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CENA CONSTANTE NO MORROSTOCK: uma multidão formada por diversas pessoas mergulhadas na sua vibe particular (Foto por Tuanypics)

Fatos e fotos do Morrostock X: 10 anos indo além da música

Madrugada de sábado, 03 de dezembro. Duas horas da manhã. Eu, num sono programado para terminar assim que o ônibus chegasse ao balneário Ouro Verde, sede da décima edição do festival Morrostock, acabei sendo surpreendida ainda na chegada pelo som da banda Identidade, que encerrava a sua apresentação. Mesmo afastada do palco, era possível reconhecer o som tão característico da banda, que já sucedia outras tantas atrações, como Pylla C14, Bixo da Seda, Replicantes, Coronéis da Vicente e Guantânamo Groove. E mais estava por vir, pois ainda subiriam ao palco naquela noite Pata de Elefante, Julio Reny e Cartolas.

CENA CONSTANTE NO MORROSTOCK: uma multidão formada por diversas pessoas mergulhadas na sua vibe particular (Foto por Tuanypics)

CENA CONSTANTE NO MORROSTOCK: uma multidão formada por diversas pessoas mergulhadas na sua vibe particular (Foto por Tuanypics).

A Pata de Elefante trouxe o impacto de uma jam session prolongada que quebrou a hegemonia das bandas com vocal que já haviam se apresentado até então. A atmosfera criada pelo som instrumental do trio, que retornou aos palcos após uma pausa de três anos, foi um ajuste fino para o público que receberia na sequência o icônico Julio Reny e seu repertório que passou por “Não Chores Lola”, “Sandina”, “Jovem Cowboy” e “Paisagem Campestre”, de Nei Lisboa, gravada pelos Cowboys Espirituais em algum lugar da década passada.

Era a primeira noite do festival e o cansaço à essa altura já dava os seus primeiros sinais, mas os habitantes desse mundo paralelo chamado Morrostock ainda tinham um pouco de vida a ser gasto. E foi desse último sopro que a banda Cartolas abusou, colocando o público restante a dançar na pista até amanhecer, numa mescla de hits passados e de canções de seu terceiro disco, Apavorando o Flashdance. A primeira maratona já podia acabar.

NEM SÓ DE SHOW VIVE O MORRO: boa parte do público permanece no local entre um dia e outro, utilizando a natureza como leito e a orla como lounge.

NEM SÓ DE SHOW VIVE O MORRO: boa parte do público permanece no local entre um dia e outro de festival, utilizando a natureza como leito e a orla como lounge (Tuanypics).

O sábado começou chuvoso, mas a vontade de dar conta do lineup me tirou da barraca após menos de três horas de sono! E lá fui ao palco Pacal conferir o som da Pegada Torta, banda de Santa Maria, mas que poderia ser de qualquer outra região do país, tamanha a pluralidade de seu som, que passeia por diferentes nascentes da música brasileira. Destaque para o vocal compartilhado de maneira harmoniosa entre os integrantes.

Ainda abrigada da chuva, conferi o som autoral da Hermano Chiapas, carregado de crítica social, para depois correr, abusar do glitter e me achar/me perder na multidão com o Bloco da Laje. E assim foi! Multidão animada, gente que veio à Santa Maria para se render ao Bloco que, como numa mágica, convocou o sol a se juntar à folia.

MEIO FESTIVAL, MEIO CIRCO, MEIO CARNAVAL: entre um show e outro, artistas tomam o palco para manter o clima da festa em alta.

MEIO FESTIVAL, MEIO CIRCO, MEIO CARNAVAL: entre um show e outro, artistas tomam o palco para manter o clima da festa em alta (Tuanypics).

Na sequência, assisti à Raíssa Fayet, acompanhada de Amanda Pacífico, que voltaria ao palco logo mais com a Orquestra Friorenta, banda vinda de Curitiba e formada em sua maioria por mulheres que misturam ritmos como carimbó, cumbia e chamamés numa performance provocativa, questionadora e não menos divertida.

Raíssa Fayet, inclusive, foi uma das tantas boas surpresas dessas horas intermináveis e nada previsíveis de música que pude ver e ouvir. Voz e violão conduzindo cantos quase que ancestrais, mas pontuados por temáticas muito contemporâneas. “Seu João” acertou de cheio quem lá estava e, sob o refrão “Vem cá dizer, João, que o mundo pede força pra quem tem bom coração”, reuniu junto ao palco um abraço coletivo. Uma energia doada, renovada, abundante.

Também do Paraná, Trombone de Frutas foi a desaceleração providencial naquela sequência de shows: o jazz mesclado a ritmos brasileiros pedia uma atenção mais comedida ao palco. Depois dessa parada estratégica, Bandinha Di Da Dó, com sua pegada circense (e pesada), transformou a todos em palhaços, ordenando coreografias que pareciam uma hipnose tamanha a receptividade do público. Na verdade, era apenas pura diversão e funcionou como um exorcismo necessário para receber uma das atrações mais esperadas da noite (no meu caso “A” mais): Ava Rocha.

Com ela, a noite ganhou outro tom: sólido e instigante. Canções que dão vozes a tantas e diferentes mulheres. Canções que falam de amor, mas não só e não apenas. Psicodelia e tropicalismo que mantiveram o público atento e entregue a tudo que saia de sua boca e de sua alma durante os seus minutos sobre o palco. A iluminação também estava a trabalho da artista, criando cenários surreais onde por vezes ela parecia flutuar.

