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Mayer Hawthorne no Cine Joia

Mayer Hawthorne: o show começa no palco e só termina na última fila da plateia, perto da porta de saída

Entrar em um estúdio, testar composições, arranjos e timbres para registrar isso em fonogramas é um exercício que ajuda a moldar o artista. Muitas vezes, é neste processo que o artista se descobre e se entende. Mas uma coisa é certa: depois que o disco está pronto, ele precisa funcionar ao vivo, porque é de frente para a plateia que o trabalho registrado em estúdio entenderá se realmente faz sentido. É fora do ambiente controlado que a ideia eternizada nas masters vai conhecer o seu maior impacto sobre o público. Se a gravação ajuda no auto-entendimento do artista, é o palco quem tem a capacidade mor de fazer o artista ser entendido pelos outros.

Mayer Hawthorne no Cine Joia

Mayer Hawthorne no Cine Joia: o show começa sobre o palco, mas só termina na última fila da plateia, lá perto da porta de saída. Foto de Guilherme Lucardy.

Um músico que definitivamente entendeu essa relação de forças e soube como lidar com ela foi o atual midas do funk/R&B Mayer Hawthorne. Com um formato no mínimo audacioso para a sua banda de apoio, sem baixista e sem baterista, o norte-americano ainda assim manteve o groove latente durante os 90 minutos de seu show no Cine Joia no último dia 19. Se em estúdio o seu som é pop e milimetricamente calculado, quase inofensivo, sobre o palco ele ganha requintes de crueldade e se molda como uma outra coisa. É como se ao vivo o artista quisesse ser um outro alguém, justamente por entender a diferença destes dois espaços.

Por vezes, o comportamento de Mayer se assemelha ao de um comediante, não só pelas brincadeiras que ele joga sobre a plateia, mas porque, ao melhor estilo George Carlin, o músico utiliza os primeiros números para entender a atmosfera do público. Diante de algumas plateias, determinadas piadas não têm tão bom desempenho, e o espetáculo de stand up estará perdido se o comediante achar mais graça nas coisas do que acha a sua plateia. Na contramão de bandas que parecem estar se divertindo sozinhas sobre o palco, Mayer busca a química. Ou todos riem juntos, ou é melhor nem chegar na piada seguinte.

Mayer Hawthorne e banda

Mayer Hawthorne e banda: o primeiro show de funk que deu certo sem baixo e sem bateria. Foto por Guilherme Lucardy.

No Cine Joia, com um mini bar montado bem ao seu lado, o também DJ e produtor brindou com a platéia, foi sacando o momento e, entre temas de seus discos Tuxedo II (2017) e Man About Town (2016), fez a plateia rir sem interromper o tempo do funk. Mais engraçado do que o show era a reação do público, que funcionava como uma extensão do palco, rindo e balançando ao mesmo tempo.

O trabalho da banda do cidadão merece um parenteses. Sem uma cozinha, o trampo das notas graves ficou nas mãos do tecladista, que, numa pegada meio Ray Manzarek, fez o papel do baixo e do teclado, enquanto Mayer e seu guitarrista base variavam timbres e contavam com um açucarado apoio no backing vocal. Ao menos para mim, foi o primeiro show de funk sem baixo e sem bateria que realmente deu certo. Um espetáculo no melhor sentido da palavra, principalmente porque tinha tudo para dar errado.

Um músico é muito mais do que o som que ele consegue produzir, embora muitos ainda não tenham se dado conta disso. E, infelizmente, o disco está mais apto a mostrar as sonoridades do que o artista em sua totalidade, com sua marra, sua movimentação, seu comportamento ao ar livre e suas capacidades que vão além da voz, do feeling musical ou do talento com as palavras registradas na letra. Na vitrine, todo terno é igual, e não há muita diferença entre o que veste um galã da high society e o que vestiu Mayer Hawthorne enquanto conduziu a plateia no Cine Joia. Por isso é importante ver as coisas em ação: porque é quando ganha movimento que o terno fino decide se está vestindo um malandro sagaz ou um almofadinha água-com-açúcar.