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Mapeando a Discografia: Mac DeMarco

A tecnologia mais acessível possibilitou que muitos músicos pudessem gravar os seus próprios sons em casa, além de ter dado acesso à ferramentas de distribuição e de divulgação que potencializaram esse processo (o Carlos inclusive escreveu bastante sobre isso aqui). Mac DeMarco é membro dessa geração que grava tudo no próprio quarto e que nunca precisou pisar em um estúdio profissional. Com 27 anos de idade, quatro álbuns gravados de forma artesanal, mais uma porção de compilações com sobras e demos, o canadense se tornou uma peça importante no xadrez da música alternativa atual. Sua figura emblemática e sua música simples, com temas que falam do dia-a-dia de um jovem-adulto comum, ganharam o coração de críticos e fãs. Ganharam também o coração do redator que vos fala, e por isso eu fui o encarregado de inaugurar a seção Mapeando, montando um guia para quem quer conhecer de perto a discografia de Mac DeMarco e todos os aspectos do trabalho desse rapaz.

Rock and Roll Night Club (2012)

★★★☆☆ – Captured Tracks

Rock and Roll Night Club - Discografia de Mac DeMarco

Destaques: “Baby’s Wearing Blue Jeans”, “Rock and Roll Night Club” e “She’s Really All I Need”.

A estreia de Mac em sua carreira solo ocorreu mais ou menos um ano após o último registro do artista com a sua ex (e finada) banda, Makeout Videotape.

Fãs mais saudosos defendem arduamente este primeiro trabalho, chegando a reivindicar que faixas do disco apareçam com maior frequência no setlist dos shows. Eu, particularmente, acho um trabalho interessante, mas muito inferior a todos os discos que vieram depois. Com uma série de gravações de ruídos, samplers e edições estranhas na voz, as canções apresentadas aqui registram desde faixas completas até simples experimentações que não deram tão certo assim.

É verdade que algumas pérolas mostram um pouco daquilo que Mac viria a fazer em seus próximos lançamentos, com guitarras mais agudas, riffs melódicos e ritmos de bateria dançantes descompassados, mas o conjunto em si ainda é bastante irregular.

Para os fãs mais novos, Rock and Roll Night Club pode até passar batido, já que não possui qualquer uma das músicas que lançaram Mac DeMarco para o grande público, mas, mesmo com a irregularidade, é uma introdução importante para entender de onde veio a sonoridade que ganhou tantas pessoas meses mais tarde.  Tudo ainda bem embrionário. Também é a primeira vez em que o Mac aparece usando batom publicamente, algo que se tornaria marca dele entre os fãs, ressurgindo em várias aparições do artista desde então.

2 (2012)

★★★★☆ – Captured Tracks

2 - Discografia de Mac DeMarco

Destaques: “Freaking Out The Neighborhood”, “My Kind Of Woman”, “That Stars Keep On Calling My Name” e “Still Together”.

Ainda em 2012, o canadense decidiu lançar um segundo registro, que recebeu o sugestivo nome de 2, considerado um dos mais importantes trabalhos de sua carreira e o responsável por catapultá-lo na Europa e nos Estados Unidos (rendendo inclusive as primeiras viagens com seu projeto solo fora do circuito canadense).

Uma evolução musical em relação ao disco anterior ficou evidente, com arranjos mais bem trabalhados, gravações mais limpas e músicas que conseguiam criar ondas perfeitas de agitação e calmaria durante a audição. Parte dessa evolução musical percebida em 2 pode ser atribuída à bagagem adquirida na tour de divulgação do trabalho anterior. Também pesou o fato de terem sido registradas, pela primeira vez, canções feitas especialmente para a sua carreira solo, em contraste ao trabalho anterior, que trazia algumas sobras de bandas e projetos dos quais ele já havia participado.

Muito mais romântico do que a estréia, o álbum mostrou composições mais intimistas em que DeMarco trocava as histórias de farra com os amigos por declarações de amor à sua namorada de longa data Kiera Mcnally, apelidada carinhosamente pelo cantor de Ki-Ki – figura recorrente em toda a sua obra a partir dali. “Still Together” (um dos destaques do trabalho!) exemplifica bem a fase apaixonada do compositor: ao final da faixa, Mac deixa o microfone aberto e grava um diálogo entre ele e sua amada que, aparentemente, estava cochilando no quarto/estúdio enquanto ele gravava o seu promissor segundo álbum.