AVA ROCHA: expectativa extrapolada!

AVA ROCHA: expectativa extrapolada (Tuanypics)!

Ainda embriagado pelo torpor causado por Ava, o público recebeu Liniker e sua banda Caramelows, que derramaram groove onde já havia caído muita chuva. A sensação foi de arrastar os móveis da sala e colocar um bom standard da Motown para tocar. É impressionante como a intimidade que Liniker conquistou junto ao público de maneira muito franca, nada presunçosa, com posicionamento social, representatividade, talento e carisma transbordante está às vezes acima da própria música que ele faz.

LINIKER: a noite de sábado voltou a ser uma grande pista de dança

LINIKER: a noite de sábado voltou a ser uma grande pista de dança (Tuanypics).

A Apanhador Só era também muito aguardada. Com a banda em estúdio para a gravação de um novo álbum, o show no Morrostock marcaria a despedida de Antes Que Tu Conte Outra, lançado em 2013. Porém, um atraso de meia hora devido a passagem de som, que não pôde ser feita antes, esfriou os ânimos do público. Mas nada que abalasse a singularidade do show logo em seguida, pontuada pela precisão de seus músicos e a interação com os fãs. Foi um show bonito, emocionante, feito para cantar a plenos pulmões. Era possível perceber os rostos de quem estava lá dando um até logo animado pelo que virá em breve.

APANHADOR SÓ: na invasão festiva do final do show, público e banda se confundem.

APANHADOR SÓ: na invasão festiva do final do show, público e banda se confundem (Tuanypics).

Quem bravamente resistiu à maratona de shows, oficinas e trilhas no meio do mato teve direito a mais uma dose de ânimo numa crescente que foi de Cuatro pesos de propina (UY), passando por Proyecto Gomez Casa (ARG) e culminando na atração final (e muito louca) do Sonido Satanas (MEX), com a presença do próprio coisa ruim no palco fritando freneticamente ao som de uma cumbia eletrônica. E, com essa cena inusitada, a segunda noite se encerrava.

MESMO SEM MÚSICA, HÁ SHOW: entre uma e outra maratona, a paisagem ao redor vira atração enquanto os tripulantes da nave recarregam as forças.

MESMO SEM MÚSICA, HÁ SHOW: entre uma e outra maratona, a paisagem ao redor vira atração enquanto os tripulantes da nave recarregam as forças (Tuanypics).

Se o sábado foi de catarses, transes e bate-cabeça, o domingo foi uma viagem cósmica, regada a muita psicodelia e experimentação. A Supervão, no palco Pacal, deu o start com o seu mix de estilos a uma tarde que se caracterizou também pela volta do astro rei. O som da banda, já ambientado à noite urbana do Rio Grande do Sul, se encontrou ali com o chão, o verde e uma boa dose de lama causada pela chuva que finalmente resolvia parar.

SUPERVÃO: os beats da babilônia pela primeira vez mato adentro.

SUPERVÃO: os beats da Babilônia pela primeira vez mato adentro (Tuanypics).

A Catavento, banda de Caxias, deu sequência no palco Pachamama. Rock lisérgico e ao mesmo tempo pesado que sobre o palco é ainda mais contundente do que aquilo registrado no LP Cha, lançado recentemente. Os Skrotes mantiveram a vibe, surpreendendo a cada mistura do seu jazz com rock com pitadas de bossa nova e permeado de tantos outros ritmos quase inclassificáveis assimilados apenas pela sensação.

CATAVENTO: a psicodelia dos dois discos apresentada de forma homogênea sobre o palco do Morrostock.

CATAVENTO: a psicodelia dos dois discos apresentada de forma homogênea sobre o palco do Morrostock (Tuanypics).

Os Inmigrantes, banda argentina com trabalho já bem divulgado por aqui, acabou exibindo um repertório interessante, mas uma apresentação bastante tímida que só levantou o público quando da execução de “Graffiti”. Talvez falte ao grupo ainda uma maior identificação com o público local, já que lá se vão alguns anos desde a boa repercussão que tiveram por aqui. A tecnologia vem e vai, mas o show business continua exigindo constância.

Como já era esperado, o festival que completa 10 anos não poderia se encaminhar ao final sem a prata da casa, clássico dos clássicos: Wander Wildner, acompanhado de sus comancheros. Com eles, canções que já atingiram o status de hinos foram revisitadas dando algum espaço para as novidades do novo álbum Wanclub, lançado em 2016.

Antes de partir (ou de nos mandar embora), a nave mãe Morrostock brindou os seus visitantes com a arrebatadora Boogarins. Foi fácil de acreditar por um momento estar vivendo em outra dimensão. A banda de Goiânia, com a sua versão de neo-psicodelia executada por bateria e baixo irretocáveis, além das guitarras e da voz pontual do vocalista Dinho, foi a condutora da última viagem. Um show cheio de antíteses: longo, longo, mas de um jeito que ninguém queria que chegasse ao fim.

BOOGARINS: água, lama e platéia intacta após três dias de som.

BOOGARINS: água, lama e platéia intacta após três dias de som e experiências sensoriais (Tuanypics).

Quando o último acorde soou, o momento de aterrissar chegou a todos.

Final de Morrostock, ainda me recuperando e tentando saber em que momento havíamos todos sido abduzidos, pois a sensação foi essa: sem preparo, sem ensaio e tudo visto com a mesma inicial surpresa. Estranhamento e encantamento profundo por esses três dias de música, pessoas, natureza e vida diversa.