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Wry: Mario Bross disseca as faixas de “Whales, Sharks and Dreams”

Recentemente, a banda Wry, expoente da música independente brasileira há pelo menos 20 anos, lançou o vinil Whales, Sharks and Dreams, que é basicamente a união de dois EPs já divulgados pelo grupo anteriormente: Whales and Sharks (lançado em 2007) e Deeper in a Dream (gravado entre 2008 e 2009, mas lançado apenas em 2014). Analisando a trajetória do grupo, que por um longo tempo residiu em Londres com retornos esporádicos ao Brasil, percebe-se que as canções contidas no vinil cobrem os últimos anos do mais longo exílio da banda em terras estrangeiras. Narram, portanto, um período de reviravoltas e amadurecimentos que antecedeu o retorno definitivo da Wry à sua terra Natal. O lançamento que parecia ser apenas um pretexto para lançar de novo algumas excelentes canções, dado esse plano de fundo, torna-se uma obra de conteúdo bastante denso e representativo.

Wry: Whales, Sharks and Dreams

Foto de Fabricio Vianna

Surgida em Sorocaba (SP) na primeira metade da década de 90, a Wry transformou-se em um ícone do movimento de bandas que contrariou as regras mercadológicas nacionais e passou a cantar em língua inglesa absorvendo fortes e diretas influências da música independente internacional (inclusive, já falamos sobre este momento da música brasileira por aqui).

Curiosamente, as últimas canções carimbadas no vinil recém-lançado aparecem cantadas em português, na contramão de uma das principais características estéticas do grupo. Internamente, cogitamos a hipótese de que a saudade de casa após tantos anos de exílio voluntário teria gerado canções mais brasileiras dentro da discografia da banda. Mas era tudo hipótese. Então resolvemos chamar o próprio compositor das canções, Mario Bross, para falar sobre cada faixa presente na compilação. Algumas desconfianças foram confirmadas e outras histórias, que nunca imaginaríamos, surgiram até por trás de melodias e letras aparentemente despretensiosas.

Daqui para baixo, o Mario está com a palavra.

Lado Whales and Sharks

1. “Sister”

“Mesmo sem nunca ter sido lançada antes no Brasil, essa faixa é bem conhecida do público daqui. Os vocais, o baixo e a bateria foram gravados no estúdio que montamos na garagem da nossa casa em Londres e as guitarras foram gravadas na sala de estar. Era 2007 e o shoegaze estava voltando a ser assunto nas mesas dos bares e nas lojas de discos. Então esse som tem bastante paredes de guitarras, tremolo, delay e reverb, com uma linha vocal bem melódica e grudenda. A batida foi inspirada em ‘Billie Jean’, do Michael Jackson, e a letra descreve um momento onde eu não me sentia tão bem, até um pouco perdido”.

2. “Different From Me”

“Esse som foi o primeiro que fizemos com o Andre Zanini (baterista), logo depois que o Renato Bizar saiu da banda. Eu sempre curti essa coisa de ter uma grande batida por trás das músicas e o André tem facilidade em criar novos beats mesmo quando eles são inspirados em coisas diretas. Lembro de na época ter assistido a uns vídeos de terreiros de umbanda e candomblé e ter pirado nos sons dos tambores. Acho que essa música veio assim. Além de distorção, reverb, tremolo e delays, colocamos o phaser nas guitarras.  Quando escrevi essa letra, eu estava num período bem estranho. O baterista amigo lá do começo da banda havia nos deixado e eu estava morando sozinho com a minha namorada, hoje minha esposa, pela primeira vez. As diferenças apareceram com mais clareza, tanto comigo e o Renato, que já estávamos distantes, quanto comigo e com a Simone”.

3. “Bitter Breakfast”

“Essa foi a favorita do Kevin Shields, do My Bloody Valentine, quando ele nos viu ao vivo. Já começa por aí (rs). Vocês vão notar que o compasso é contado em tempo diferente do 4×4 e que a música não tem refrão… vai subindo, subindo e subindo. No show, ela costuma ser uma das favoritas do público. Na letra, relato um dia que começou com um café amargo e uma discussão”.

4. “Never Sleep (When I Go)”

“Drum’n’bass com dream pop. Pelo menos é isso que eu escuto e era sobre isso que falávamos quando a construímos. Uma música cheia de altos e baixos na dinâmica. Parece uma música vinda dos sonhos. Lamento bastante na letra, me sinto não querido, nostálgico e ainda um pouco perdido. Foi escrita no meio da madrugada em noites de insônia”.