Um fato curioso de se notar nas composições desse disco é que a figura de Ki-Ki aparece bastante não apenas nas canções, mas também nas fotografias e publicações nas redes sociais. Existem diversas teorias sobre o porquê dela ter ganhado tanta visibilidade a partir deste segundo trabalho, mas nada é (totalmente) oficial. Em entrevista para um especial da Pitchfork, Mac comenta como tentou esconder ou, como ele mesmo fala, proteger a sua amada da exposição que ela estava sofrendo com o crescimento da sua carreira. Aparentemente, a partir de 2, ele percebe que dificilmente conseguiria deixar a sua namorada longe dos holofotes, então resolve integrá-la ao trabalho.  Em paralelo a isso, o processo de encontrar a sua própria sonoridade automaticamente fez com que ele recorresse a temas mais cotidianos, onde Kiera obrigatoriamente apareceria, o que gerou sobre a obra de Mac DeMarco essa atmosfera mais romântica/auto biográfica de uma vida em casal.

Mas o cantor não limitou-se ao romantismo, por mais que isso já fosse o suficiente para gerar uma excelente obra. O encarte de 2 na sua versão em vinil trazia uma série de fotografias do cantor, da banda, de familiares e de amigos mescladas a ilustrações de personagens diversos, retratos de pênis (muitos pênis!) e símbolos dos mais variados tipos, montando um quadro de referências que de certa forma ilustrava o imaginário do artista e que aparecia em algumas letras onde a ternura perdia espaço. Já a capa do disco, com Mac segurando a sua guitarra e fazendo o sinal de paz e amor, acabou se tornando uma das suas imagens mais icônicas, já que o sinal, a partir dali, se tornou frequente em suas aparições na mídia.

Comercialmente, o disco rendeu bons frutos para a até então curta carreira. Pouco mais de dois meses após o lançamento, o disco já aparecia em algumas influentes listas de melhores do ano, colocando o canadense em um outro nível dentro do cenário alternativo internacional. O sucesso das 11 faixas que compunham o registro, mesclado ao curto hype de sua estréia, fizeram com que a agenda de DeMarco duplicasse em relação ao seu primeiro ano de shows. A partir dali, a popularidade dele só cresceria em volume e avançaria em termos geográficos.

Salad Days (2014)

★★★★★ – Captured Tracks

Salad Days - Discografia de Mac DeMarco

Destaques: “Salad Days”, “Let Her Go”, “Let My Baby Stay”, “Passing Out Pieces” e “Chamber Of Reflection”.

Depois de encher a sua agenda de shows e ser convidado para participar de grandes festivais pelo mundo, Mac DeMarco reuniu o material produzido durante o conturbado ano de 2013, entre incansáveis viagens e agendas lotadas, e gravou o disco mais importante da sua carreira.

A volta para casa em meio a ascensão rápida de um jovem de 23 anos fez com que o terceiro disco dele trouxesse uma série de letras ainda mais intimistas, relatando sentimentos mais profundos e expondo tudo aquilo que se passava na cabeça de alguém que em poucos anos saiu do interior do Canadá para  ser o protagonista de apresentações lotadas nos principais palcos do mundo.

Ainda em 2014, a revista Pitchfork publicou um documentário especial sobre a vida de Mac (que já foi assistido mais de 1 milhão de vezes no Youtube). O registro ainda virou uma página especial dentro do site, onde a gravação de Salad Days era dissecada e exposta ao lado de relatos pessoais sobre a carreira meteórica desenvolvida até ali.

