodovia. À medida que se acelera e se deixa os prédios para trás, aos poucos se ouve a música ficar cada vez mais alta, com o volume inversamente proporcional à qualidade do 3G. Aos poucos, a beleza da paisagem sempre substitui a necessidade de conferir os novos stories no Instagram e a internet também se torna menos necessária.

Neste ano, nós chegamos no sábado, um dia depois da abertura oficial, e fomos recebidos por uma enérgica apresentação da banda Cactus Flor (RS), que já rolava quando fomos convidados para fazer uma trilha no meio do mato. Para os desavisados, o Morrostock é uma estrutura enorme implantada no “meio do nada”, cercada por árvores, rios e afins. Costuma-se dizer que a natureza é o headliner do evento, e a tal trilha para a qual fomos convidados, já tradicional na programação do festival, é uma oportunidade muito boa para entender o que o Morrostock tem de mais especial. A caminhada tranquila sobre o terreno irregular encontra sua glória no marco final: a Cachoeira do Morrostock. Quem ali se banha, reza a lenda, não volta para a cidade sendo a mesma pessoa.

Cachoeira do Morrostock

A Cachoeira do Morrostock: atração principal, por mais que boas bandas se empilhem no lineup.

O fato de poder experimentar as possibilidades de um local afastado da metrópole com mais de 40 atrações musicais e um punhado de oficinas e atividades culturais acontecendo em paralelo faz do Morro um evento particular. Há muito tempo que o Morro transcende a música e se mostra muito mais uma experiência de convivência em grupo, de contato com a natureza e de respeito por ela do que um simples festival com estandes e grandes nomes na programação. Enquanto o Rock in Rio se molda para ser um festival cada vez mais “instagramável”, o Morro está em outra categoria de festival que também tem marcado bem o seu espaço ultimamente: a dos festivais que se oferecem como possibilidade para largar os aparelhos num canto e pisar descalço num ambiente sem tanta poluição visual.

Além disso tudo, há também a música. O palco Pacal, auxiliar ao principal, recebeu na tarde de sábado a incrível My Magical Glowing Lens (PR) e a Akeem (RS), ambas bandas com material recém-lançado, com espaço na mídia do centro do país e com um vigor de novidade tanto na sua sonoridade quanto na sua performance. A tarde teve ainda o Bloco da Laje, que abriu o palco Pachamama com uma apresentação festiva, seguida por nomes como Estrela Leminski e Téo Ruiz, Paola Kirst e Mulamba. Antes da apresentação principal da noite, o palco auxiliar recebeu ainda o forte show das curitibanas do The Shorts (PR), seguido pelo incrível Joe Silhueta (DF). Depois deles, era a vez d’Os Mutantes.

The Shorts no Morrostock

The Shorts no Morrostock: a banda paranaense trouxe para Santa Maria as músicas do disco “Dawn!”, lançado em 2016.

O início do show dos Mutantes foi um pouco confuso, mas o público estava tão emocionado com a presença da banda que a coisa engrenou naturalmente depois da segunda música. Deve ser louco pode fazer um show como o deles, podendo tocar apenas faixas que ajudaram a construir a música no Brasil. Hoje, o show do grupo tem apenas Sérgio Dias da formação original (um dos melhores guitarristas já vistos no eixo tropical do mundo), mas lhe faz companhia um time de músicos que, se não encantam pelo carisma, impressionam pela qualidade. O grupo passeou pelos clássicos, permitiu que o público cantasse em plenos pulmões e todo mundo passou a ser alguém melhor depois disso.

Sérgio Dias e os seus Mutantes

Sérgio Dias e os seus Mutantes: os clássicos de sempre em um ambiente não tão comum. Foto por Vitória Proença.

Na sequência, os cariocas da Ventre movimentaram uma quantidade surpreendente de pessoas considerando que vinham na cola de um grande medalhão. A banda fez o seu show de costume (e isso bastou para que fosse impactante) e arrebatou uma quantidade ouvidos que certamente procuraram mais sobre o grupo quando puderam acessar a internet outra vez. A programação ainda teve os gringos do Les Deuxluxes (Canadá) e os brasileiros Hierofante Púrpura e Tagore, já na madrugada. Isso tudo para citar apenas os shows que conseguimos ver.

No domingo, uma nova maratona tomaria o Balneário forçando as pessoas a saírem das suas barracas montadas na grama, com destaque para os tão aguardados Francisco, el Hombre (muito favorecida pelo ambiente do festival, que casou perfeitamente com o clima de tertúlia da banda) e Boogarins (que fez um dos melhores shows do evento mesmo sob forte chuva). Os dois grupos estão entre os mais bem cotados do país na atualidade e teriam sido as principais atrações do evento se não fosse a presença inesquecível da cachoeira que vimos no sábado. Imbatível aquela queda d’água.

Franscisco, el Hombre

Franscisco, el Hombre: a banda certa no lugar certo abrilhantando a edição 2017 do Morrostock. Foto por Vitória Proença.

Entre experiências totalmente novas, a proximidade total com a natureza é o que acaba chamando mais a atenção, ao lado da organização do evento, muito acima da média para um festival do seu tamanho. No geral, o fator imersão é o que mais marca na atmosfera do festival. Em tempos de conexão full time e relações pouco profundas, o Morrostock se fortalece como um espaço que propõe o olho no olho, o cheiro da grama e o abraço como prática principal. Com certeza, um dos festivais para se conhecer e viver caso você tenha a oportunidade. Três dias tão intensos que até a própria música se torna uma detalhe, uma pequena parte de um universo criado e mantido por mentes férteis há mais de 11 anos.

* Agradecimento especial à Marquise 51 pelo convite para a cobertura. Em breve, iremos liberar algumas entrevistas em vídeo que fizemos durante o evento. ** As fotos usadas aqui e não creditadas são ou minhas, ou da Juliana Brittes, jornalista que integrou a nossa caravana na aventura mato adentro.