5. “A Million Stars in You Eyes”

“Essa é a única música inédita desse material recém-lançado e a gravação dela ocorreu alguns anos depois daquele período, já no nosso novo estúdio em Londres. Toda a estrutura e os arranjos são bem originais. Não lembro de nenhuma referência que tivemos durante a gravação. Recentemente, temos tocado ela nos ensaios, mas mudada, numa nova versão, pós-produzida por uma amigo de Leeds chamado Petry”.

Lado Deeper in a Dream

1. “Deeper in a Dream”

“O começo dessa faixa é o final da “Luzes”, que é a última faixa do disco She Science (Monstro, 2009). Louco né? Tem um pouquinho de Pink Floyd, um pouco de baião e um arco de violino na guitarra principal. Tem sido a música de abertura de todos os nossos shows em 2016. A letra é uma declaração de amor. Uma promessa de amor eterno. Quase um pedido de casamento. O EP Deeper in a Dream, lançado em versão cassete pela Terry CREW em 2014, é composto pela sobra do disco She Science, que foi um trabalho onde as gravações foram muito legais, intensas, sem hora pra acabar. Também foi uma época de muitas experimentações, com muitas marcas de guitarras e diferentes amplificadores que acumulamos ao longo dos anos em Londres e que usávamos nas apresentações ao vivo. Nossas horas no estúdio foram as melhores”.

2. “Everybody’s Dancing”

“Essa tem uma levada bem dançante. É clara a alusão às nossas noites de farra, com a galera em casa, saindo pra shows, clubes ou festas. Londres é uma cidade eternamente jovem. É uma loucura. Quando escuto essa música, lembro de muitas cenas. Numas, eu estou passando mal pelo motivo de ‘muitas festas’. Em outras, vejo muitas risadas, correria nas ruas, falação nos ônibus e gritaria na casa. Consegue sentir, né? A primeira vez que tocamos esse som ao vivo foi num show com The Joy Formidable, uma banda que costumava tocar bastante com a gente”.

3. “Nossa História Começa Agora”

“Morar fora por muitos anos pode trazer muita nostalgia. Às vezes, você começa até a ouvir músicas que nunca tinha sentido vontade de ouvir antes, como Maria Bethânia, por exemplo. Eu também comecei a ouvir coisas das quais já gostava, como a Legião Urbana. Por esse motivo nostálgico, algumas das minhas letras na época vieram em português. Essa, especificamente, conta um pouco da minha própria história, que se cruza com a dos meus amigos de banda. Nas entrelinhas, estão as muitas verdades e as máscaras que caíram ao longo do tempo. Lógico que a verdade não é a mesma para todo mundo. O arco de violino volta nessa música e algumas backing tracks rolam também, completando esse clima onírico”.

4. “Regresso”

“Olha que ironia: essa foi a primeira letra em português daquela fase que comentei. É uma faixa que traz bastante emoção pra mim. Eu sabia que estava na hora de voltar ao Brasil. Depois de tanta coisa legal, era a hora de voltar a morar por aqui. Na letra, eu me vejo mudado, mais adulto, mais tranquilo e mais certo do que eu queria com a minha vida. No fundo, eu estava muito feliz com a volta. E note como nessas últimas faixas eu não tenho comentado sobre referências sonoras. São só experiências pessoais. Estávamos tão dentro do nosso som que parecia não haver espaço pra influência externa. De certa forma, dá pra notar mais originalidade nessas gravações que viraram o EP Deeper in a Dream“.

5. “Waves”

“Essa tem sido querida nos shows também. É meio em inglês e meio em português. Relata uma noite, como algumas outras, na qual eu estava em uma mesa com amigos ingleses, no Buffalo Bar, clássico bar londrino (onde eu tinha uma noite semanal e também era um dos gerentes). Tínhamos esses encontros várias vezes na semana. O bar fechava e a gente ficava lá, conversando e bebendo. Mas teve um dia em que ventou muito, choveu e a gente ficou preso por várias horas até passar aquela tempestade. O engraçado é que em Londres garoa muito, mas não chove muito forte como nos países tropicais. Dessa noite, veio ‘Waves’, com uma batia bem dançante, um pouco “abrasileirada”, como a chuva que caiu”.

Informações sobre o vinil e sobre a agenda da banda podem ser conferidas na página da Wry no Facebook.