O efeito de ir de apresentações intimistas (em locais para 200 pessoas) para grandes casas de shows (com ingressos esgotados em diferentes continentes) não tirou de Mac a simplicidade, nem o gosto pela produção artesanal. Salad Days foi todo gravado na sala de sua nova residência no Brooklyn (Estados Unidos). Há, no entanto, uma mudança de atmosfera: sintetizadores e pianos passaram a aparecer em meio às melodias de maneira ainda não vista nos registros anteriores. Sentimentalmente, Mac também havia mudado, demonstrando um sofrimento que era reflexo da grande mudança que sua vida pessoal precisara sofrer por conta de tantos compromissos longe de casa (o que incluía, óbvio, um distanciamento de sua amada Ki-Ki).

Em entrevista para aquele mesmo documentário, Mac comentou a dificuldade que houve entre ele e Kiera durante a extensa turnê que a sua nova fase proporcionou. A crise transbordou para o disco novo e deu origem a um dos trabalhos mais sensíveis e intimistas lançados nos últimos anos. “Let My Baby Stay” trazia frases como “Far as I can tell she’s happy, livin’ with her macky / So please don’t take my love away / Let my baby stay, let my baby stay”, expondo um pouco o momento confuso que Mac e sua namorada viviam durante aquela transformação do garoto do interior em popstar do indie-rock-adolescente-norte-americano.

Desgastes à parte, o trabalho consolidou o som do canadense no cenário internacional alternativo. Junto com a influente estética proposta por ele nos seus sons, começou a popularizar-se também a sua estética indumentária: uma mistura entre roupas de brechó, aparentes dias sem banho e um boné surrado cravado na testa. Você que está lendo este texto e não conhece o fenômeno: acredite, muita gente adotou esse estilo de lá pra cá.

Another One (2015)

★★★★☆ – Captured Tracks

Another One - Discografia de Mac DeMarco

Destaques: “The Way You’d Love Her”, “Another One”, “A Heart Like Hers”, “Without Me”.

Com uma carreira mais sólida e lançamentos circulando em publicações do mundo inteiro, Mac lançou então o seu quarto disco: um mini-álbum com oito músicas em um formato que não chega a ser um disco cheio e nem um EP. É uma continuidade natural de Salad Days, persistindo as composições intimistas, os sons mais calmos e as letras apaixonadas.

A semelhança dos dois trabalhos pode ser creditada a uma nova exposição de Mac aos mesmos fatores, já que a correria e a distância de casa só aumentaram a partir de Salad Days. Outra hipótese, defendida por muitos, aponta que as oito canções são de alguma forma sobras do disco anterior que acabaram sendo retrabalhadas para integrarem um novo registro.

A faixa “Another One”, single do trabalho, traz Mac DeMarco tendo o piano como seu instrumento principal. Há uma progressão de maturidade, com o artista abandonando ainda mais a pose de garoto rebelde e assumindo de vez o papel de “homem de quase 30 anos que precisa lidar com a música como ganha pão”. Não por acaso, a capa que ilustra o trabalho é a primeira onde o canadense aparece sem fazer qualquer tipo de gesto engraçado ou expressão caricata.

Assim como Salad Days, Another One também acabou em algumas listas de melhores discos do ano, mantendo o cantor em evidência e confirmando ainda mais a competência que o jovem Mac tem para lançar grandes hits diante de uma geração que não teve o seu gosto musical construído pelos clipes da MTV, mas sim pela variedade interminável de opções musicais que a internet de banda larga pode oferecer, sem programação linear, sem horários, sem limitações do diretor.

Pelo destaque que assumiu em tempos de incalculável fragmentação dos públicos, Mac DeMarco pode ser considerado um dos artistas mais importantes do cenário independente há pelo menos quatro anos (uma eternidade em termos de internet). É também o representante máximo do sub-gênero de música alternativa que ele mesmo criou com suas canções suaves, quase de elevador, casadas com seu solos certeiros e ilustradas por um rosto com dentes separados. Para além da postura e do som, uma obra que passeia dos momentos mais ingênuos à maturidade de alguém que entendeu o seu lugar e a sua relevância no cenário onde pisa. Ir do primeiro ao último disco é fazer essa viagem com ele, desfrutar de cada percalço e tomar com o cantor a xícara de café cantada “My House By The Water”. E só quem entende a hostilidade da rua sabe o valor que tem essa xícara de café que se toma no retorno ao lar.

Acompanhe a evolução de Mac DeMarco ouvindo a nossa playlist: