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Maggot Brain: a ponte definitiva entre a parte negra e a parte branca da música pop

Assim como James Brown, George Clinton é referência obrigatória e objeto de zilhões de samples, não só no meio do rap como na música pop em geral. Porém, muitos dos que balançam ao som de “What’s My Name?” (releitura do rapper Snoop Dogg para “Atomic Dog”, de Clinton) não conhecem a real extensão do trabalho do mestre do funk espacial. Um bom começo é dedicar alguns minutos à audição do disco Maggot Brain, do Funkadelic.

Maggot Brain, Funkadelic

Maggot Brain, Funkadelic

A primeira investida musical de Clinton (até os anos 50, um pacato cabeleireiro de Nova Jersey) foi na virada para os anos 60 com os Parliaments. De cara, o grupo dele emplacou a singela canção de amor “(I Wanna) Testify” na parada de R&B americana. Animado, Clinton mudou-se para Detroit e foi tentar a carreira como compositor da gravadora Motown. Por lá, Clinton entrou em contato com a psicodelia e com o som de garagem de bandas como MC5 e Stooges.

De casa nova e ouvindo muita coisa diferente, o líder do grupo ficou na dúvida sobre dar continuidade ao projeto que iniciara ou aproveitar o momento de efervescência para catapultar uma nova investida. A dúvida foi solucionada quando a marca de cigarros Parliament, incomodada em ver o seu nome associado a um grupo de doo wop, entrou na justiça contra o cantor.

uma das marcas de cigarros mais cara do mundo não quis o seu nome associado a um grupo do gueto.

Cigarros Parliament dos anos 60: uma das marcas de cigarros mais caras do mundo não quis o seu nome associado a um grupo do gueto.

O imbróglio jurídico foi o que faltava para Clinton mudar o nome da banda e o seu estilo musical. Sob a alcunha de Funkadelic, uma formação muito parecida com a do grupo anterior assinou com a Westbound em 1967. Quatro anos depois, os moços lançariam a sua obra-prima: Maggot Brain.

O disco é um exemplo perfeito do caleidoscópio sonoro que é a obra de Clinton, mas é também um dos maiores clássicos da história da black music, além de ser um dos melhores álbuns lançados na década de 70.

O ouvinte encantado pela fissura black de uma capa visceralmente funk com certeza vai estranhar a primeira faixa: uma viagem guitarrística de mais de 10 minutos executada em um único take por Eddie Hazel (guitarrista do P-Funk, morto em 1994, que era uma espécie de reencarnação de Jimi Hendrix). Encerrada a psicodelia melancólica da faixa-título, “Can You Get To That” entra para o deleite dos funkeiros. Manhosa e malaca ao extremo, a composição faz parte de qualquer top 10 do grupo.

Preste atenção também em “Hit It And Quit It”, em que também fica clara a influência de Hendrix não só no som da guitarra, mas também sobre a sonoridade do Funkadelic como um todo.

“Super Stupid” é um caso à parte. Serviu de base para pelo menos umas cinco canções dos Red Hot Chili Peppers, antecipando em vinte anos aquilo que ficaria conhecido no começo dos anos 90 como funk-metal.

É verdade que, em meio ao clima lisérgico, algumas canções acabam se estendendo bastante, mas precisamos lembrar que estamos em 1971, ainda longe do padrão comercial fast food que reinaria a partir dos anos 90. Nos início dos anos 70, o rock progressivo crescia e mesmo quem não se identificava diretamente com a turma do Floyd sofria a influência da psicodelia sessentista que praticamente induzia à experimentação.

Nessa época, viagem conceitual e música pop eram praticamente sinônimos e, no caldeirão de bons discos que essa mistura toda causou, certamente Maggot Brain soa tão especial por ter sido o trabalho que melhor equilibrou o rock e o groove, erguendo uma ponte histórica entre a parte branca e a parte negra de Detroit. E essa ponte não só segue de pé até hoje como tem sido ponto recorrente de peregrinação. Agora mesmo, em algum canto do mundo, alguém estará cruzando por ela, nem que seja espiritualmente.